domingo, 23 de agosto de 2009

Planalto vai tirar Dilma de cena e reforçar sua blindagem

Alvo de constantes estocadas da oposição, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, sairá de cena por no mínimo uma semana, em setembro, após o anúncio do marco regulatório do pré-sal, no próximo dia 31. As férias da ministra, pré-candidata do PT à Presidência, coincidem com a nova estratégia do Planalto para reforçar sua blindagem. A partir de agora, líderes do PT e do governo no Congresso, dirigentes petistas e até ministros ficarão responsáveis por uma espécie de "comitê" da pronta resposta na Esplanada.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva constatou que Dilma continua "assoberbada" de trabalho e não pode mais acumular a gerência do governo com a coordenação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), os projetos sobre o pré-sal e as atividades de campanha. O descanso foi sugerido pelos médicos logo depois que a ministra terminou, na semana passada, o tratamento de radioterapia para combater um câncer no sistema linfático.

Dilma está preocupada com o bombardeio na sua direção. Em reunião realizada na quarta-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB)- sede provisória do governo -, a ministra negou diante de colegas e dirigentes do PT que tenha feito qualquer solicitação à então secretária da Receita Federal Lina Vieira. Demitida do cargo, Lina acusou Dilma de ter pedido a ela para "agilizar" investigações do Fisco sobre a família do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Convocada pelo chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, para definir o roteiro que seria cumprido poucas horas depois pelo PT no Conselho de Ética, a fim de salvar Sarney, a reunião daquele dia também tratou da blindagem de Dilma. A avaliação foi de que os ataques à chefe da Casa Civil vão crescer e é preciso protegê-la.

Dilma disse não entender por que Lina quis arrastá-la para nova crise. "Eu nem sabia que ela seria demitida", afirmou. Para o Planalto, o depoimento de Lina à Comissão de Constituição de Justiça do Senado, na terça-feira, exibiu uma mulher "contraditória e evasiva", que não conseguiu provar as acusações.

Mesmo assim, o governo está convencido de que é necessário tomar providências para evitar que a oposição cole em Dilma o carimbo de "mentirosa". A ordem é partir para o confronto e, se o alvo for relacionado a alguma medida administrativa, comparar com a gestão do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

"Faz tempo que nossos adversários querem desconstruir a imagem da Dilma", afirmou o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP). "Quem tem de fazer o contraponto na política somos nós, e não ela."

Um ministro disse ao Estado que os governadores José Serra (São Paulo) e Aécio Neves (Minas), pré-candidatos do PSDB à sucessão de Lula, também escalam secretários para a contraofensiva, quando não querem mexer em vespeiros. Seu argumento é: por que Dilma tem de pôr a cara para bater antes da campanha?

Lula quer que a concorrente do PT apareça apenas em agendas positivas, como o anúncio do novo modelo de exploração do petróleo, daqui a oito dias. O Planalto vai transformar o pré-sal em trunfo político da campanha de 2010 e prepara grande cerimônia, salpicada de verde e amarelo, para anunciar as medidas. Dilma será a estrela da solenidade, mas não deverá comparecer à festa do 7 de Setembro, pois planejou seu descanso para esse período.

DEBANDADA

Embora tenha dito que pretende trocar a maioria dos ministros que disputarão eleições por secretários executivos, Lula não aplicará essa regra na Casa Civil. "A eleição vai desmontar uma parte da equipe, mas o palácio eu não vou desmontar", avisou o presidente.

Para a vaga de Dilma, o mais cotado, até agora, é o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, e não a secretária executiva da Casa Civil, Erenice Guerra. Gilberto Carvalho e os ministros Franklin Martins (Comunicação Social) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência) também continuarão em seus postos e vão integrar o time da defesa de Dilma. O ex-chefe da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu exercerá a mesma função, por meio de seu blog.

Em conversas reservadas, logo que foi informada sobre sua doença, Dilma admitiu a possibilidade de deixar o cargo em janeiro de 2010, para fazer campanha, caso seu tratamento a impedisse de conciliar as atividades. Lula a convenceu a mudar de ideia, sob a alegação de que o governo é "uma vitrine". O plano do presidente é liberar os candidatos da Esplanada em 3 de abril, prazo fixado pela Lei Eleitoral. Dos 35 ministros, 17 querem entrar na corrida de 2010.

