quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Você sabe quem reatou as Relações doplomáticas Brasil e Cuba?

Vinte e dois anos depois de romper com Cuba, o governo reata com o regime de Fidel Castro

Na manhã de 4 de março, o ministro Roberto Abreu Sodré, das Relações Exteriores, teve um longo despacho com o presidente José Sarney. "E Cuba, presidente?", indagou o ministro. "Eu já ia lhe falar sobre isso", começou Sarney. "Bom, pode operar o reatamento. Mas seja absolutamente discreto. Faça tudo em sigilo." A instrução foi seguida à risca. Na noite de 14 de junho, um sábado, os garçons que serviam a suíte Royale do Hotel Intercontinental, em Paris, abriram uma garrafa de champanhe para comemorar o fim de um pesadelo diplomático: com a assinatura do embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, pelo Brasil, e do vice-ministro José Raul Vieira Linares, de Cuba, os dois países consumaram o restabelecimento de relações diplomáticas, 22 anos depois do rompimento, anunciado pelo presidente Humberto Castello Branco um mês e meio depois do movimento militar de 1964. Por mais alguns dias, porém, a decisão permaneceria secreta.

Foi só na última quarta-feira, depois que o presidente José Sarney já havia anunciado sua audiência com o papa João Paulo II, em que irá debater a reforma agrária, e antes de um novo encontro de brasileiros e americanos para discutir a Lei de Informática, que envenena as relações com os Estados Unidos, que a decisão veio a público. Às 16 horas de Brasília (e 17 horas, em Havana) os governos dos dois países acertaram os relógios da diplomacia para comunicar uma decisão que, desde o dia 15 de março de 1985, quando o general João Baptista Figueiredo deixou o Palácio do Planalto, tanto um lado como o outro já sabiam ser inevitável. "É normal que um país tenha relações com todas as nações do mundo", afirmou o ministro Abreu Sodré. "O reatamento das relações diplomáticas entre os dois países é um lance histórico do qual tive a felicidade de participar", diz, no Panamá, o embaixador cubano naquele país, Miguel Brughera, personagem-chave em quatro meses de negociações que levaram ao acerto final.

PERSONAGENS IDEAIS - Desde setembro passado, quando promoveu uma consulta a seu ministério, o governo do presidente José Sarney já sabia o que fazer com Cuba - só não havia descoberto como, nem por onde. O acerto envolveu missões clandestinas, dessa vez pacíficas, em que o sociólogo Sergio Cervantes, membro do Comitê Central do PC cubano, começou a montar uma ampla rede de contatos, a partir de 1979 - que acabaram por empurrá-lo a enfrentar, já com os papéis em ordem, demoradas conversas com o ministro-chefe do Gabinete Civil, Marco Maciel, no Palácio do Planalto. A nível diplomático, o acordo também exigiu manobras delicadas. Como dois governos que não têm relações diplomáticas não podem, ao menos em tese, conversar entre si, a solução foi transplantar a discussão para a Cidade do Panamá. "Ali, inimigos mortais de qualquer parte do mundo se encontram para discutir polidamente", afirma o embaixador do Brasil naquele país, Carlos Antonio Bettencourt Bueno.

É certo que, desde 1974, quando o ditador Fidel Castro desmobilizou as patrulhas de agentes enviados ao Brasil para promover assaltos a banco e atos de terrorismo, Cuba e Brasil deixaram de ser inimigos ferozes - e até procuravam acertar-se em áreas econômicas, como o mercado mundial do açúcar, no qual dispõem de uma força dominante. Havia, no entanto, a desconfiança brasileira, de um lado, e o temor de passar por uma humilhação, por parte de Fidel. "Cuba não é dessas noivas à espera de marido, aceitando qualquer tipo que apareça", preveniu, numa ocasião. Mas, para levar a cabo a tarefa, havia, no Panamá, não apenas a cidade ideal - mas os personagens ideais.

Ex-diplomata no Brasil, onde passou pela constrangedora experiência de ser embarcado à força para seu próprio país, ao ser convidado para longas conversas na varanda da casa de Carlos Bueno o embaixador Miguel Brughera saboreava uma vingança íntima - e dispunha de um trunfo valioso. Militante do 26 de Julho, a organização guerrilheira que deu início à Revolução Cubana, Brughera mantém, quase trinta anos depois, um acesso direto junto ao governo de seu país. Carlos Bueno, primeiro diplomata brasileiro enviado à China para debater as relações diplomáticas entre os dois países, há doze anos, cuidou de cultivar uma relação cordial com Brughera. Dias mais tarde, logo após a primeira mensagem enviada a Havana, Bueno seria premiado com uma resposta positiva. "No contato pessoal que tive com Fidel, ouvi do nosso presidente que havia uma grande satisfação ante a provável decisão de reatamento das relações entre Brasil e Cuba." Através de Brughera, Carlos Bueno ouviu outro recado de impertinente simpatia enviado por Fidel: "Ele mencionou também a preocupação de que esse ato e sua oportunidade venham a contribuir para a consolidação do processo democrático brasileiro". É uma velha mania de Fidel trabalhar pela democracia fora de suas fronteiras.

