sábado, 8 de agosto de 2009

A tropa de choque hoje é outra

Militares cercam o Congresso, em 1968
Os escândalos atuais e seus encobrimentos podem fazer o que nem mesmo a ditadura conseguiu - matar a ideia do Parlamento como o berço das leis e a casa do povo

O país assiste, estupefato e impotente, a mais um espetáculo vexaminoso que se desenrola em Brasília. Para garantir-se na presidência do Senado, José Sarney, afogando-se em revelações de nepotismo e corrupção, recorreu à “tropa de choque” - um lumpesinato parlamentar de biografia encardida, sem nada a perder e que usa como armas da chantagem à intimidação física. A tropa de choque que tenta blindar Sarney é capitaneada por Renan Calheiros, derrubado da mesma cadeira em 2007, depois que vieram à tona a pensão da filha paga por um lobista e outros ilícitos bem mais constrangedores. Seu lugar-tenente é Fernando Collor de Mello, um ex-presidente da República cuja folha corrida dispensa apresentações. Ao alistar gente dessa espécie para formar sua linha de ataque, Sarney aceitou pagar o preço que esses serviços de proteção cobram. No campo simbólico, enterra sua longa carreira política igualando-se em estatura a Collor e Renan. Na prática, condenou-se a presidir um Senado em que a política, como se viu na quinta-feira passada, se tornou apenas a extensão de uma guerra por outros meios. Aos brasileiros, o decano senador, ex-presidente da República e ex-governador dá o direito de perguntar, afinal que recompensa preciosa é essa a justificar tão alto custo da operação de defesa?

Um dos aspectos mais tristes desses episódios degradantes, que se sucedem em frequência muito acima do tolerável, é que eles minam a confiança dos cidadãos na democracia e em suas instituições. Nesse sentido, os escândalos e seus encobrimentos em Brasília podem fazer o que nem mesmo a ditadura militar conseguiu ao fechar o Congresso em 1968 e 1977: matar a ideia do Parlamento como o berço das leis, a casa do povo e o pavor dos tiranos. Abomináveis de qualquer ângulo que se olhe, os regimes autoritários cedo ou tarde causam na sociedade uma reação que se manifesta por meio do fortalecimento do sentimento democrático. Foi isso que enterrou a ditadura militar em 1985. É esse sentimento que os senhores símbolos da falência do atual modo de vida parlamentar arriscam matar.


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