domingo, 9 de agosto de 2009

Louco por uma guerrinha

BANGUE-BANGUE Chávez lança foguetes: mentiras e mais mentiras


Quando começa uma ditadura? Até agora, essa era a principal pergunta que pairava sobre a Venezuela. Eleito e reeleito pelo voto popular, o tenente-coronel Hugo Chávez Frías tem torpedeado sistematicamente as instituições democráticas para implantar o que chama de "socialismo do século XXI" - uma mistura do pior que têm a oferecer o populismo, o ultranacionalismo e o esquerdismo em suas manifestações mais infantis. Ao longo de dez anos, com um típico surto de hiperatividade nas últimas semanas , os principais requisitos para um regime totalitário foram se acumulando: imprensa acuada, Judiciário cooptado, opositores exilados, economia estatizada, Legislativo domesticado e educação ideologizante. Chávez tem apelo, em especial entre as camadas da população que nunca se sentiram representadas, e usou - muito mal, mas usou - o dinheiro do petróleo para simular melhorias para os mais desvalidos. Também é hábil na manipulação cínica do antiamericanismo, como demonstrou ao transformar o caso das armas que saíram do arsenal venezuelano direto para as mãos dos bandidos pseudoesquerdistas da vizinha Colômbia em crise diplomática sobre a atuação de forças americanas no país em operações de repressão ao narcotráfico. Quando não seduz pelo populismo e pelas benesses, ele usa milícias que atacam opositores - depois, finge condenar exageros, como no caso do ataque à Globovisión, baseado na premissa absurda de que gangues armadas poderiam agir em plena capital do país sem o seu beneplácito. Tudo isso é conhecido, e a ópera-bufa da semana passada só relembrou como é triste ver Chávez e seus chavetes destruir o projeto democrático. Mas, enquanto a primeira dúvida vai se esclarecendo, da pior maneira possível, outra questão, tão ou mais dramática que a primeira, surge no ar. A Venezuela é um estado que promove o terrorismo? Poderia, ainda, estar afundando no pântano do tráfico de drogas?

As peças necessárias para compor a resposta a essas perguntas têm brotado aos borbotões desde que o guerrilheiro Raúl Reyes, então considerado o número 2 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), foi morto em uma ação do Exército colombiano em território do Equador. Seus notebooks, encontrados entre os escombros do ataque, revelaram-se uma fantástica caixa de Pandora que tem exposto em detalhes a atuação das Farc, que alia o discurso esquerdista à prática do narcotráfico, e sua ampla rede de colaboradores. Aos 600 gigabytes de informação fornecidos involuntariamente por Reyes, soma-se volume quase semelhante de vídeos, fotos e e-mails encontrados em outros laptops. Depoimentos de ex-guerrilheiros e de pilotos capturados também compõem um quadro detalhado. Alguma dúvida sobre a conclusão? Se houver, esclareça-se: Chávez dá dinheiro, guarida, armas, assistência médica e incansável apoio político às Farc, bando que controla 60% da produção e do tráfico de cocaína na Colômbia. Nas mensagens trocadas entre a elite do grupo ele é chamado de Angel, ou Anjo. Entre as "bondades" angelicais está o caso dos lança-foguetes antitanque que haviam sido vendidos pela Suécia ao Exército venezuelano e - surpresa, surpresa - aparecem em poder das Farc. Com capacidade de perfurar um muro de concreto, os projéteis podem explodir aviões e helicópteros, justamente os principais instrumentos usados na campanha que tem acuado os narcoterroristas. Diante da prova irrefutável do crime, Chávez recorreu à tática habitual do contra-ataque: congelou relações diplomáticas com a Colômbia, insultou o presidente Álvaro Uribe, suspendeu o comércio bilateral e transformou o uso de bases militares colombianas por forças americanas na questão central. Nem é preciso dizer que o governo brasileiro aquiesceu com prazer. Em face da ameaça representada por uma força clandestina de vários milhares de militantes que espalham a extorsão, o sequestro e o tráfico de cocaína nas proximidades das fronteiras nacionais, e da ação antidrogas de até 800 militares sob comando do governo Obama, Brasília optou sem hesitar pela condenação à segunda opção.

Apesar de terem constituído um mesmo país, a Grande Colômbia, e terem compartilhado o mesmo herói libertador, Simon Bolívar, e trajetórias históricas cheias de percalços, Colômbia e Venezuela ocupam hoje polos opostos. No século XX, enquanto a Colômbia esteve apenas dez anos sob regime ditatorial, a Venezuela enfrentou sete ditaduras que consumiram mais de meio século. Em compensação, a Colômbia teve uma guerra civil terrível e, depois de um período de estabilidade, viveu um flagelo nacional com a violência inominável instaurada quando floresceram os grandes chefes do tráfico de cocaína. Nas décadas de 80 e 90, o país quase afundou por completo na autodestruição. Quando Bogotá esteve sitiada, viajar em estradas rumo ao interior era certeza de sequestro. Políticos eram assassinados - ou consumidos pelo poder de corrupção da droga. Plomo o plata - bala ou dinheiro. Para muitos colombianos de então, a Venezuela era o vizinho estável onde poderiam tentar recomeçar a vida. A recuperação do país foi esboçada em 1999, com a assinatura do Plano Colômbia. Desde então, os americanos ajudam - com dinheiro, armas, treinamento e inteligência - os policiais e militares colombianos a combater os plantadores de coca e os guerrilheiros que lhes dão proteção. O sucesso é incontestável: o número de sequestros caiu 85%, a economia cresceu e o investimento externo quintuplicou. A produção de cocaína resiste, mas atualmente a droga não sai mais diretamente da Colômbia para a distribuição nos Estados Unidos e na Europa. Adivinham que país se transformou na principal plataforma de saída dos aviões clandestinos carregados de coca?

Em outros campos a Venezuela de hoje também parece a Colômbia voltando no tempo. A economia está sendo destruída. Entre os motivos estão congelamento de preços, expropriações e aparelhamento ideológico da grande, e quase exclusiva, fonte de renda, o petróleo. A corrupção supera até os conhecidos padrões latino-americanos. Faltam produtos de primeira necessidade - e, cada vez mais, os de segunda e terceira também: importar qualquer coisa virou um inferno. A inflação deve chegar a 36% neste ano, a maior da região. Para encher, mesmo que tropegamente, as prateleiras dos supermercados, o país depende, ironicamente, da Colômbia. Caracas, e não Bogotá, é a cidade mais perigosa da América do Sul. Em dez anos de Chávez, 1 milhão de venezuelanos de nível superior e técnico emigraram. Muitos foram para a Colômbia. Infelizmente, quando a maioria dos venezuelanos descobrir o embuste de Chávez, terá de confrontar um sistema construído para a sua perpetuação no poder. Todo mundo sabe como é duro acabar com uma ditadura.

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Um comentário:

Cachorro Louco disse...

Stenio : Infelizmente esta situação está se extendendo para outros países e tornando a america latina um valhacouto de ditadores aliados a perigosos bandidos .Sem o narcotráfico Chaves não é nada e vice versa.Os traficantes têm muito mais dinheiro do que supoe a nossa vã filosofia.A única alternativa para deter isto é o que a Colombia está fazendo com os Estados Unidos .Juntar tecnologia com conhecimento do terreno para destruir os bandidos.
Não adianta prender os caras ,se faz necessária a execução sumária após a prisão ,para que os mesmos não continuem mandan do de dentro das cadeias.Abraços