Para o governo de Sarney, não poderia haver um sinal melhor. Por isso, no início de maio, quando o mimistro da Justiça, Paulo Brossard, tomou o avião até a Costa Rica para representar Sarney na posse do novo presidente, Oscar Arias Sanchez, um diplomata mais graúdo pegou carona em seu avião. Sob o disfarce de que era indispensável ter uma assessoria à mão para auxiliar em eventuais conversas sobre a América Central, embarcou o ministro Carlos Augusto Santos Neves, chefe de gabinete do secretário-geral do Itamaraty. Encerrada a cerimônia, e sem que o ministro Paulo Brossard se desse conta, Santos Neves rumou ao Panamá. Ali, com Brughera e Bueno, acertou uma reunião de nível mais alto. Santos Neves sugeriu Bruxelas ou Paris como local, os cubanos decidiram pela capital francesa, onde sua embaixada é mais bem equipada. O clima de segredo, que se prolongou até a reunião no Hotel Intercontinental, onde todos os interlocutores falavam espanhol, foi mantido até o final. Todo o material de escritório, como papel, máquina de escrever, foi embarcado de Brasília para não despertar qualquer suspeita na embaixada de Paris. Para auxiliar no transporte, foi alugado um automóvel com motorista francês. A secretária Tereza Jalvim, encarregada de datilografar os acordos, também saiu do Brasil.

Os três dias de conversa que começava às 10 da manhã e só terminava às 18h30, com um intervalo de 2 horas e meia para almoço, consistiram em muitas generalidades e algumas mensagens cifradas. "Cuba se considera um país latino-americano e lutará para permanecer um país latino-americano", afirmou o vice-ministro Vieira Linares, frase que os diplomatas brasileiros entenderam como um esforço para explicar que seu país não é um mero satélite soviético, mas dono de vontade própria, ainda que com orçamento binacional, pois sem a ajuda russa a economia cubana não sobrevive. Agradou mais à delegação do Itamaraty, porém, ouvir os cubanos dizerem que a União Soviética não havia dado o devido valor à visita que o ex-chanceler Olavo Setúbal fez àquele país, onde não foi recebido pelo secretário-geral Mikhail Gorbachev, mas ganhou apenas um protocolar aperto de mão do presidente Andrei Gromyko. Ultrapassada essa etapa, iniciada no dia 12 e encerrada na noite de 14 de junho, o Brasil propôs que a divulgação do restabelecimento fosse feita no dia 25.

Por trás da formalidade e da elegância dos diplomatas, porém, o reatamento entre Cuba e Brasil seguiu um caminho paralelo que marcou as relações entre os dois países nos últimos 22 anos - a clandestinidade. Numa operação com muitas sombras e falsas aparências, no final de 1979 desembarcou no país um sociólogo cubano, Sergio Cervantes, com a autorização de participar de um corriqueiro encontro sobre tecnologia do açúcar e do álcool, em Piracicaba, a 171 quilômetros de São Paulo. Sua missão era outra: em companhia do então prefeito da cidade, o hoje deputado federal João Herrmann Neto, Cervantes, que é membro do Comitê Central do PC cubano, em que milita no Departamento das Américas, iria iniciar uma seqüência de negociações visando ao acordo entre os dois governos. Herrmann, por seu lado, promoveu programas de tinturas socialistas no município, que chegara a ser apelidado de Piracicuba. A primeira conversa entre os dois ocorreu num restaurante discreto chamado Arapuca. "Foi um convescote comunista", lembra-se Herrmann. "Só falamos de generalidades." A última foi pelo telefone, na semana passada, quando festejaram a vitória. "Com essa medida, o Brasil cicatriza uma ferida que o impedia de atuar junto aos países do Terceiro Mundo", afirma Herrmann. Ex-lutador de judô, habituado a falar português com fluência, circulando em ambientes sociais com a identidade de homem de negócios peruano ou chileno, Sergio Cervantes de lá para cá realizou pelo menos duas viagens anuais ao Brasil, ampliando sua rede de contatos - e renovando o guarda-roupa de disfarces. Falando com voz macia e distribuindo gestos de cortesia, manteve seis discretos encontros com o ministro-chefe do Gabinete Civil, Marco Maciel, sempre com sua identidade. No último, foi embora com a certeza de que tudo iria acabar bem. "Em Brasília, o senhor prefere morar em casa ou apartamento?", perguntou Maciel ao final da conversa. "A Nora prefere apartamento", respondeu Cervantes. Casado pela segunda vez, sua mulher, que sempre se portou como uma atarefada dona-de-casa, na verdade é dirigente da Federação Cubana de Mulheres. No apartamento de 200 metros quadrados que alugou em São Paulo, desde que uma negociação junto ao Itamaraty lhe garantiu o visto permanente de residência no país, Cervantes tornou-se um personagem visível apenas de manhã, quando sai para comprar jornais. Também ali, na semana passada, os vizinhos se espantavam ao descobrir sua identidade real. "Só sabia que morava aqui, mas não imaginava quem era", afirma o estudante Carlos Zimmermann, que habita o 10º andar - dois acima de Cervantes. "Ele é o quadro mais duro da Revolução Cubana", afirma Itoby Alves Corrêa Jr., da Associação Cultural José Martí, agência cultural do governo cubano instalada há quatro anos no país.

