quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A Besta EstataL: Ingerência na Vale.


Roger Agnelli exerce a presidência da Vale segundo as leis vigentes no país, que obedecem a um ordenamento constitucional plasmado num regime de democracia plena. Se está fazendo uma boa ou uma má gestão na empresa, os acionistas é que podem dizer. E eles dispõem de mecanismos — também regulados por lei numa empresa de capital aberto — para intervir. Infelizmente para os mistificadores, os resultados são fabulosos. A melhor obra que um dirigente de uma empresa pode realizar, seguindo as leis de seu país, é garantir lucro aos acionistas. Não é pecado. Historicamente, o lucro fez a riqueza das nações, e o estado, a riqueza de alguns larápios.

Vivemos, claro, uma era em que o capitalismo voltou a ser demonizado — até pelos capitalistas. A genial Ayn Rand — não era uma grande teórica, mas tinha insights fantásticos — já se perguntava no livro What is Capitalism? que diabo mesmo era o tal “excedente social” que a Enciclopédia Britânica dava como uma das virtudes do capitalismo na comparação com sistemas anteriores. Numa síntese certeira, ela disparou: “Não existe, evidentemente, nada parecido com ‘excedente social’; toda riqueza é produzida por alguém e pertence a alguém”. Ela também ironizava aqueles que apontavam a “promoção do bem comum” ou ainda “a melhor alocação de recursos” como qualidades próprias do sistema. Quais recursos, cara pálida? De quem? Pra quê? Para Ayn Rand, a principal virtude do capitalismo, que realmente o distinguia de modelos anteriores, era a liberdade. Diante do Estado, é claro.

Sei que é uma pequena digressão. Dedico-me a ela para evidenciar que só se considera aceitável a ação troglodita e destrambelhada do governo para derrubar o presidente da Vale porque, no fundo, acredita-se que uma empresa pode e deve ser instrumento passivo da vontade do governantes, que ele vai chamar de “política pública”, “promoção do bem comum” e o diabo a quatro. Ninguém nega — nem a felizmente radical Ayn Rand negava, — que o estado tenha o seu papel no ordenamento da sociedade, mas ele não sabe produzir riqueza, não. E antes que a canalha petralha comece a gritar “E a Petrobras?”, respondo: a Petrobras é uma empresa de economia mista e só saiu da areia com o capital privado. Foi ele que lhe permitiu chegar ao pré-sal. Esta é uma verdade cristalina. E, se ele se ausentar, o petróleo vai ficar lá. Aliás, temos de tomar cuidado para que Lula não seja o fogueteiro precoce do que pode permanecer escondido sete mil metros abaixo do fundo do mar.

Essa gente quer negar o óbvio. Foi a privatização da telefonia que permitiu ao país entrar na economia na informação. Foi a privatização que fez da Vale a gigante que hoje realmente é. Foi a privatização que permitiu à Embraer ser um player internacional. O país não teve excesso de privatizações, mas falta. E é o capital privado, na cidade e no campo, que conseguiu fazer frente à demanda do crescimento chinês - ELE, SIM, O VERDADEIRO ELEMENTO A CONVERTER, AINDA QUE AD HOC, O PT À ECONOMIA DE MERCADO.

Ou alguém acha que essa gente realmente jogou no lixo — lugar adequado — as suas convicções dos 25 anos pregressos? Jogou nada! Dada a menor chance, recupera dos escombros da memória a sua tara estatista. É o que vemos agora. E isso na melhor das hipóteses. E QUE FIQUE CLARO: A CANDIDATA DILMA ROUSSEFF ESTEVE E ESTÁ NA LINHA DE FRENTE DA PRESSÃO CONTRA A VALE. EIS O QUE ELA NOS PROMETE!

Essa história da Vale está muito mal contada. Há caroço nesse angu que ainda não foi detectado, especialmente depois da entrada triunfal do coruscante Eike Batista na jogada. Os mandatos dos diretores da Vale terminam em 2011. Se as coisas não vão bem por lá — o que é piada —, os acionistas estão bem perto de pôr as cartas da mesa. Por que essa pressa agora? A, chamemos assim, eventual deformação ideológica, por si lastimável, parece ser apenas a hipótese mais benevolente para este avanço sobre a companhia. Haveria mais coisas aí? Há atores até agora ocultos nessa lambança? Eu aposto o mindinho no torno petista de modelar mistificações que sim! E não vou perdê-lo.

Elio Gaspari, num texto infelicíssimo, claramente favorável à ação do governo, considerou e recomendou: “Brigas desse tipo estimulam uma tendência para se tomar partido logo que o jogo começa. É muito melhor acompanhá-las dando razão aos dois lados.”

Uma banana! É muito melhor dar razão a quem tem razão e a quem segue o ordenamento jurí

dico do país. Mais: se isso é um conselho ao jornalismo, é coisa de quem ficou na janela, vendo a banda passar. Levanta e anda, Carolina!!! Ao jornalismo, parece, cabe é investigar os elementos dessa história que não são nada óbvios. Felizmente, os dois jornais que publicaram o conselho de Gaspari não o seguiram. Nesta quinta, em editorial, O Globo e Folha condenam a ação destrambelhada — e, para mim, suspeita — do governo.

