sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Entrevista com Senador Arthur Virgílio

do Reinaldo Azevedo

Arthur Virgílio (AM), líder do PSDB no Senado, ex-presidente do partido, ex-ministro de FHC, um dos tucanos de maior visibilidade no Congresso, viu-se atingido pela aluvião que colheu o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). Político mais empenhado em punir o peemedebista e os desmando da Casa, teve ele próprio de responder ao contra-ataque liderado por Renan Calheiros, à frente de uma tropa de choque ruidosa e truculenta. As acusações contra Sarney e Virgílio não prosperaram no Conselho de Ética. E ficou no ar a suspeita de acordão, que ele nega com veemência na entrevista que segue.


Virgílio separa os problemas do Senado em dois grupos e admite que errou — e seus erros estariam numa primeira ordem de problemas: práticas antigas e erradas. Mas a outra ordem é a corrupção. “Infelizmente, houve quem adotasse a atitude hipócrita de ficar misturando essas duas estações, mas as pessoas justas compreenderão que tentaram desgastar-me precisamente porque, infelizmente, cometi um gesto ligado àquela primeira ordem de coisas – como praticamente todos na Casa — e tive a ousadia de denunciar e ajudar a desmontar o esquema de corrupção, que são as coisas dessa segunda ordem.”

Virgílio acusa: “Eu poderia matar, roubar, estuprar — e não sou capaz de fazer nada disso —, e eles ficariam coniventes comigo, desde que minha voz não os incomodasse.” E como sair do atoleiro? O senador esboça uma proposta de reforma política e de reforma do próprio Congresso. Segue a entrevista.



Blog - Senador, houve ou não o chamado “acordão”, por meio do qual todos se salvaram?

Arthur Virgílio - Claro que não houve “acordão” ou acordo de tamanho nenhum. O Senador Paulo Duque arquivou 11 denúncias seriíssimas contra o Presidente Sarney. E ainda poderia sustentar contra mim uma representação que o PMDB assinou apenas por retaliação, apenas porque fiz seis denúncias contra Sarney no Conselho de Ética, e meu partido resolveu, oficialmente, endossar parte delas. Será que Duque teria de perpetrar uma iniqüidade contra mim, tomar uma atitude teratológica, absurda, para que as pessoas acreditassem na integridade intelectual dos que não se têm silenciado aqui no Senado?



Blog - Embora o PSDB tenha votado contra Sarney nesta quarta, o PMDB fez questão de votar unido e dar o seu caso por encerrado. O próprio Renan Calheiros afirmou que considerava tudo esclarecido. Se não houve acordão, o que o senhor acha que aconteceu? O senhor realmente conseguiu convencer todos os peemedebistas ou eles deram um jeito de tentar comprometê-lo, mesmo votando a favor?

Arthur Virgílio - Não acho que tenha convencido ninguém. O PMDB já tinha obviamente tomado a decisão de arquivar tudo. Não em função de um acordão, mas porque representara contra mim por retaliação, por eu estar incomodando, e ficaria muito estranho arquivar 11 denúncias e representações contra o presidente José Sarney e permitir a abertura de processo contra mim. Foi por isso que fiz questão de falar antes da votação, não por imaginar que pudesse alterar o resultado, mas para dar uma satisfação ao Conselho, não deixando passar sem esclarecimento, ponto por ponto, as acusações contidas na representação.



Blog - Muita gente associou a crise de agora à do mensalão. Naquele caso, quando um nome do PSDB e um do então PFL apareceram no tal “valerioduto mineiro” — que era coisa diferente do mensalão —, houve um claro recuo da oposição. Aconteceu o mesmo agora?

Arthur Virgílio - Meu nome não “apareceu”. Ele foi “aparecido”, num jogo de chantagem do PMDB. Eu poderia matar, roubar, estuprar – e não sou capaz de fazer nada disso – e eles ficariam coniventes comigo, desde que minha voz não os incomodasse. Acusam-me de fatos menores, dentro do que tem sido o Senado. Artificializaram meu envolvimento, menos para me coagir, porque não sou intimidável, e mais para intimidar previamente muitos colegas meus.



Blog - Então o sr. se sentiu chantageado pela chamada tropa de choque?

Arthur Virgílio - Claro que sim. O líder do PMDB foi claro: “Se o PSDB, oficialmente, endossar as sandices do Arthur Virgílio, nós, em reciprocidade, representaremos contra esse Senador no Conselho.” Aí eu insisti com o Presidente Sérgio Guerra para assinar as representações, e o PMDB cumpriu a promessa. Essa é uma luta que eu escolhi, que procurei. Escolhi. Sabia quem enfrentava e, ainda assim, fui em frente.



Blog - Representantes dessa tropa de choque andaram dizendo por aí que parte dos recursos considerados despesas com o tratamento médico de sua mãe teria servido para pagar dívidas de campanha. Isso é verdade?