PESO-PESADO - Negociador habilidoso, o diplomata cubano encontrou em João Herrmann o parceiro ideal. O deputado tratou das relações com Cuba numa demorada conversa com uma autoridade acima de Cervantes, o próprio Fidel Castro, iniciada em Havana às 3 da madrugada. Passadas as amenidades, Fidel queixou-se da lentidão nas negociações. "O que atrasa o processo, comandante", começou Herrmann, "é o fato de Cuba insistir em fazer uma ponte com o Brasil apenas com a face menos representativa do país, como o Partido Comunista, o MR-8, o PT e um setor da Igreja. É preciso abrir o diálogo com o PMDB, os empresários e o governo."

A conversa terminou sem uma conclusão, mas, a partir daí, as dezenas de caravanas de brasileiros convidados a visitar a ilha, cujos nomes costumavam ser examinados pessoalmente por Fidel Castro, passaram a incluir profissionais de outras áreas, além de artistas, intelectuais e sindicalistas de esquerda. Durante todo o ano passado Fidel fez jorrar convites para brasileiros. Se em 1978 o compositor Chico Buarque de Holanda foi preso ao voltar de Havana, com o tempo ir a Cuba passou a ser um must na indumentária biográfica de artistas e jornalistas brasileiros. Foram tantos os convites que, com o tempo, havia algo de errado com quem ainda não estivera em Havana. Esse esbanjamento tático, típico do temperamento de Fidel, acabou saindo pela culatra e, pelos canais do Itamaraty, Havana recebeu um recado: ou parava a campanha de propaganda ou paravam os progressos. Diminuíram os convites e o jogo entrou na reta final.

Em setembro o presidente Sarney começou a consultar formalmente os ministros, membros natos do Conselho de Segurança Nacional, e chegou-se a pensar que o reatamento estava por semanas, quando Fidel atrapalhou-se. Em dezembro do ano passado, o serviço secreto de Cuba tentou seqüestrar, em Madrid, o ex-ministro Manuel Sánchez Pérez, dissidente do regime. Além de se transformar num vergonhoso escândalo internacional, o ato terrorista teve, em Brasília, o poder de um contragolpe diplomático, fazendo recuar todas as negociações. O general Ivan de Souza Mendes, chefe do Serviço Nacional de Informações, passou a defender a tese de que o episódio deveria provocar uma reação de silêncio do Brasil.

Àquelas alturas, o reatamento já não era um problema político nem um cálculo a respeito de possíveis vantagens econômicas mas unia simples questão de ocasião. Graças ao seqüestro, o processo atrasou-se.

RARO CONSENSO - Verdadeira questão de bom senso na diplomacia brasileira, em que não ter relações com Cuba se torna um absurdo num governo que condena um apartheid mas tem embaixada na África do Sul, é inimigo do comunismo mas tem relações com a União Soviética e a China, a reaproximação já era, há quase um ano, um raro consenso no ministério. Um a um, com ênfase maior ou menor, os ministros concluíram a favor do reatamento - embora tenha ocorrido, aí, uma dessas surpresas de bastidor. Coube ao ministro Fernando Lyra, em público uma das estrelas mais à esquerda do governo, ser o último a responder, em privado, dando o sim a Cuba, numa inesperada hesitação que provocou constrangimento entre seus parceiros de governo.

