sábado, 17 de outubro de 2009

D. Pedro III


No primeiro dia da Grande Viagem pelo São Francisco, o país ficou sabendo que o maior dos presidentes é também muito melhor que os dois imperadores. D. Pedro I foi ultrapassado em 6 de setembro, quando Lula, de uma vez só, anunciou o Descobrimento do Pré-Sal e proclamou a Segunda Independência. D. Pedro II capitulou nesta semana, na cidade mineira de Buritizeiros, durante o improviso do chefe da nação e chefe da caravana de pais-da-pátria convocada para conferir, olho no olho, a transposição das águas do rio.

“Essa obra foi pensada em 1847, ainda no tempo em que D. Pedro era o imperador brasileiro”, informou. Como a transposição começou em 2005, e como a República nasceu em 1889, é só fazer as contas para entender que o homem no palanque fez em menos de quatro anos o que um Pedro não fez em 42 e o outro nem tentou. Lula sabe que a obra foi pensada pelo segundo, e que o segundo vem sempre depois do primeiro. Evitou colar o I ou o II no Pedro mencionado no discurso por acreditar, desde o dia em que viu os dois retratos, que um moço com cara de quem está pensando na mucama só virou pai de um filho com cara de avô porque alguém resolveu embaralhar a História do Brasil com a troca dos algarismos romanos.

“Quase 200 anos depois”, continuou a fala do trono, já de volta aos inimigos da República, “essa obra não conseguiu andar para a frente, porque nós tivemos muitos governantes de duas caras, que prometiam fazer a obra em um Estado e não faziam”. Se fosse só a transposição do São Francisco, Lula nem perderia tempo com a multidão de bifrontes. Mas tem todo o direito de queixar-se da trabalheira o presidente que, como os antecessores nada fizeram, também teve de acabar com a fome, erradicar o analfabetismo e fabricar em 36 meses um sistema de saúde que está perto da perfeição. Sem falar do tsunami reduzido a marolinha. Fora o resto.

“A água é criada pela natureza, o rio é federal, é o rio da integração nacional”, concluiu o rei do improviso, que apareceu na escala seguinte já encarnando o déspota não esclarecido. Ao longo de 3 dias, levou Dilma Rousseff para não pescar nenhum peixe, autorizou o povo do Nordeste a comer cobras, calangos e passarinhos, ordenou a José Serra que fique esperto e se limite a governar São Paulo, dormiu em aposentos de barão sertanejo, comparou a ONU a uma fruta caindo do galho, foi o primeiro a acordar e o último a dormir, cantou muito, conversou muito, comeu muito e bebeu socialmente. Tremenda viagem. Melhor que isso, só uma eleição presidencial com dois candidatos: “Só nós contra eles, pão, pão, queijo, queijo”, vislumbrou o olhar de comício.

Quem poderá resistir a uma candidata escolhida por quem já gastou R$61,84 milhões na transposição que vai acabar com a sede e a seca no sertão? É verdade que a quantia equivale a 3,88% do total de R$ 1,68 bilhão, que o dinheiro chega sempre com atraso, que a coisa vai demorar. Mas só os famosos 6% de descontentes conseguem lembrar-se disso na semana em que o maior dos presidentes ficou pronto para virar Pedro III.


Augusto Nunes

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