Quanto a este blog e seus leitores… Bem, caras e caros, a gente sempre é bastante rápido em algumas coisas, não? Se anda como anta, pasta como anta, tem patas de anta, o olhar da anta, o cheiro da anta, o rabo da anta, o focinho da anta, não precisamos esperar o consenso para concluir: “É uma anta”.

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Editorial da Folha:

Felizmente, a Folha não se deixou levar por Elio Gaspari na questão da Vale e não confundiu a ingerência indevida do governo na companhia com uma mera partida de futebol — metáfora da predileção do “Guia” do jornalista — ou com uma rinha de galo. O editorial que segue põe as coisas nos seus devidos termos.
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O QUE se manifestava na forma de críticas isoladas à gestão da mineradora Vale, por parte do governo federal e seus aliados, assume agora feições claras de uma ação concertada, concebida no Planalto com o intuito de solapar o presidente da empresa, Roger Agnelli -indicado pelo Bradesco, após acordo entre acionistas controladores.
Os sinais recentes dessa ofensiva partiram, com coincidência de datas, da ministra Dilma Rousseff e do empresário Eike Batista, disposto a fazer o papel de ventríloquo do presidente Lula. Em viagem ao Pará, no último feriado, a aspirante petista à sucessão presidencial aproveitou a audiência da festa religiosa do Círio de Nazaré para dizer que o governo vê como “questão de honra” a retomada do plano de investimentos no polo siderúrgico de Marabá por parte da Vale.
No mesmo dia 11, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, Eike Batista parecia conhecer a fala da ministra. Além de criticar opções estratégicas da mineradora, assumia o interesse de tornar-se seu acionista e manifestava apoio à ideia de que o petista Sérgio Rosa, presidente da Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil), venha ocupar o lugar de Agnelli.
Muito mais do que uma ingerência, está em jogo um esforço coordenado para que a Vale venha a ser gerida por figuras simpáticas, associadas ou subordinadas ao governismo. A plataforma mal disfarça a intenção de reestatizar, para todos os efeitos práticos, a companhia.
Tamanho retrocesso não seria novidade neste governo. Não faz um ano, o Planalto patrocinou a compra da Brasil Telecom pela Oi. Foi preciso alterar normas, manobrar resistências na Anatel e conseguir o aporte de dinheiro público, via repasses bilionários do BNDES e do Banco do Brasil, para viabilizar um negócio cujo resultado foi o surgimento de um oligopólio nos serviços de telefonia fixa no país.
No caso da Vale, o governo reinvoca um suposto interesse nacional para legitimar a tentativa de convertê-la em instrumento político. A empresa sob ataque especulativo da sanha estatizante é, porém, caso exemplar de privatização bem-sucedida.
Em 1997, quando foi privatizada, a Vale tinha cerca de 10 mil empregados; hoje conta com 60 mil -soa como mero pretexto, portanto, que o Planalto tome cerca de 4 mil demissões recentes na empresa, por conta da crise mundial, para desestabilizar sua direção. Seu valor de mercado passou de US$ 8 bilhões para US$ 125 bilhões. O lucro líquido foi multiplicado por 29.
Se há algo que o governo deveria fazer em relação à Vale é retirar, complemente, seus tentáculos da mineradora.

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Editorial de O Globo:

Também o jornal O Globo não caiu na proposta de arquibancada de Elio Gaspari, que queria só assistir a um bom jogo diante da pressão inaceitável que o governo federal faz para derrubar Roger Agnelli da presidência da Vale. Só para registro, Gaspari deixou claro que tem um time nesse caso: o lulismo. Seguem trechos do editorial do jornal.
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O governo Lula sempre ostentou uma faceta intervencionista. (…) No segundo mandato (…). é visível a atuação desenvolta dos militantes da centralização de poder e interferência em negócios privados. A pressão e medidas objetivas do governo para a criação da Supertele — a compra da BrT pela Oi —, para alguns o embrião de uma sonhada ressurreição da Telebrás, foram preocupante resultado da ação desse grupo.
(…)
Assim como na operação das telecomunicações, o governo mobiliza o braço sindical e financeiro representado pelo fundo de pensão das estatais para trabalhar pela saída de Agnelli. Esses fundos são entes híbridos: declaram-se privados na hora de aplicar recursos; e públicos, quando precisam de dinheiro das estatais mantenedoras (ou seja, o contribuinte funciona como pára-quedas de reserva).

Aparelhados pelo PT/CUT, eles passaram a ser instrumentos bilionários sob essas ordens palacianas.
(…)
Por que Agnelli caiu em desgraça em Brasília? Porque administra a Vale em busca do melhor retorno para os acionistas, inclusive os fundos das estatais. Os números são impressionantes: desde a privatização, a Vale teve o lucro líquido multiplicado por 29 vezes; o faturamento, por oito; o contingente de funcionários passou de 10 mil para 60 mil; o valor de mercado da companhia, de US$ 8 bilhões, chegou a US$ 125 bilhões. E muito mais imposto é recolhido pela ex-estatal. Mas os estatistas do Palácio não estão satisfeitos. Querem que a Vale atue como estatal, invista em siderurgia no Pará, estado sob controle da aliança PT-PMDB; arque com sobrepreço da compra de navios no mercado interno, e por aí vamos…
(…)
A experiência aconselha não se misturar política com os cifrões do mundo dos negócios. O futuro confirmará.



Reinaldo Azevedo

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