sábado, 12 de setembro de 2009

Foro de São Paulo - Capítulo 3 - O discurso de Lula


Discurso do presidente Lula, na celebração dos 15 anos do Foro de São Paulo por Editoria MSM em 13 de outubro de 2006

Resumo: O que dizer de um presidente da República que, indo contra as leis de seu país, agradece publicamente a uma obscura organização internacional, da qual participam traficantes de drogas, terroristas, seqüestradores, e na qual ele próprio é figura de destaque?

Meus queridos companheiros e companheiras dirigentes do Foro de São Paulo que compõem a mesa,

E eu queria começar com uma visão que eu tenho do Foro de São Paulo. Eu que, junto com alguns companheiros e companheiras aqui, fundei esta instância de participação democrática da esquerda da América Latina, precisei chegar à Presidência da República para descobrir o quanto foi importante termos criado o Foro de São Paulo.

E digo isso porque, nesses 30 meses de governo, em função da existência do Foro de São Paulo, o companheiro Marco Aurélio tem exercido uma função extraordinária nesse trabalho de consolidação daquilo que começamos em 1990, quando éramos poucos, desacreditados e falávamos muito.

Foi assim que nós, em janeiro de 2003, propusemos ao nosso companheiro, presidente Chávez, a criação do Grupo de Amigos para encontrar uma solução tranqüila que, graças a Deus, aconteceu na Venezuela.

E só foi possível graças a uma ação política de companheiros. Não era uma ação política de um Estado com outro Estado, ou de um presidente com outro presidente. Quem está lembrado, o Chávez participou de um dos foros que fizemos em Havana. E graças a essa relação foi possível construirmos, com muitas divergências políticas, a consolidação do que aconteceu na Venezuela, com o referendo que consagrou o Chávez como presidente da Venezuela.

Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política.

E hoje nós somos um continente em que a esquerda deu, definitivamente, um passo extraordinário para apostar que é plenamente possível, pela via democrática, chegar ao poder e exercer esse poder.

E é por isso que eu, talvez mais do que muitos, valorize o Foro de São Paulo, porque tinha noção do que éramos antes, tinha noção do que foi a nossa primeira reunião e tenho noção do avanço que nós tivemos no nosso continente, sobretudo na nossa querida América do Sul.

Se não fosse assim, o que teria acontecido no Equador com a saída do Lucio Gutiérrez? Embora o Presidente tenha saído, a verdade é que o processo democrático já está mais consolidado do que há dez anos atrás.

O que seria da Bolívia com a saída do Carlos Mesa, recentemente, se não houvesse uma consciência democrática mais forte no nosso continente entre todas as forças que compõem aquele país?

A vitória de Tabaré, no Uruguai: quantos anos de espera, quantas derrotas, tanto quanto as minhas.

O que significa a passagem da Argentina?

Os chilenos, depois de tantas e tantas amarguras, num período que muita gente não quer nem se lembrar, estão agora prestes a, pela quarta vez consecutiva, reeleger um presidente, eu espero que uma presidente.

E o que nós precisamos é trabalhar para consolidar, para que a gente não permita que haja qualquer retrocesso nessas conquistas, que são que nem uma escada: a gente vai conquistando degrau por degrau.

E esses companheiros que tiveram a coragem de assumir essa tarefa, eu acho que hoje podem estar orgulhosos, porque valeu a pena a gente criar o Foro de São Paulo.

Nós não conseguiremos fazer as transformações que acreditamos e por que brigamos tantos anos em pouco tempo. É um processo de consolidação.

Eu quero dizer uma coisa para vocês: não está longe o dia em que o Foro de São Paulo vai poder se reunir e ter, aqui, um grande número de presidentes da República que participaram do Foro de São Paulo.

Vejam que os companheiros do Movimento Sem-Terra fizeram uma grande passeata em Brasília. Organizada, muito organizada. E todo mundo achava que era um grande protesto contra o governo. O que aconteceu? A passeata do Movimento Sem-Terra terminou em festa, porque nós fizemos um acordo entre o governo e o Movimento Sem-Terra, pela primeira vez na história, assinando um documento conjunto.

Esses dias, fizemos não sei quantos acordos, 26 acordos, com a Venezuela. Os partidos têm que se encontrar, os parlamentares têm que se encontrar, o Foro de São Paulo tem que exigir cada vez mais a criação de um parlamento do Mercosul para que a gente possa consolidar definitivamente o Mercosul, não como uma coisa comercial, mas como uma instância que leve em conta a política, o social, o comercial e o desenvolvimento.

Esse trabalho é um trabalho que leva anos e anos. E nós apenas estamos começando.

Por isso, meus companheiros, minhas companheiras, saio daqui para Brasília com a consciência tranqüila de que esse filho nosso, de 15 anos de idade, chamado Foro de São Paulo, já adquiriu maturidade, já se transformou num adulto sábio. E eu estou certo de que nós poderemos continuar dando contribuição para outras forças políticas, em outros continentes, porque logo, logo, vamos ter que trazer os companheiros de países africanos para participarem do nosso movimento, para que a gente possa transformar as nossas convicções de relações Sul-Sul numa coisa muito verdadeira e não apenas numa coisa teórica.

E eu estou convencido de que o Foro de São Paulo continuará sendo essa ferramenta extraordinária que conseguiu fazer com que a América do Sul e a América Latina vivessem um dos melhores períodos de democracia de toda a existência do nosso continente.

Muito obrigado a vocês. Que Deus os abençoe e que eu possa continuar merecendo a confiança da Coordenação, que me convide a participar de outros foros. Até outro dia, companheiros. (Extrato)

São Paulo-SP, 02 de julho de 2005

Comentário

A Confúcio, de passagem no Estado de Wei, quando perguntaram o que faria primeiro, se convidado a governar aquele país, respondeu: "Evidentemente, como primeiro passo, faria com que as coisas fossem chamadas pelos seus verdadeiros nomes". Seu discípulo ficou muito intrigado; e Confúcio continuou: "Por que não pode compreender? Pois se as coisas não fossem chamadas por seus verdadeiros nomes, as proposições seriam enganosas e quando as proposições são enganosas, nada pode ser realizado".

O que preocupava Confúcio era a extrema confusão dos termos, os eufemismos e circunlocuções dos diplomatas daqueles tempos, e as exageradas pretensões que os daqueles dias se arrogavam para si próprios.

Chamar as coisas por seus verdadeiros nomes...

Como Confúcio chamaria o "Foro de São Paulo"? Que nome daria a uma entidade supranacional, criada por Fidel Castro e aplaudida por Luis Inácio Lula, com a intenção de reunir os partidos e organizações de esquerda, a maioria com tendências marxistas-leninistas revolucionárias, patrocinada pelo Partido Comunista Cubano e pelo Partido dos Trabalhadores do Brasil?

Como Confúcio nomearia um indivíduo que participasse de um encontro com alguns fora-da-lei onde são elaboradas resoluções e recomendações que reafirmam os objetivos socialistas com a proposta de "fazer dar certo na América Latina o que fracassou no leste europeu?".

O atual Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, deve saber o nome verdadeiro do Foro. Afinal ele discursou na celebração do 15º aniversário do Foro de São Paulo e terminou dizendo: "...que eu possa continuar merecendo a confiança da coordenação, que me convide a participar de outros foros".


J. C. CROCE - CEL

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