"Não vejo vantagem para o Brasil nesse reatamento, que é pura conseqüência do avanço das esquerdas no país", afirma o general Newton Cruz, chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações no governo João Figueiredo, numa época de avanço das direitas no país. "Cuba é uma bomba de retardo que o governo brasileiro vai carregar de agora em diante." Pelo acordo firmado entre os dois governos, cada embaixada poderá montar um quadro de 25 funcionários, entre diplomatas e empregados subalternos. A cota, se for preenchida, é grande - será maior que a de um pais como a Checoslováquia, que mantém menos de dez funcionários no Brasil, cinco deles diplomatas credenciados. O tamanho da embaixada foi quase certamente uma vitória cubana, pois outros países socialistas de ficha bem menos quente mal conseguem ultrapassar a dúzia de funcionários. Ainda assim, os diplomatas cubanos passarão por uma vigilância bem mais severa do que os americanos ou franceses, por exemplo. "A conjuntura mudou", afirma um oficial do SNI.

Tão óbvia quanto o restabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países, em 25 de junho de 1986, foi a ruptura, em 13 de maio de 1964, explicada pelo presidente Humberto Castello Branco numa ruidosa entrevista coletiva, dois dias mais tarde. "Os cubanos interferiam nos problemas internos brasileiros", afirma Luiz Viana Filho, ministro-chefe da Casa Civil de Castello Branco. De fato, em 1962, no governo João Goulart, quando flertava com Francisco Julião, Fidel foi acusado, com base em documentos cubanos capturados pela CIA - o serviço de espionagem americano -, de ter patrocinado um plano de guerrilhas para o Brasil. Há 22 anos, o regime militar acabara de se instalar no país e o comandante Fidel Castro era um recém-convertido ao comunismo. Caminhando por linhas opostas, os dois países estabeleceram, a partir de então, uma rota de muitas colisões só encerrada em 1979, quando Fidel elogiou a abertura política no Brasil. "Percebi sintomas alentadores no processo de democratização", afirmou Fidel. "O mínimo que podemos desejar é que ele avance por um caminho progressista."

Por mais de uma década, a diplomacia brasileira foi caudatária dos EUA e não só chegou a enviar 1.100 soldados para a República Dominicana, mas também chegou a amadurecer, entre os chefes militares, a idéia de reforçar o contingente americano na guerra do Vietnã, a quase 20.000 quilômetros da fronteira oeste do país. À sua maneira, o Brasil tornou-se exportador de capitalismo, enviando ao Chile uma parte dos dólares que envenenaram o governo socialista de Salvador Allende, numa remessa completada, depois do golpe de 1973, por um lote de policiais encarregados de torturar presos políticos no Estádio Nacional, em Santiago. Pela mesma trilha, coube ao general Breno Borges Fortes, comandante do III Exército, planejar uma mirabolante invasão do Uruguai, caso os partidos de esquerda agrupados na Frente Ampla vencessem as eleições de 1971. O plano esboroou quando Borges Fortes tentou estocar gasolina para sua guerra. Ainda no Uruguai, a FAB despejava cargas de explosivos que eram usados por organizações de extrema direita para lançar aos ares sedes do Partido Comunista. No caminho inverso - o da exportação de comunismo -, Havana atacou com muita dureza, seguindo uma linha programática, ostensiva e ditada pessoalmente por Fidel. "Cuba tinha uma política aventureira para a América Latina", afirma Givaldo Siqueira, membro da Comissão Executiva do Partido Comunista Brasileiro.

Escultor de um projeto megalomaníaco, ao tentar transformar a pequena ilha de Cuba, com 10 milhões de habitantes e um PNB duas vezes menor que o do Chile, na matriz de muitas sucursais revolucionárias, Fidel patrocinou organizações clandestinas e atos de terrorismo, montou escolas de guerrilha para estrangeiros e acabou recolhendo um doloroso fracasso - que custou ao Brasil quase 500 vítimas entre 1968 e 1978. "Pensavamos que um processo semelhante ao de Cuba poderia se repetir aqui no Brasil", diz Tania Fayal, 37 anos, que fez um curso de guerrilha urbana e outro de guerrilha rural nas proximidades de Havana, nos quais aprendeu a planejar emboscadas, enfrentar tiroteios com exércitos regulares, portar e manejar armas. "Agora, acredito num socialismo com democracia", diz Tania, ex-integrante da Aliança Libertadora Nacional, ALN, o mais agressivo grupo terrorista que já houve no país, hoje diretora da empresa de turismo do Rio, a Riotur. "O que ficou foi uma certa noção de como atirar", afirma Fernando Gabeira, candidato do PT ao governo carioca em 15 de novembro, com prestígio a nível zero junto ao governo cubano desde que criticou a invasão do Afeganistão por tropas soviéticas e apoiou o sindicato dissidente Solidariedade, da Polônia. "Nunca mais fui convidado para voltar", diz.