Objeto do desejo do PT e também do PMDB, a cadeira do ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro - que está de malas prontas para o Tribunal de Contas da União (TCU) -, pode ser ocupada pelo deputado Antonio Palocci (PT-SP). Lula só não bateu o martelo ainda porque espera o julgamento de Palocci pelo Supremo Tribunal Federal (STF), na quinta-feira.

Ex-ministro da Fazenda, Palocci é acusado de ter violado o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. O governo confia na sua absolvição. Se isso ocorrer, o ex-homem forte da economia será reabilitado. No xadrez político de Lula, Palocci tanto pode ser o articulador do Planalto, no lugar de Múcio, como candidato do PT ao governo de São Paulo, caso o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) insista na ideia de disputar a Presidência, e não o Palácio dos Bandeirantes.




Turbulência à vista

Os problemas na pré-candidatura à Presidência da ministra

Dilma Rousseff (Casa Civil)

AS DÚVIDAS

Plebiscito


Lula quer uma campanha plebiscitária, isto é, levar o eleitor a escolher o candidato sob a promessa de que as políticas públicas não vão mudar. Com Ciro Gomes (PSB) e Marina Silva, pelo PV, interessados em disputar a sucessão, cresce o número de candidatos e fica mais difícil o modelo plebiscitário

Mulher

A ministra Dilma já usa o marketing da "mulher candidata" ao Palácio do Planalto para conquistar a simpatia do eleitorado. Se Marina decidir mesmo concorrer, essa bandeira deixa de ser exclusiva de Dilma. E o apelo pode ser ainda menor se Heloísa Helena (PSOL) também disputar o Planalto

Imposição

Parte considerável do PT e dos partidos da base aliada do governo Lula não engoliu até hoje a maneira como o presidente impôs a pré-candidatura da ministra da Casa Civil. A esquerda do PT, que faz mobilização popular, acha Dilma uma tecnocrata que está aprendendo a fazer discurso político

Saúde

Na base do governo, alguns aliados falam até em preservar a ministra - que na semana passada terminou tratamento de combate ao câncer, no Hospital Sírio Libanês - de uma desgastante corrida à Presidência. A avaliação geral é de que a sucessão de Lula exigirá uma carga exaustiva de viagens e compromissos, sem falar nos embates com adversários

Aliados inquietos

No PMDB, principalmente entre as lideranças da Câmara, há um debate aberto, mas de bastidor, sobre o temor de que o partido esteja entrando em uma "canoa furada" com o apoio a Dilma. Há peemedebistas que não desistiram de Aécio Neves (PSDB) e insistem em um movimento para cooptá-lo

Estados

Se o PMDB não for unido para a candidatura da ministra da Casa
Civil à Presidência, haverá uma polarização nas alianças
regionais, com os demais concorrentes ao cargo tendo palanques duplos e até triplos nos Estados. Isso é tudo o que o Palácio do Planalto não quer para a sua candidata


AS EXPLICAÇÕES

Varig/Teixeira


Dilma tentou esconder os encontros com o advogado Roberto
Teixeira, compadre de Lula, que intermediou a venda da Varig.

Só depois da pressão da mídia é que ela admitiu ter recebido o
advogado pelo menos duas vezes na Casa Civil

Cartões/Dossiê

Na crise dos cartões corporativos, a Casa Civil informou que montava uma planilha sobre despesas do ex-presidente Fernando Henrique, a pedido do TCU. Dilma alegou que o dossiê era apenas um "banco de dados"

Doença

Dilma omitiu, em um primeiro momento, que enfrentava doença grave. Chegou a pensar em deixar o cargo. Quando a informação veio à tona, porém, ela concedeu uma entrevista coletiva em São Paulo e expôs publicamente a sua luta

Diplomas

O site da Casa Civil dizia que a ministra tinha mestrado em Ciências Econômicas, feito na Unicamp. Tratava-a, também, como doutora nessa especialização. Teve de admitir que não tinha nem mestrado nem doutorado

Lina Vieira

A ex-secretária da Receita Federal diz que foi chamada por Dilma ao gabinete da Casa Civil e recebeu pedido para "agilizar a fiscalização" nas empresas do filho do Sarney, Fernando. Para Lina, havia interesse em "encerrar" apuração.

Estadão

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