terça-feira, 4 de agosto de 2009

Argentinos ficam mais pobres; Kirchners ficam mais ricos

Desocupados (Desempregados), de 1934, do pintor argentino Antonio Berni

A pobreza está novamente em escalada na Argentina, segundo dados de consultorias econômicas, sindicatos e a Igreja Católica. O governo da presidente Cristina Kirchner nega o crescimento do número de pobres, e sustenta que apenas 15% dos argentinos são afetados pela pobreza. Inclusive, a presidente afirma que o número de pobres está em queda permanente desde 2002, quando o país, submerso na pior crise financeira, econômica e social de sua História acumulava 54% de pobres.

Mas, segundo estimativas de diversas consultorias econômicas e sindicatos não alinhados com o governo, como a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), a proporção de pobres oscilaria entre 30% e 40%.

As estatísticas do governo não são levadas a sério desde 2007, quando o então presidente Néstor Kirchner decretou a intervenção do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec). De lá para cá, os índices oficiais costumam ser muito mais “light” que a dura realidade.

Segundo a prestigiada Sociedade de Estudos Trabalhistas (SEL), a proporção de pobres no principal conglomerado urbano do país, a cidade de Buenos Aires e os municípios da Grande Buenos Aires, é de 37% da população.

A CTA sustenta que a cidade de Buenos Aires – a mais rica do país - a pobreza subiu de 10,1% em 2007 para 12,5% em 2008.
Mas, segundo o intervido Indec, a pobreza dos portenhos teria diminuído de 11,6% para 5,3%.

Um estudo realizado em junho por mais de 1.500 paróquias da Igreja Católica em todo o país indica dados mais sombrios que o do SEL, pois afirma que 40% dos argentinos são assolados pela pobreza.

Segundo o ex-presidente do Banco Central Javier Gonzálvez Fraga, 5 mil pessoas transformam-se em “novos pobres” a cada dia. González Fraga afirma que 13 milhões de pessoas, do total de 36 milhões de habitantes, estariam abaixo da linha da pobreza.

Fraga também destaca que a alta inflação argentina, que persiste em 15% anual (enquanto que nos outros países da região está abaixo de 5%, exceto a Venezuela, que também possui altos índices), no atual contexto recessivo gera tensões salariais que tendem a continuar crescendo.
Para complicar, o governo autorizou há poucos dias um “tarifaço” dos serviços das empresas privatizadas, que disparou as contas de gás e eletricidade em mais de 300% (e que promete propiciar uma nova disparada inflacionária).

hand2w A consultoria Equis sustenta que a cada ponto percentual adicional de inflação, 250 mil pessoas transformam-se sem pobres.

O desemprego, que segundo o governo, é de apenas 7%, segundo economistas independentes, seria na realidade de 11,5%. E, tenderia a encerrar o ano em 12%.

Quando caminho pela rua, cada vez mais vejo pessoas sem casa, que não possuem outra opção além de dormir na rua.
Boa parte deles são idosos, que perderam tudo. Uma delas, que fica sentada no portão de um prédio na calle Arenales (entre a rua Rodríguez Peña e a avenida Callao), me disse na sexta-feira: “La calle está dura. La gente no tiene plata para darme” (A rua está dura. As pessoas não tem dinheiro para me dar).
Mais uma vez, tal como na crise de 2001-2002, diversas padarias tentam coloborar e distribuem às pessoas sem-teto de determinados bairros, pães e bolachas grátis no fim do dia, antes de fechar. Isso ocorre em algumas padarias do bairro da Recoleta e em Monserrat.


Estadão

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