sábado, 12 de setembro de 2009

Foro de São Paulo - Capítulo 6 - Chavez e afins


Já se pode dizer sem nenhum constrangimento que o affair Brasil versus Bolívia não passou de um qüiproquó armado e em plena evolução nos bastidores do Foro de São Paulo? esta, como se sabe, uma entidade integrada pelas forças das esquerdas no espaço latino-americano, que hoje detém o comando político-ideológico de pelo menos oito países do continente (Argentina, Brasil, Cuba, Venezuela, Chile, Bolívia, Uruguai, Equador), com a possibilidade de tomar conta de mais quatro (México, Peru, Nicarágua e El Salvador), nos próximos meses, com o objetivo de "recuperar na América Latina o que foi perdido no Leste Europeu" conforme reza a cartilha totalitária de Fidel Castro esboçada logo após a queda do Muro de Berlim.

"Precisamos preparar um caminho sem volta, que não tenha retorno"
De um discurso internacionalista de Lula

Sim, é real: para os observadores mais atentos, já é perceptível na América Latina o entendimento de que, ao lado da tomada do continente pelas forças esquerdistas, cresce a pinimba do grupo "nacional-populista" considerado revolucionário e radicalmente anti-americano, liderado por Fidel Castro/ Hugo Chavéz/Evo Morales, contra o bloco tido como moderado, ou "neoliberal", estrategicamente travestido de social-democrata, integrado, entre outros mandatários, por Lula, Michelle Bachelet, Néstor Kirchner e Tabaré Vasquez - uma gente, ao que se diz, mais racional e capaz de cozinhar o amargo prato socialista (e também anti-americano) em banho-maria.

Com efeito, para definir quem manda em quem e no quê, o ousado avanço de cocalero Morales sobre as refinarias da Petrobrás, tramada entre os dias 28 e 29 de abril em Havana, está sendo interpretado pelos analistas não apenas como um ato de "soberania nacional", mas, sobretudo, como um passo determinado do bloco bolivariano rumo à liderança do "processo de transformação" do continente. Com o apoio do experiente Fidel Castro e a decisiva participação de asseclas da DGI - o serviço de inteligência cubano -, o coronel Chávez já investe na região algo em torno de US$ 200 milhões diários, com vista à formação da Grande Pátria ou seja, uma América Latina totalmente socialista.

Tal como um novo Lenin das selvas tropicais, bem-fornido pelo dinheiro abundante do petróleo (e, agora, do gás boliviano), Hugo Chávez Frias está com tudo e não está prosa: ele, de uma só vez, açula com petrodólares o populismo nacionalista de Ollanta Humala, para reabilitar o Peru do ultranacionalista Velasco Alvarado; abastece firme a candidatura de López Obrador contra o candidato do inimigo Fox, no México do Comandante Marcos; promete o retorno do guerrilheiro Daniel Ortega e da Frente Sandinista ao comando da Nicarágua; e, com gastos maciços, concentra pesado apoio logístico na ação virulenta da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN) em El Salvador, com o objetivo de se apossar do governo.

E mais: atua, fortemente, com o apoio de Castro e das bilionárias FARCs do "saudoso" Manoel Marulanda, o Tirofijo, na desestabilização do processo sucessório da Colômbia de Álvaro Uribe, ao tempo em que investe de forma clandestina no fortalecimento da "nova fase" da Frente Zapatista de Libertação Nacional, no México, na reativação do famigerado Sendero Luminoso, no Peru, e na expansão do virulento MST de Stédile, no Brasil, para não falar nos ataques permanentes ao "imperialismo ianque" de Bush, sobre o qual desfecha impropérios diários, para reprodução entusiástica da "imprensa burguesa" e do anti-americanismo que se alastra pela América Latrina.

Neste conflito surdo das esquerdas dentro do espaço continental, considerado maduro para uma nova experiência comunista, reedita-se o clássico entrevero entre os blocos bolcheviques e mencheviques, na Rússia pré-revolucionária de 1917. Dentro deste figurino, o coronel Hugo Chávez representaria o papel do bolchevique radical, a investir contra um governo provisório composto por socialistas pusilânimes, cujo papel já se findara e que, com um simples peteleco, estaria mais que maduro para ser tocado do Palácio de Inverno.

As forças do socialismo menchevique, por sua vez, na AL de hoje representadas pelas facções "moderadas" de Lula, PT e aliados, parceiras do projeto "neoliberal", não teriam mais um papel a cumprir no novo espaço comunista a ser definitivamente implantado no continente, visto que são forças contaminadas pela corrupção, pelo exercício da ambigüidade diplomática e pelo apodrecimento revolucionário dos seus quadros: "El compañero Lula es todavia confiable?" teria indagado, na sua última viagem a Havana, o coronel Chávez a um circunspeto Fidel Castro, rejuvenescido pela solidária política energética bolivariana, traduzida na entrega diária de 90 mil barris de petróleo nos portos de Cuba.

Só para completar o quadro, na promessa de voltar ao explosivo assunto: no Brasil atual, enquanto os representantes da esquerda acadêmica, amparados na grana fácil das OGNs, embalam a política externa de "comer o prato pelas beiradas", o Itamaraty de Lula, segue o mesmo diapasão e recomenda uma "paciência estratégica", tendo em vista a possível "integração regional", a ser efetuada a partir do problemático consenso dos pactos da Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA) e da Comunidade Andina (CAN) na busca de abrir caminhos, sem tempo marcado, para se chegar, pelas armas do voto corrompido, ao predomínio comunista no infeliz continente. O resto fica por conta do bombardeio da sociedade civil e militar pelo PCC, apoiado pelas FARCs ? estas, sempre alimentadas pelo combustível bilionário do narcotráfico

* Ipojuca Pontes
Escritor, Cineasta e Jornalista.
Ex-Secretário Nacional de Cultura

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