sexta-feira, 9 de outubro de 2009

CUSTO E BENEFÍCIO

EDITORIAL
O GLOBO
9/10/2009

Após sete meses de tramitação na Comissão de Relações Exteriores, o Protocolo de Adesão da Venezuela ao Mercosul continua dividindo os senadores brasileiros. O relator, Tasso Jereissati (PSDB-CE), votou contra. A tramitação foi interrompida por um pedido de vista do líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-AP), que apresentará voto em separado no dia 29, defendendo o ingresso venezuelano.
Jereissati reconheceu que a adesão tem vantagens, por se tratar a Venezuela de um país de expressão econômica, com um PIB de US$ 300 bilhões. Mas as vantagens acabam largamente ofuscadas pelos problemas de ordem políticoinstitucional criados pela adesão. O Mercosul tem uma cláusula democrática que, automaticamente, afasta os membros que saem da linha. Como então admitir uma nação cujo governo se torna cada vez mais autoritário e cujas instituições estão em pandarecos? Agora mesmo, a Assembleia Nacional da Venezuela, totalmente dominada pelo caudilho, aprovou a reforma da Lei das Forças Armadas, criando milícias sob o controle de Chávez. Segundo a oposição, isso equivale a dar armas aos chavistas.
O Mercosul voltou a negociar com a União Europeia. Que incentivo terão os europeus para fechar um acordo de extrema importância para o Mercosul se este acolhe um governo, como o de Chávez, centralizador, autoritário e estatizante? E que trabalha para criar uma frente “socialista bolivariana” na América Latina, em curso de colisão com os EUA e com os valores democráticos e de liberdades civis cultivados no Ocidente? Jereissati chamou a atenção para a falta de segurança jurídica de um acordo envolvendo um país que muda as regras do jogo ao sabor do histrionismo de Hugo Chávez, citando como exemplo as restrições impostas pela Venezuela à importação de telefones celulares.
Romero Jucá, defendendo a posição do governo Lula favorável ao ingresso de Caracas, argumenta que o foco não está em Chávez, mas na Venezuela, numa tentativa de dissociar as duas coisas. Acaso na Segunda Guerra Mundial era possível separar a Alemanha do nazismo de Hitler? É preciso que o Senado delibere com a máxima atenção aos reais interesses do Brasil, e não se deixe enredar pelos arroubos terceiromundistas de Brasília ou pelas armadilhas bolivarianas de Caracas.

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