sábado, 1 de agosto de 2009

BOLSA ELEIÇÃO - Herança do PSDB e PT


EDITORIAL
O GLOBO
1/8/2009

Há uma cena em "Entreatos", documentário de João Salles sobre a campanha vitoriosa de Lula às eleições de 2002, em que o candidato afirma não acreditar na existência de 50 milhões de famintos no Brasil - número propalado nos discursos petistas. Ele considerava muito, e tinha razão.

Àquela altura, Lula e equipe preparavam o lançamento do Fome Zero, programa que se revelou um fracasso. Não demorou muito para o governo recém-empossado descobrir que o melhor seria partir dos programas sociais herdados dos tucanos - Bolsa Escola, Gás, etc. Surgiu, então, o Bolsa Família, uma aglutinação das linhas assistenciais existentes. A marca lulista começou a ser dada na ampliação desmesurada do programa. Ficara para trás a descrença naquele número mítico. A popularidade alcançada com a veloz ampliação do Bolsa Família seria traduzida em votos na eleição de 2006, e assim o programa virou instrumento-chave na administração lulista. Estudo recente da FGV concluiu que o programa gerou quase três milhões de votos para Lula, no segundo turno. No Norte e no Nordeste a ordenha nos currais do assistencialismo foi farta: 8,1 pontos percentuais a mais que no primeiro turno em Alagoas e 6,53 no Acre, para dar alguns exemplos. A experiência será repetida, agora, a favor de Dilma. Ontem, a pouco mais de um ano das urnas de 2010, Lula, sem que haja previsão orçamentária, anunciou o aumento do benefício básico do Bolsa Família em 9,8%, e dos demais, em 10% - percentuais que são o dobro da inflação verificada de julho do ano passado, quando houve o último reajuste, para cá. O sentido eleitoreiro da medida é gritante. O Bolsa Família iniciou o ano abrigando 11,1 milhões de famílias, mas, com a ampliação verificada em maio e as previstas para agosto e outubro, chegará nas eleições com 12,4 milhões de famílias atendidas. Se considerarmos os dependentes, o programa cobrirá aproximadamente 40 milhões de pessoas, quase tanto quanto o número mitificado pelo PT e do qual Lula desconfiava.

A conta espetada no contribuinte vai, claro, aumentar. Em 2008, ela foi de R$11 bilhões. Com a incrementação eleitoreira, o programa se aproximará dos R$12 bilhões/ano. Pouco dinheiro, em relação ao orçamento total da União, alega o governo. Engano, pois a comparação deve ser feita com outras despesas prioritárias. Os investimentos em educação, por exemplo, são colocados em segundo plano em relação ao Bolsa Família. Lula tinha mesmo razão sobre o tamanho da fome. De acordo com o IBGE, em 2005, a proporção de brasileiros abaixo do peso - medida de desnutrição - era de 4%, um ponto percentual a menos que os 5% considerados normais pela OMS. Era possível localizar este grupo de, no máximo, 8 milhões de pessoas para tratá-las, se fosse o caso. E com isso os bilhões economizados poderiam melhorar a educação, a infraestrutura, etc. Mas o lulismo preferiu ganhar votos da pior forma: pelo populismo.

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