quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sem livros publicados, Collor deve ser eleito para a Academia Alagoana de Letras



Sem nenhum livro no currículo, o senador Fernando Collor de Melo (PTB-AL) deve ser eleito o novo imortal da Academia Alagoana de Letras (AAL) nesta quarta-feira (2). O ex-presidente aparece como candidato único à cadeira 20, que tem como patrono Augusto de Oliveira. A vaga era ocupada pelo então presidente da AAL, Ib Gatto Falcão, que morreu em dezembro de 2008.

A votação dos 40 acadêmicos está marcada para as 10h, na sede da AAL, no centro de Maceió. Aos 60 anos e natural do Rio de Janeiro, Collor se candidatou à vaga apostando no argumento de que pretende escrever um livro - onde deve contar detalhes sobre o impeachment que sofreu em 1992.

No material enviado aos imortais alagoanos, além do esboço do livro, estão discursos e artigos publicados por Collor sobre diversos temas. Segundo as normas da AAL, nem o público, nem a imprensa podem assistir à sessão.

Imortal sugere Collor para ABL
A tendência é que Fernando Collor seja eleito com folga. O presidente da AAL, o médico Milton Ênio, é amigo antigo da família Collor e já declarou irrestrito apoio à eleição do senador.

Já o imortal Ledo Ivo, único integrante das academias alagoana e brasileira de Letras, não só apoia Collor como sugere uma indicação nacional. "Ele tem qualidades para ser indicado e eleito pela ABL [Academia Brasileira de Letras]", disse o escritor, do Rio de Janeiro, ao UOL Notícias.

Para justificar a escolha de Collor, Ledo Ivo cita a "brilhante carreira como político" e diz que o impeachment é um incidente superado. "Aquilo não manchou sua carreira, pois Fernando Collor está aí no Senado", afirmou.

Ivo, que mora no Rio, diz que não irá à eleição desta quarta-feira, mas já enviou o voto favorável ao ex-presidente. Ele espera uma votação unânime. "Ele é uma excelente indicação. Fernando Collor tem todas as qualificações de acordo com as normas da Academia Francesa, a qual a Academia de Alagoas tem como base. Os imortais podem ter referências literárias e expoentes de outros setores. Temos um padre na academia; Sarney faz parte da ABL, entre outras personalidades", alega o escritor.

O UOL Notícias tentou contato com a assessoria de Collor, em Brasília, mas até a noite de terça-feira (1º) não obteve retorno.

Professor compara indicação de Collor à de Getúlio
Se confirmada, a eleição de Collor vai revelar o lado político da AAL, segundo análise de professores da área. Especialistas ouvidos pela reportagem preferiram não fazer comentários para evitar possíveis desgastes com os demais imortais, mas todos estranharam a indicação de um nome sem obra publicada.

O único que aceitou comentar publicamente a candidatura de Collor foi Roberto Sarmento, professor da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) e doutor em literatura brasileira, com trabalhos publicados sobre Machado de Assis (fundador da Academia Brasileira de Letras).

Sarmento afirma que o caso de Collor lembra outro ocorrido na ABL, há mais de 50 anos. "Indicação sem nenhum livro que eu lembre só a de Getúlio Vargas. Ele apresentou discursos para ser eleito na época, que por sinal eram feitos pelo avô do ex-presidente, Lindolfo Collor. Parece-me que o critério que prevaleceu aqui foi político, e não literário ou artístico", afirma.

Mesmo classificando as academias como "ecléticas", o professor alega que os atuais imortais têm livros conceituados nas áreas de atuação. "As academias, como a Brasileira de Letras, têm o papel de reunir o que considera os maiores intelectuais da sociedade. A ABL, por exemplo, tem como membro Ivo Pitangui, que é medico, mas possui um acervo de publicações que justificam sua indicação. Ou seja, não é preciso ser uma obra literária, mas entendo que é preciso publicar livros para ser eleito", explica Sarmento.

UOL

Nenhum comentário: