domingo, 6 de setembro de 2009

Visões para 20 anos!


O GLOBO

Os economistas Claudio Porto e Rodrigo Ventura, da consultoria Macroplan Prospectiva, Estratégia & Gestão, estão coordenando um amplo estudo de tendências e cenários do Brasil e sua inserção no contexto global para os próximos 20 anos. Esse estudo prospectivo, incluindo quantificações e regionalizações, estará concluído no 1otrimestre de 2010, mas um ensaio preliminar, contendo as hipóteses e conjecturas que orientam as primeiras pesquisas que o integram, já indica algumas conclusões interessantes, especialmente diante da perspectiva de aumentarmos nosso diferencial competitivo no mundo com as novas descobertas do pré-sal.

O estudo lembra que por 60 anos, entre 1910 e 1974, o Brasil foi o país com a maior taxa de crescimento econômico do mundo (média de 7% a.a.).

Nas décadas de 80 e 90, este crescimento declinou substancialmente, e o país passou a registrar taxas médias de crescimento econômico inferiores à média mundial.

A partir de 2005, o Brasil voltou a expandir as taxas de crescimento (taxa média de variação de PIB de 4,5% a.a.

entre 2005 e 2008). Para os autores do estudo, no momento, no campo econômico as questões que se colocam são as seguintes: 1 A atual crise mundial abortará o crescimento econômico brasileiro? 2 O Brasil consolidará ou não uma trajetória de crescimento sustentado e em patamares elevados nas próximas duas décadas? Para os analistas da Macroplan, o futuro do Brasil, sob uma perspectiva de longo prazo, está condicionado à evolução de alguns fatores estruturais que poderão impulsionar ou inibir o seu desenvolvimento sustentado nas próximas décadas.

Entre os fatores inibidores estão o baixo nível de escolaridade e de qualificação da população; violência urbana; gargalos na infraestrutura logística; carga tributária elevada, sistema tributário distorcido e má qualidade do gasto público; déficit da Previdência e pressões crescentes sobre o sistema previdenciário; excesso de burocracia, prejudicando o ambiente de negócios e inibindo o empreendedorismo.

A questão ambiental também pesa. A elevada pressão antrópica, com atividades econômicas em larga escala e falta de regulação e fiscalização adequadas, aumenta drasticamente a taxa de desmatamento da Amazônia. Ao mesmo tempo, temos baixo desempenho dos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) e a degradação do sistema de representação política.

Os fatores impulsionadores são condições estruturais que asseguram diferenciais competitivos de grande potencial em âmbito mundial neste início do século XXI, entre eles a diversidade e abundância de fontes de energia, inclusive renováveis.

A combinação das recentes e grandes descobertas de petróleo (inclusive na camada pré-sal) e uma posição de liderança em biocombustíveis faz do Brasil uma das maiores potências energéticas do mundo, salienta o estudo.

Com as reservas do présal já licitadas nos campos de Tupi, Iara e Parque das Baleias (29% de toda a área do pré-sal), a produção nacional pode saltar para 30 bilhões de barris dia na próxima década. Em termos de energia hidroelétrica, o Brasil possui potencial de geração de 258.410 megawatts, dos quais apenas 28,2% são explorados.

Os analistas destacam ainda um mercado nacional integrado e de grande escala, com segmentos econômicos mundialmente competitivos; o sistema bancário altamente organizado e sólido; as grandes reservas internacionais e a democracia consolidada como fatores impulsionadores do desenvolvimento.

Para a Macroplan, a trajetória do Brasil está condicionada à evolução dos cenários externos, ao efetivo aproveitamento de nossas potencialidades e, sobretudo, ao equacionamento dos gargalos destacados.

Eles acrescentam ainda incertezas relacionadas aos desdobramentos da questão fiscal e à inserção internacional do país nas próximas duas décadas. Assim, entre as principais incertezas de longo prazo da economia brasileira, destacam: “Com que intensidade o Brasil enfrentará os gargalos estruturais ao seu desenvolvimento sustentado nos próximos 10 a 20 anos? “Como o Brasil lidará com a questão fiscal neste horizonte? “Como se dará a inserção internacional do Brasil neste mesmo período de tempo?” Diante dessas incertezas domésticas, e tendo em vista as diferentes possibilidades de evolução do mundo no pós-crise, eles desenham quatro cenários econômicos para o Brasil no horizonte 2012-2030: Cenário 1 Em duas décadas o Brasil dá “Um Salto para o 1oMundo” com um crescimento sustentado, mantendo elevada taxa de expansão média do PIB (entre 4% e 6% a.a.). Neste cenário, em 2030, o PIB per capita do país alcançaria os US$ 25 mil em Paridade de Poder de Compra (PPC), equivalente ao da Itália em 2008.

Cenário 2 “Um Emergente Retardatário”. Neste caso, o crescimento econômico do país se estabiliza em patamar mediano, entre 3% e 4% a.a.

até 2030, quando o PIB per capita do Brasil alcançaria os US$ 17 mil (em PPC), próximo ao de Porto Rico em 2008.

Cenário 3 “Mudança de Patamar: bem perto do 1omundo”.

Após registrar taxa média de variação do PIB moderada entre 2010 e 2020 (entre 2,5% e 4% a.a.), o Brasil consolidaria um crescimento após 2020 acima de 5% a.a.

Neste cenário, em 2030, o PIB per capita do país alcançaria os US$ 18,5 mil (em PPC), equivalente ao da Coreia do Sul em 2008.

Cenário 4 “Crescimento Inercial: a ‘baleia’ volta a encalhar”.

Como resultado da persistência dos gargalos econômicos, o crescimento brasileiro até 2030 voltaria a cair, situando-se entre 1% e 3% anuais. Neste cenário, em 2030, o PIB per capita do país alcançaria os US$ 13 mil (em PPC), equivalente ao do Chile em 2008.

Um estudo que a consultoria Macroplan Prospectiva, Estratégia & Gestão está preparando, coordenado pelos economistas Claudio Porto e Rodrigo Ventura, traça os cenários para o Brasil nos próximos 20 anos e mostra o que deveria ser feito para que atinjamos um nível de Primeiro Mundo nesse período de tempo. E também o que pode acontecer de retrocesso para o país se os problemas hoje existentes não forem enfrentados.

O cenário que mostra o Brasil dando “um salto para o Primeiro Mundo” depende de que sejam enfrentados os gargalos estruturais que emperram nosso desenvolvimento, especialmente nos setores de educação e de inovação tecnológica, em um contexto mundial que seria de “variadas oportunidades” para os países emergentes.

A premissa deste cenário otimista é que o Estado, a sociedade e o setor privado passem a ter como objetivo estratégico a eliminação de tais entraves, possibilitando à economia brasileira entrar, definitivamente, em uma trajetória de crescimento sustentado, mantendo taxa de expansão média do PIB entre 4% e 6% ao ano.

Isso acontecendo, na década 2011-2020 o Brasil se tornaria “um imenso e variado canteiro de obras”.

Um ambiente próspero e favorável ao desenvolvimento dos negócios e à atração de investimentos estrangeiros seria viabilizado, com a participação brasileira no fluxo global de capitais passando a ser de 7,5% em 2030, contra apenas 1,9% em 2008.

O revigoramento das instituições e a adoção de novas formas de gestão pública tornariam possível uma contínua melhora da qualidade do gasto e dos serviços públicos, em especial nas áreas de saúde, educação e segurança, preveem os economistas autores do trabalho prospectivo.

O parque produtivo brasileiro passaria por um intenso processo de inovação tecnológica, o que permitiria ao Brasil “inserir-se de forma competitiva na economia global”.

Na esfera ambiental, os avanços no campo da gestão e novos estímulos econômicos alavancariam negócios relacionados à “economia limpa”, de modo que a questão ambiental deixaria de ser vista como entrave ao desenvolvimento econômico.

Neste cenário, o estudo prevê que, em 2030, o PIB per capita do país alcançaria os US$ 25 mil em poder de paridade de compra (PPC), equivalente ao da Itália em 2008.

Um cenário menos otimista, mas ainda positivo, foi chamado de “Um emergente retardatário”. O Brasil continuaria correndo atrás de suas possibilidades, embora desperdiçando a maior parte das oportunidades que o contexto mundial voltaria a oferecer, após a recuperação da grave crise econômica que marcou a virada da primeira década do século XXI.

As análises indicam que, à exceção da educação, que experimentaria saltos de qualidade, a ausência de um amplo pacto em favor de reformas estruturais modernizadoras da economia contribuiria para a manutenção de graves entraves ao desenvolvimento nacional.

A economia brasileira perderia competitividade frente a outros grandes emergentes, em especial China e Índia, que trilham trajetória semelhante à empreendida pela Coreia do Sul nos últimos 30 anos do século XX.

O Brasil, em 2030, seria um país dual, tendo de um lado um setor privado dinâmico, inovador e empreendedor, e regiões altamente competitivas, que contribuiriam para que o crescimento econômico do país se estabilizasse em patamar mediano, entre 3% e 4% ao ano até 2030.

Em contrapartida, um setor público pesado e ineficiente e regiões mais atrasadas impediriam ou dificultariam melhorias substanciais no ambiente de negócios e nos indicadores sociais, que experimentariam evolução apenas moderada.

Neste cenário, em 2030 as grandes regiões metropolitanas continuariam a conviver com graves problemas, sobretudo nas áreas de infraestrutura, segurança e emprego, e o Brasil ainda acumularia passivos ambientais de peso. O PIB per capita do país alcançaria os US$ 17 mil (em PPC), próximo ao de Porto Rico em 2008.

Entre os dois cenários, o estudo da Macroplan vê a possibilidade de acontecer uma “mudança de patamar”, que nos colocaria “bem perto do Primeiro Mundo” Neste cenário, enfrentaríamos um “moderado dinamismo” mundial e crises cíclicas, mas no plano interno o enfrentamento continuado dos principais gargalos estruturais do desenvolvimento possibilitaria à economia brasileira experimentar uma mudança de patamar.

Após registrar taxa média de variação do PIB moderada nos primeiros dez anos, de 2010 a 2020, entre 2,5% e 4% ao ano, o Brasil consolidaria a trajetória de crescimento sustentado após 2020, com crescimento acima de 5% ao ano.

A educação daria saltos de qualidade, e haveria uma contínua melhora da qualidade do gasto e dos serviços públicos, impactando positivamente os índices de qualidade de vida e de desenvolvimento regional.

O parque produtivo brasileiro passaria por um processo de inovação tecnológica, e os avanços no campo da gestão ambiental fariam progredir a “economia limpa” que multiplicaria oportunidades de negócios e de geração de renda e trabalho.

Neste cenário, em 2030 o PIB per capita do país alcança os US$ 18,5 mil (em PPC), equivalente ao da Coreia do Sul em 2008.

O cenário mais pessimista é o do “crescimento inercial”, no qual a persistência de graves entraves ao desenvolvimento nacional abortaria a trajetória de aceleração do crescimento econômico registrada nos primeiros anos do século XXI, até a eclosão da crise mundial.

Como resultado, o crescimento econômico brasileiro até 2030 voltaria a cair, situandose entre 1% e 3% anuais. O Brasil voltaria a ser percebido como uma “baleia encalhada”, e repetiria o mesmo padrão de crescimento do PIB observado nas décadas de 1980 e 1990.

Neste cenário, em 2030, o PIB per capita do país alcançaria apenas US$ 13 mil (em PPC), equivalente ao do Chile em 2008.


Merval Pereira

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