quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Zelaya vem encontrar Lula em busca do apoio da "potência latino-americana"

Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a constituição

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, se encontra nesta quarta-feira (12) em Brasília com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem espera receber novamente votos de apoio a seu retorno ao poder.

"A visita tem um caráter, antes de mais nada, simbólico, pois espera mostrar que o presidente deposto conta com o status e o reconhecimento de um país importante, a potência latino-americana", afirmou Pedro Paulo Funari, professor da Universidade de Campinas e Coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos, em entrevista ao UOL Notícias.

A passagem de Zelaya pelo Brasil tem um caráter muito particular: ele chega ao país na condição de presidente eleito de Honduras e será recebido por Lula como tal. Contudo, não se trata de visita de Estado, que incluiria outras formalidades, como encontros com representantes dos poderes Legislativo e do Judiciário.

A agenda divulgada pelo Itamaraty prevê apenas um encontro entre Lula e Zelaya, às 15h30, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, onde o presidente despacha temporariamente, em função da reforma no Palácio do Planalto.

O embaixador de Honduras no Brasil, Victor Manuel Lozano Urbina, não participará da agenda de Zelaya em Brasília porque está hospitalizado. A embaixada não confirmou se outro representante se encontrar com o presidente deposto.

Muitas viagens, pouca novidade
Zelaya chegou ao país na noite de ontem, depois de aceitar um convite feito por Lula. Mas o Brasil não é o primeiro país que o presidente deposto visita em seu périplo internacional - em julho, Zelaya passou pelos Estados Unidos, onde recebeu apoio da secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton; no começo de agosto, esteve no México, onde recebeu do prefeito Marcelo Ebrard as chaves da capital do país. Zelaya também foi recebido como presidente na cúpula da Unasul realizada em Quito no início desta semana.

As viagens reiteram a condenação dos governos americanos ao golpe militar, mas até o momento só as palavras dos governantes não bastaram para restituir Zelaya. "A capacidade de pressão é muito limitada. Ações econômicas são de efeito limitado e não foram adotadas, de maneira integral, por países decisivos, como os Estados Unidos. O governo interino, apesar de resultado de um golpe, contou com o apoio de amplos grupos da população, em particular as classes médias, assim como do congresso, do judiciário e das forças armadas. Há, portanto, um conflito interno em Hondura muito agudo. Neste contexto, as pressões externas são de efeito limitado", explica o cientista político Pedro Funari.

Nesse sentido, a passagem por Brasília não deve ser diferente. "O Brasil, com sua tradição diplomática de cautela e moderação, protesta contra o golpe de Estado e pede o retorno do presidente deposto, mas a possibilidade de um pressão sobre o governo provisório é muito restrita", comenta o analista.

De qualquer forma, o analista concorda que esse posicionamento internacional mostra o amadurecimento do regime democrático no continente.

"Hiato" nas relações
Zelaya foi deposto por uma aliança entre militares, membros do judiciário e parlamentares no último dia 28 de junho. No mesmo dia, Brasil emitiu um comunicado repudiando a ação, no qual pedia que Zelaya fosse "imediata e incondicionalmente reposto em suas funções".

Desde então, as relações diplomáticas entre Brasil e o governo interino de Honduras enfrentam um "hiato", como definiu em entrevista ao UOL Notícias o embaixador do Brasil em Tegucigalpa, Brian Michael Fraser Neele, após o golpe.

"Não mantemos diálogos com as autoridades locais. Aguardamos uma situação nova na área política, em função das próximas negociações [entre as partes em conflito em Honduras] para retomar a normalidade das relações bilaterais", explicou Neele na ocasião.

UOL

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