sexta-feira, 7 de agosto de 2009

'Companheiro Delúbio' dá autógrafos e é tratado como 'herói' no congresso da CUT

Estava marcado para 19h30 desta quinta-feira (6), mas às 19h30 o plenário de delegados do 10º Congresso da Central Única dos Trabalhadores (CUT) ainda estava votando as resoluções do encontro, que termina hoje. Depois disso, o jantar num enorme bandejão, com comida simples em sistema self service: salada de alface, maionese, repolho, pepino. Arroz, feijão, nhoque, purê, cenouras. Frango e porco nas "misturas", mousse de chocolate e salada frutas como opções de sobremesa.

Só por volta de 21h30, e depois de muita repetição do "Bolero de Ravel" e de "Escrito nas Estrelas", de Tetê Spíndola, começou a reunião da Articulação Sindical, corrente majoritária da CUT, em que foi lançada a revista "Companheiro Delúbio". A reunião era para ser a última da corrente antes do fechamento da chapa que deve vencer, unificada com outras correntes ou não, o congresso.

A revista "Companheiro Delúbio", impressa em preto e branco, com capa colorida, reúne em 116 páginas uma série de depoimentos que Delúbio pretende usar em sua campanha para voltar ao PT e, se tudo der certo, disputar uma cadeira de deputado federal em Goiás em 2010, depois de ser afastado da sigla em 2005.

Na carta de reintegração ao partido, protocolada em março último, Delúbio afirmava: "Exilado, cumpro meu degredo doloroso há mais de 3 anos, afastado do Partido dos Trabalhadores, sem que a essência de nossa causa deixasse de pulsar em meu coração e de permanecer em minha mente."

Delúbio, o tesoureiro que cuidava das contas do PT durante o processo que ganhou o nome de "mensalão" - um suposto esquema de pagamento a deputados de outros partidos da base aliada - tentou voltar ao partido em março de 2009. Acabou desistindo, o que foi interpretado pelo jornalista Ricardo Kotscho como "um gesto de grandeza". Mas agora, se quiser disputar mesmo uma cadeira de deputado em 2010, precisa se apressar. Tem até um ano antes da eleição de outubro do ano que vem para reingressar no PT ou entrar num outro partido.

Em campanha interna entre os integrantes da CUT, base sindical do PT e central em que construiu seu espaço político, Delúbio deu autógrafos e tirou fotos. Na verdade, esteve nos últimos dias circulando nos corredores da Expo Center Norte, sede do congresso, distribuindo apertos de mão muitas vezes inesperados.

O espaço escolhido para apresentar a revista era "confiável": ao lançar o documento na reunião da Articulação Sindical, Delúbio está "jogando em casa", com pouco risco de contestação. É lá que encontra alguns de seus mais importantes defensores.

Sorridente, dizia a todo momento: "Não estou dando entrevistas para o jornalista", enquanto, com uma militante, brincava: "Seu marido não é ciumento, né?". "À amiga e companheira (como Delúbio a tratou na dedicatória que assinou num dos 10 mil exemplares impressos) Almerinda, educadora."

"Delúbio é o herói da República. Assumiu muita culpa que não tinha. Tem de dar a volta por cima", afirma Marco Aurélio Vargas Cruz, bancário e sindicalista de Curitiba. "Existem formas de estar no poder e se adaptar. Se pudéssemos adaptar o país à nossa forma, seria melhor. Não vou dizer que ele fez ou que ele não fez, se aconteceu alguma coisa, se ele teve de dar dinheiro a algum deputado do PTB para votar com a gente", argumenta. "Ele botou a cara para bater sozinho. Para nós, seres políticos, é horrível ficar lá fora. Por isso admiro muito ele, como admiro o João Paulo (ex-presidente da Câmara dos Deputados). "Ele contribuiu para o processo de melhoria para o país. Parabéns a ele."

"Nós entendemos que ele foi um cara importante do governo Lula. Com certeza existe um sacrifício grande", concordou Sandoval Lopes, do sindicato de hoteleiros de Natal. "Pelos menos, ele é menos ruim do que os outros. Quando eu falo os outros, é a direita."

Rosilene Correa, do sindicato dos professores de Brasília, depois de tirar uma foto da amiga Glorinha com o ex-dirigente petista, defendeu que Delúbio tem uma história e que enfrentou toda a turbulência "demonstrando força dentro do nosso partido, nesta ideologia". Teria, assim, "responsabilidade" nesta transformação por que passa o país.