Arthur Virgílio - Deslavada mentira, que se protege na covardia do anonimato, desrespeita a lembrança da minha mãe e visa a me ofender pessoalmente. Uma curiosidade: as despesas médicas de minha mãe, dependente do Senador Arthur Virgílio Filho – eleito em 62 e cassado pelo AI-5, em 69 – e jamais dependente minha, foram todas autorizadas entre 2000 e 2006, pelos seguintes Presidentes da Casa: Antônio Carlos, Jader Barbalho, Ramez Tebet, José Sarney e Renan Calheiros, sempre com o aval dos técnicos de Saúde do Senado e a recomendação do então diretor-geral, Agaciel Maia.



Blog - O sr. já admitiu que errou, especialmente no episódio em que um funcionário de seu gabinete recebeu salário enquanto fazia um curso no exterior. Por que era tão fácil fazer a coisa errada no Congresso, especialmente no Senado?

Artur Virgílio - Errei, proclamei isso na tribuna. Outros fizeram o mesmo, e o silêncio deles, combinado com o clima de conivência reinante, tem protegido. Recolhi à União, para a Conta Fundo Especial do Senado, todos os reais que esse funcionário percebeu durante a ausência do Brasil. As coisas erradas, no Senado de hoje, se dividem em dois tipos: o que fiz, que não me beneficiou em nada, e que correspondia a uma certa frouxidão administrativa derivada do exercício de 15 anos de diretoria-geral por um mesmo homem, protegido pelo mesmo grupelho de Senadores; e os casos escabrosos de corrupção, que denunciei desde o início e, por isso, passei a merecer o rancor dos setores “prejudicados”. Infelizmente, houve quem adotasse a atitude hipócrita de ficar misturando essas duas estações, mas as pessoas justas compreenderão que tentaram desgastar-me precisamente porque, infelizmente, cometi um gesto ligado àquela primeira ordem de coisas – como praticamente todos na Casa — e tive a ousadia de denunciar e ajudar a desmontar o esquema de corrupção, que são as coisas dessa segunda ordem.



Blog - Como devolver à população, especialmente àqueles setores que acompanham a política mais de perto, a confiança de que as atuais oposições estão realmente interessadas em moralizar o Senado?
Arthur Virgílio -
Eu nem falaria em “oposições”, porque a honradez, no Senado e fora dele, não é monopólio delas, assim como o episódio do mensalão demonstrou que tampouco o PT era monopolista da ética neste país. Para tentarmos salvar o que seja possível desta indigitada legislatura, é preciso buscar pessoas de quaisquer latitudes partidárias ou ideológicas, que tenham compromisso público e não privado, que respeitem a instituição e não se sirvam dela.



Blog - Por que Renan Calheiros é tão poderoso hoje no PMDB? De onde vem tanta força, apesar de uma pessoa tão, como posso dizer?, polêmica?

Arthur Virgílio - Entendo pouco de PMDB, hoje. Ulysses Guimarães morreu faz tempo.



Blog - Por que a população deve acreditar que o seu partido é diferente do PMDB da tropa de choque?

Arthur Virgílio - Primeiro, porque meu partido não tem tropa de choque. Segundo, porque, perdendo uma eleição, vai fiscalizar o eleito e não se pendurar em estatais. Terceiro, porque tem um projeto de País, que se implantou desde Itamar e se aprofundou com Fernando Henrique, rendendo frutos admiráveis no período Lula da Silva. Quarto, porque disputamos o poder; não somos coadjuvantes. Quinto, porque não disputamos cargos de qualquer governo em qualquer circunstância e Sexto e último porque temos futuro e a Nação nos reconhece assim.



Blog - Diga as três tarefas principais de uma futura reforma política que, na sua opinião, colaboraria para preservar o Congresso dos vexames a que estamos assistindo.

Arthur Virgilio - Num prazo mais longo, como meta a ser alcançada, o Parlamentarismo. A prazo mais curto, o Voto Distrital Misto, que permite ao eleitor conhecer melhor ao menos boa parte dos candidatos. A prazo bem mais curto, regulamentação das coligações partidárias, a fim de proibi-las nas eleições proporcionais, evitar que partido faça parte de mais de uma coligação. Para não me restringir às “três tarefas”, alinho mais algumas medidas que considero importantes: suplentes de senadores só poderiam ser substitutos, não sucessores; em caso de vacância, assumiria o deputado mais votado do partido ou coligação; criação de câmaras especiais, na Justiça, para decidir em definitivo, antes do fim do prazo para inscrição, processos que envolvam candidatos — seria a forma de afastar os fichas-sujas, mas com decisão transitada em julgado; proibição de eleger para o Conselho de Ética parlamentar que esteja respondendo a processo por crime patrimonial ou contra as finanças públicas, já estou propondo isso; permissão para que condutas condenáveis, anteriores à posse, possam ser examinadas para fins de decoro parlamentar — hoje, somente atos praticados após a posse podem ser objeto de processo; também já apresentei Proposta de Emenda Constitucional para esse fim; mandato por prazo máximo de quatro anos para o cargo de diretor-deral do Senado, tendo o nome escolhido pelo presidente da Casa de ser submetido à aprovação do Plenário, que também poderá promover a destituição a qualquer tempo (essa providência também foi por mim proposta).

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