Nos arquivos da força cubana no Brasil, onde se vê uma musculatura menor que em países como a Colômbia ou a Venezuela, há uma conta de 2 milhões de dólares. "O Fidel mandou esse dinheiro para ajudar nossos movimentos contra o governo", afirma o coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório, 75 anos. No início de 1965, à frente de 23 homens, pouco dinheiro e armamento precário, Cardim entrou no Brasil pela fronteira uruguaia, tomou o destacamento militar de Três Passos, a 470 quilômetros de Porto Alegre, leu um empolgado manifesto em uma emissora de rádio local - mas acabou derrotado e preso duas semanas mais tarde. Segundo o coronel, a ajuda do ditador cubano nunca se materializou porque o caixa da campanha militar era o atual governador Leonel Brizola, do Rio, que preferiu dar outro destino à verba revolucionária. "Ele só repassou 100.000 dólares, gastando o resto na compra de fazendas e ovelhas no Uruguai", diz Cardim. "O Brizola já fez diversas promessas, mas nunca explicou o que houve com aquele dinheiro", garante o deputado Sebastião Nery, do PMDB carioca. Por causa dessa trapaça, até hoje Fidel costuma, em suas conversas com brasileiros, referir-se a Brizola como "el ratón".

SIGLAS RADICAIS - Procurando recortar sua própria fatia junto à esquerda da América Latina, Fidel Castro estimulou o nascimento de uma bateria de siglas radicais, como a ALN, o MR-8 e a Vanguarda Popular Revolucionária, que concorriam entre si no terrorismo mas eram bem recebidas em Havana. Sob inspiração de Manoel Pineyro Losada, seu braço direito no palácio do governo em Havana, surgiu até uma entidade de exilados, Molipo, destroçada em 1972, quando seus integrantes tentavam entrar clandestinamente no Brasil. Em 1967, alegando uma falsa hepatite, o dirigente comunista Carlos Marighella saiu de circulação no país para reaparecer em Havana, onde aderiu a uma organização fundada por Fidel, a Organização Latino-Americana de Solidariedade, e abriu um rombo nas fileiras do PCB em São Paulo. "Não posso continuar pertencendo a essa espécie de Academia de Letras cuja única função consiste em se reunir", disse Marighella na época, referindo-se ao comitê central de seu partido.

Morto em 1969, a 300 metros do edifício onde hoje mora o diplomata Sergio Cervantes, na Alameda Casa Branca, nos Jardins, em São Paulo, Marighella tornou-se herói do Museu da Revolução, em Santiago de Cuba - mas sua morte marca o início de uma mudança, consumada com o final das ações terroristas no país, em 1973. Proprietário de uma das maiores dívidas externas per capita do mundo - 8 bilhões de dólares -, hoje Fidel Castro administra seu prestígio político apoiado em duas estacas brasileiras. O PCB, de um lado, com quem mantém boas relações sob as bênçãos da URSS. O PT, de outro, com quem partilha a posição de pedir uma moratória para a dívida externa dos países do Terceiro Mundo mas a quem criticou por não apoiar Tancredo Neves na disputa no Colégio Eleitoral. Fiel à velha tradição dos coniunistas cubanos de agradar a vários rivais ao mesmo tempo, ao lado dos 2.000 turistas brasileiros que devem desembarcar em Cuba até o final deste ano, o governo de Castro já recebeu uma dezena de caravanas de militantes petistas e comunistas para promover cursos teóricos de até três meses, em Havana. O ditador cubano, porém, jamais permitirá que seus cidadãos saiam de Havana para estudar na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo ou para estagiarem na iniciativa privada no Rio de Janeiro. Com esses cursos e todos os seus namoros simultâneos, Fidel demonstra que cultiva sua velha obsessão: a de formar, a partir de Cuba, uma elite revolucionária na América Latina. Nos anos 60 ele achava que faria isso com os PCs e as guerrilhas. Nos 70, sem os PCs e com o terror. Agora, acredita em PCs, PT e cursos. A idéia central é a mesma.

"O restabelecimento das relações diplomáticas é uma conquista da sociedade", afirma o deputado Fernando Morais, que ia a Cuba quando isso era proibido - e uma vez na volta, ficou preso por 24 horas. O sociólogo Cervantes passou pelo vexame de desembarcar no aeroporto do Galeão, no ano passado, e quase ser embarcado de volta a seu país sendo salvo por uma intervenção de última hora do Ministério da Justiça. Há um mês, em Paris, a competente burocracia do Itamaraty, que no passado era usada pelo governo para negar passaporte a recém-nascidos no exterior porque eram filhos de exilados políticos, produziu uma cena elegante para marcar o reatamento. O acordo real, no entanto, deve muito mais ao setor privado do que ao público, seja por causa de empresas que já faziam um comércio de 5 milhões de dólares ao ano com Cuba, passando à margem da diplomacia, seja por causa das novelas da Rede Globo, que paralisam a vida noturna de Havana. "O único defeito desse acordo é que veio com atraso", afirma o sambista Martinho da Vila, que visitou a ilha há dois anos.

Como negócio, o restabelecimento das relações Brasil-Cuba pode até render 200 milhões de dólares anuais, o que tornaria Cuba uma praça equivalente a um terço da Nigéria. Ao abrir-se para um país comunista, porém, o Brasil ficou um pouco maior do que é. "Entramos na categoria dos países civilizados", afirma o deputado Fernando Morais. "Antes, estávamos na companhia do Chile e do Paraguai, que, até hoje, não reconhecem o regime de Fidel Castro." "A idéia de ficar rompido era uma grande bobagem", arremata Martinho da Vila, indo ao centro da questão: o presidente José Sarney teve o grande mérito de mandar o governo parar de fazer bobagem.


Cuba esperou sentada

Os cubanos apostaram na certeza
de que o reencontro com o Brasil
era só uma questão de tempo

Roberto Pompeu de Toledo, de Havana

No Cine Yara, um dos mais freqüentados de Havana, situado na região da cidade onde se concentram os hotéis e restaurantes, estava em cartaz na semana passada o filme Bye, Bye Brasil, de Carlos Diegues. Doce ironia. Naquele mesmo momento, na vida real, muito longe de dizer bye, bye, Cuba vivia seu reencontro histórico com o Brasil - e tudo caminhava muito rapidamente. No quadro dos acordos celebrados em Paris para o restabelecimento de relações entre os dois países, uma missão avançada cubana já se formava para, provavelmente ainda esta semana, viajar ao Brasil. E, embora só para setembro estivesse programada a plena instalação da embaixada em Brasília, era praticamente certo o nome do novo embaixador. Quase sem possibilidade de erro, ele seria Jorge Bolaños, de 50 anos, atualmente um dos seis vice-ministros existentes em Cuba na pasta das Relações Exteriores. "Ainda falta a palavra final do Conselho de Estado e, sobretudo, do comandante Fidel Castro" , dizia uma fonte da chancelaria cubana. "Mas seria uma grande surpresa se o nome não fosse o de Bolaños."

O anúncio do restabelecimento das relações foi comunicado de forma discreta ao público cubano, como é de uso no país. O jornal Granma, órgão oficial do Partido Comunista, em sua edição da última quinta-feira, não publicou mais do que a nota oficial produzida em Paris pelas representações dos dois países; enquadrada por fios vermelhos e situada no canto direito da primeira página. "Restabelecem relações diplomáticas Cuba e Brasil" era o título, em letras pequenas. A notícia perdia em destaque, de longe, para uma reunião que naquele mesmo dia Fidel Castro estava realizando com os dirigentes de cerca de 1.000 empresas da cidade e da província de Havana - um seminario sobre gestão de empresa, em que Fidel, ao seu estilo, cobrava e dava palpites em temas que iam dos salários dos funcionários à precariedade dos serviços de táxi na capital cubana.

'LUTO NACIONAL' - Ocorreu a mesma coisa na televisão. Ali, na noite de quarta-feira, não houve mais do que a leitura do comunicado oficial. E se no dia seguinte, no noticiário da noite, quando as duas redes de televisão existentes em Cuba, a TV Nacional e a TV Rebelde, a notícia recebeu um espaço um pouco maior, acompanhada por filmes antigos com cenas do Rio de Janeiro e de São Paulo, foi para dizer que no Brasil os jogos da Copa do Mundo tinham sido interrompidos, nas rádios e na televisão, para que se desse a informação.

Por trás dessa escassez costumeira e protocolar da imprensa, porém, havia um sincero sentimento de regozijo. "O Brasil é um país muito importante para nós", dizia outro dos vice-ministros de Relações Exteriores de Cuba, Ricardo Alarcon de Guesada. Outro diplomata, Ramiro Rodriguez Gomes, que serviu no Brasil nos anos críticos do rompimento de relações e hoje trabalha em Havana na direção de imprensa estrangeira, acrescentava: "Nós nos identificamos muito com o Brasil. Para se ter uma idéia, era preciso ver como ficou esse país no dia em que o Brasil foi desclassificado na Copa do Mundo. Houve um luto nacional". Aos 58 anos, discreto, Ramiro começou sua vida de diplomata no Brasil como conselheiro da embaixada cubana. No dia 31 de março, quando os militares derrubaram João Goulart, ele estava num almoço numa outra embaixada no Rio de Janeiro, que só terminou às 4 horas da tarde. Voltou então para sua casa, na Rua Mascarenhas de Moraes, e no caminho percebeu que o Rio tinha mudado de mãos. "No Hotel Copacabana Palace havia um coronel comandando seus homens e ocupando uma posição", lembra. "Achei muito interessante e fiquei observando a cena." Depois que o embaixador Raul Roa Khoury retornou a Havana, cinco dias após o movimento militar, Ramiro ainda ficou mais um mês no Brasil. Nos anos seguintes serviria na Síria e no Burundi, mas nunca deixou de alimentar a idéia de voltar ao Brasil. "Era muito bom ir lá em Santa Teresa, tomar cachaça e bater um papo com os amigos", diz ele.

O reatamento de relações entre os dois países tem também um sabor de reencontro com a História para o próprio Fidel Castro. Quando esteve no Brasil, em 1959, Fidel foi recebido com pompa pelo presidente Juscelino Kubitschek e seu vice, João Goulart. Num clima descontraído, um integrante de um grupo de jornalistas brasileiros que visitou Cuba na mesma época chegou a roubar o revólver de Fidel Castro para guardar de lembrança, com a discreta anuência do dirigente cubano. Ao rompimento de relações, em 1964, o governo de Cuba respondeu que não tinha interesse em manter laços com um "regime de gorilas" - mas, ao mesmo tempo, tinha certeza de que a política é um objeto móvel. A condecoração que "Che" Guevara recebera em Brasília, em 1961, foi mais tarde cassada pelos militares. Vinte e dois anos depois, porém, com a mesma mobilidade, a política dá uma nova reviravolta.

POSIÇÕES IDÊNTICAS - Para os diplomatas cubanos, nunca houve dúvidas de que o processo iniciado no Brasil com a eleição de Tancredo Neves para a Presidência da República resultaria no que resultou na semana passada, embora tivesse demorado mais de um ano. "Nossa atitude era só esperar", diz José Raul Viera Linares, o principal dos vice-ministros cubanos das Relações Exteriores e negociador, com o brasileiro Paulo Tarso Flecha de Lima, do acordo de Paris. "Nunca quisemos apressar nada", acrescenta Viera. "O companheiro Fidel Castro sempre dizia que era preciso esperar o momento que o Brasil julgasse mais adequado."

Nestes últimos tempos, começava a ficar longe a época em que os embaixadores cubanos e brasileiros não podiam se convidar mutuamente para as recepções e, mesmo nas reuniões de trabalho multinacionais, eram obrigados a guardar as devidas distâncias. "Era uma pena", recorda o vice-ministro Alarcon. "Nos organismos internacionais, em questões como de comércio ou de desenvolvimento, na maioria das vezes nossas posições eram idênticas e, no entanto, não podíamos trabalhar juntos." Alarcon se recorda de uma reunião de que participou em 1978, no Conselho Econômico e Social da ONU, em Nova York. Brasil e Cuba tinham posições idênticas e muito mais elaboradas e precisas do que os demais, porém não podiam apresentar uma proposta comum. Cada um precisou sair para o seu lado, em busca de outros parceiros, para dar mais força a suas posições. "Nunca houve de nossa parte desespero para restabelecer relações, mas sabíamos que isso ia acontecer", diz Eduardo Gonzalez, responsável pela seção Brasil no Ministério das Relações Exteriores cubano.

Atualmente, Cuba é um país onde o religioso Frei Betto, militante do PT de São Paulo, por exemplo, possui mais audiência entre as elites do que o próprio Fidel Castro entre as elites brasileiras. Em Havana, Frei Betto é o brasileiro mais conhecido depois de Pelé, disputando o segundo lugar com a atriz Lucélia Santos. Seu livro sobre Fidel e a religião, lançado no ano passado, vendeu 1,1 milhão de exemplares em Cuba, ou seja, foi lido por mais de 10% da população, índice que nenhum livro escrito pelo comandante cubano jamais atingiu no Brasil. A audiência de Frei Betto se deve, é verdade, menos ao fato de ele ser do PT e muito mais ao fato de ser um membro da Igreja Católica, a quem o próprio Fidel tem grande interesse em manter-se aliado.

Durante os 22 anos que durou o gelo nas relações entre os dois países, Genebra foi o lugar onde houve mais contatos entre as partes, em organismos como a UNCTAD e o GATT. Mesmo assim, eram contatos precários em que os pontos de coincidência não podiam ser abertamente explorados na mesa de negociações. Essa era começou a conhecer formalmente o seu fim quando o embaixador de Cuba no Panamá, Miguel Brugueras, comunicou a Havana que acabara de receber do embaixador do Brasil no mesmo país, Carlos Bueno, um convite para o início das conversações sobre restabelecimento de relações. "Nunca houve exigência nenhuma de nossa parte", diz Viera. "O processo ocorreu todo sem tensões." Havana deu imediatamente o sinal verde para Brugueras, e começaram as negociações das quais sairia uma outra reunião - a do Hotel Intercontinental, em Paris.

Além de Viera, a delegação cubana na capital francesa foi formada por dois outros membros - Lazaro Mora, diretor do Departamento de América Latina e Caribe do Ministério de Relações Exteriores, e Reynaldo Calbiaque, diretor de África, que se encontrava em Paris, coincidentemente, para uma reunião sobre o apartheid na Africa do Sul. "A parte brasileira preparou muito bem as coisas", diz Viera, recordando-se das reuniões na suíte imperial do Hotel Intercontinental, situada no 2º andar. "Tudo transcorreu com muito rigor e profissionalismo." Viera conhecia só de nome o brasileiro Paulo Tarso Flecha de Lima, principalmente por seu trabalho de promoção comercial no ministério brasileiro das Relações Exteriores, mas diz conhecer muito bem o Itamaraty. "Para nós, um nível como o do Itamaraty é uma meta a alcançar", diz ele. "Ali eles produzem uma diplomacia que se destaca não só entre os países em desenvolvimento mas no mundo."

A futura embaixada cubana no Brasil contará com uma equipe de sete ou oito diplomatas, e o pessoal, no total, não superará os 25 funcionários, como ficou estabelecido nas reuniões de Paris. Uma curiosidade dos cubanos é saber se eles ainda têm direito, em Brasília, ao mesmo terreno que lhes tinha sido doado no começo da década de 60 para erguer sua embaixada ou se já se construiu outra coisa naquele lugar. Certo é que a Embaixada do Brasil em Havana não ocupará mais o mesmo lugar que antes - dois casarões no centro da cidade que abrigam, hoje, uma clínica psiquiátrica e um organismo chamado Instituto Jornalístico Internacional José Martí. Certamente o Brasil escolherá uma residência no bairro de Miramar, antigo abrigo dos ricos de Havana, hoje convertido em refúgio das representações diplomáticas.

'NOME DE ALTO NÍVEL' - O problema da escolha do local da embaixada em Brasília e outras providências práticas estarão a cargo da missão avançada que deve seguir esta semana e da qual já se conhecem dois membros. Um deles é Idelso Spinoza, um diplomata que esteve recentemente no Brasil, em fevereiro, para um congresso de sociologia. Spinoza, no fim da semana passada, encontrava-se no Panamá em consultas com o embaixador Miguel Brugueras. É certo que, cumprida sua tarefa na missão avançada, Spinoza voltará ao Brasil, agora para ficar. Ele será o primeiro ou o segundo secretário da embaixada, posição para a qual foi levado com a experiência adquirida no cargo de responsável pela seção Brasil da chancelaria em Havana, antes de passá-lo a Eduardo Gonzalez.

O embaixador será Jorge Bolaños. "Já há tempos tínhamos decidido que o nome tinha de sair do mais alto nível", afirma uma fonte da chancelaria cubana. Bolaños era bancário antes de ser diplomata. Foi dirigente sindical entre os bancários e, nessa qualidade, participou do Movimento 26 de Julho, que haveria de levar Fidel Castro ao poder. Já como diplomata, chegou cedo a embaixador e exerceu sucessivamente este posto na Polônia, na Checoslováquia e na Inglaterra. Hoje, Bolaños, na divisão existente entre os vice-ministros cubanos dentro do Ministério de Relações Exteriores, responde pelo setor da Europa. Apesar de não ser essa a sua área, ele esteve entre as pessoas que acompanharam a cada passo o processo de restabelecimento de relações com o Brasil. Não havia em Cuba mais do que dez pessoas que sabiam de tudo, da reunião de Panamá à de Paris, e Bolaños estava entre elas. Outro que esteve sempre inteirado, de cada mínimo detalhe, e que dedicou à questão tanto interesse quanto aos táxis de Havana foi Fidel Castro.

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