domingo, 23 de agosto de 2009

Lula consolida domínio sobre PT

Quando entregar o governo ao sucessor, em 1º de janeiro de 2011, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá completado 30 anos de domínio absoluto sobre o PT. Se o vencedor for a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), Lula somará mais quatro anos às três décadas de mando no partido que fundou. Se for alguém da oposição, pode estar chegando ao fim o mais longo reinado partidário da história do País, embora ninguém duvide de que ele continuará à frente do PT por muito tempo.

Para superar Getúlio Vargas, que teve o comando do PTB por 24 anos, e Ulysses Guimarães, que foi o homem forte do MDB e do sucessor PMDB por 26 anos, Lula aliou o pragmatismo à intuição e à frieza política. Não titubeou em pisar em companheiros de primeira hora nem nos que surgiram depois e que se juntaram à legião de seguidores que arrumou nesse tempo. Lambeu feridas, curou cicatrizes e buscou novos aliados onde parecia improvável, como o ex-presidente Fernando Collor, aquele que há 20 anos foi seu grande inimigo.

No período que vai da fundação do PT, em 1980, até a eleição de 1986, nada se fez no partido sem as bênçãos de Lula. E, quando foi eleito deputado federal em 1986, obtendo a maior votação do País, com 650 mil votos, Lula pegou o cargo mais importante reservado ao partido, o de líder na Assembleia Constituinte de 1987/88. No ano seguinte, foi candidato a presidente da República, feito que repetiu em 1994, 1998, 2002 e 2006. Perdeu as três primeiras e venceu as duas últimas eleições para presidente. Não tentará a sexta candidatura porque a Constituição o proíbe.

Na Presidência da República não se esqueceu do PT. Com o escândalo do mensalão, em 2005, que derrubou toda a direção partidária, Lula obrigou o então ministro da Educação, Tarso Genro, a assumir a direção da legenda. Passado o terremoto, ungiu Ricardo Berzoini para o comando petista. Em seguida, obrigou-o a assumir mais um mandato de presidente, embora ele insistisse em dizer não. Agora, lançou à presidência do PT o ex-senador José Eduardo Dutra (SE), forçando-o a largar a presidência da BR Distribuidora, uma das sinecuras mais desejadas do País.

Assim como cuidou do PT, Lula não se descuidou do Congresso nem da composição de sua base de apoio parlamentar. O pragmatismo o fez perceber que havia errado muito no primeiro mandato, ao não chamar o PMDB para compor o governo. No segundo, acabou por dar aos principais chefes peemedebistas o controle dos ministérios das Comunicações, Saúde, Defesa, Integração Nacional e Minas e Energia.

Entre os aliados estão o presidente do Senado, José Sarney (AP), o líder no Senado, Renan Calheiros (AL), o líder do governo, Romero Jucá (RR), o presidente da Câmara, Michel Temer (SP), e o líder Henrique Eduardo Alves (RN).

Lula entregou para o PP o Ministério das Cidades, cuja estrutura foi totalmente construída sob a ótica do PT. Para o PR, Lula deu o Ministério dos Transportes; para o PTB, o Ministério das Relações Institucionais; para o PCdoB, o dos Esportes; para o PV, o da Cultura; para o PDT, o do Trabalho; para o PSB o de Ciência e Tecnologia; para o PRB o de Assuntos Estratégicos.

"Não se pode negar a extrema competência, a genialidade política do Lula para se manter no poder", diz o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), um dos petistas que o presidente derrubou e deixou pelo caminho. "Mas falta a Lula uma bandeira para onde levar o Brasil. Ele a perdeu. Hoje faz qualquer tipo de acordo. E isso acaba por constranger o PT", afirma. "É preciso reconhecer que Lula não faz um mau governo, embora erre. Faz a distribuição de renda entre os mais pobres pela simples distribuição, sem pensar na forma de encontrar uma escada para tirar a pessoa da miséria. Isso levou o presidente a encarnar a figura do velho político, embora tenha uma origem diferente da maioria."

Lula não quis comentar as informações de que, para obter domínio do PT e do governo, atropelou aliados e amigos. Sua assessoria informou que o presidente buscou garantir a governabilidade e o desenvolvimento econômico do País, além da distribuição de renda para cerca de 45 milhões de pobres.

Estadão

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