Injustiçado? "Talvez um incompreendido". Para ela, a bandeira da ética "tem outro viés" e acabou distorcida, "se voltou contra nós, petistas", que tinham de fazer as coisas acontecer. Apoiar Sarney, por exemplo, diz ela, "não nos coloca de igual para igual" com ele. "O que existe é uma situação circunscrita, inevitável".

Antes do evento começar, Delúbio, ansioso, entra e sai da área reservada. Sua companheira, Mônica Valente, conversa com o segurança, que controla justamente essa entrada e o faz, polidamente. Delúbio veste-se como Delúbio: um tradicional casaco de couro escuro sobre uma camisa azul, e anda sobre um tênis reluzente. A barba branca está bem aparada, e o cabelo, escuro, bemcortado. Ele garante que não tinge.

Finalmente, a reunião começa, resumindo-se, no início, a Denise Mota Dau, coordenadora nacional da Articulação Sindical, e a Delúbio. Os outros dirigentes da Articulação Sindical, entre eles o atual presidente da CUT, Artur Henrique, estão reunidos, discutindo a composição da chapa que disputaria a presidência nesta sexta. Delúbio agradece o apoio que diz ter recolhido em dois meses e as 4.000 assinaturas que defendem sua volta ao PT. Depois, emenda um discurso de "luta por um Brasil melhor" e de luta contra a "desigualdade social".

Sem citar a palavra mensalão e sem menções explícitas ao governo Lula, Delúbio diz que, estando sem vínculo empregatício como professor em Goiás por causa dos processos e desfiliado do PT, decidiu criar o blog (agora no endereço http://delubio.com.br/blog/) para "galvanizar" a opinião pública.

Como a revista, o blog reúne depoimentos de figuras importantes dentro do PT e da CUT, entre elas alguns textos conjunturais (como a carta de Suplicy à Direção Nacional, que se opõe a "penas perpétuas" e propõe ao partido adoção de medidas de transparência nas contas, e o texto publicado no blog de Kotscho) e outros textos escritos especialmente para a função - como o do presidente da CUT, Artur Henrique, e o da senadora Fátima Cleide (PT-RO), entre outros.

A fala curta é concluída para a exibição de um vídeo ao som da Raul Seixas. Enquanto Raul canta "Veja/ Não diga que a canção está perdida/ Tenha fé em Deus, tenha fé na vida/ Tente outra vez", Mônica Valente, a companheira que também não dá entrevistas, vai descrevendo as fotos. "Ah, puseram essa; a gente estava assistindo a um jogo do River Plate na casa de uns amigos", comenta, depois de listar algumas manifestações e, principalmente, reuniões do PT e da CUT em que o marido aparecia.

Depois do vídeo, a plateia se manifesta. O deputado distrital Chico Vigilante (PT-DF) lembrou a longa convivência com Delúbio - inclusive o dia em que companheiro dirigia uma Parati na Belém-Brasília, e passou entre duas carretas que vinham em sentido contrário.

As homenagens e memórias pessoais prosseguem, e Arimateia, militante cutista paraibano, cita Delúbio como referência ética e de construção de "enfrentamento da conjuntura". Lembra a CPI do Mensalão e diz que, naquele momento, havia uma disputa com a mídia, "que talvez vá nos condenar pelo que estamos fazendo aqui". Uma professora de Goiás, dirigente do mesmo sindicato de Delúbico, diz que é "cria" do ex-tesoureiro do PT. E por aí vai, até chegar a Marcelo Sereno, ex-diretor de comunicação do PT, que também chama Delúbio de "símbolo da injustiça" que precisa "dar a volta por cima".

Para encerrar, uma militante lê um acróstico: "Determinado; Extraordinário; Leal; Único; Brasileiro; Idealista; Orgulho do Brasil."

Delúbio faz mais alguns agradecimentos e a sessão acaba, já sem muito entusiasmo dos presentes, por volta de 22h40, e também sem a presença dos principais dirigentes da Articulação Sindical, que continuam tentando fechar a composição. A reunião do grupo para referendar a chapa é adiada para o dia seguinte. A festa de Delúbio, apesar dos apoios, termina assim, sem mais nomes de peso.

E o que Delúbio achou do evento? "Bom", responde apenas. "Não estou dando entrevistas."

UOL

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