domingo, 4 de outubro de 2009

De bem a pior


Diante do portão ainda fechado, olho por entre as grades do edifício e avalio a rua. Poucos passantes, alguns porteiros varrendo a calçada, tudo indica que o temido encontro será evitado novamente. Tem dado um pouco de trabalho, mas venho conseguindo driblá-la com eficácia e faz tempos que não a vejo.

Bem verdade que, paradoxalmente, tenho uma certa saudade dela, mas sou obrigado a reconhecer que fico aliviado por não vê-la, é melhor assim.

Inspeção concluída, tomo coragem e saio andando em direção à banca de jornal, aonde chego sem problemas e da qual volto devagar, espiando distraidamente as manchetes e sem suspeitar do que me espera, depois de dobrar a esquina de minha rua.

— Ah-ha! — soa uma voz feminina enquanto recebo um puxão na manga da camisa e logo concluo que desta vez não consegui escapar, é ela novamente. — Andava se escondendo, hein? — Me escondendo? Não, claro que não. Por que eu haveria de me esconder? — Porque não está cumprindo sua obrigação, é por isso! Eu confesso que não esperava isso de você, mas fato é fato, e o fato é que você não está cumprindo sua obrigação.

— Não entendi, não sei de obrigação nenhuma que eu não esteja cumprindo.

— Sua obrigação de descer o cacete nessa corja, é essa a obrigação que você não está cumprindo.

— Bem, eu não acho que tenho essa obrigação. Além disso, o sujeito cansa de dar murro em ponta de faca sozinho. A impressão que eu tenho, pela leitura de jornais, é que está todo mundo satisfeito, com uma exceçãozinha aqui ou ali.

— Está todo mundo o quê? Satisfeito? Satisfeito com quê, com o governo? Eu pergunto a você: qual é a grande realização desse governo, além de uma Legião Brasileira de Assistência turbinada, qual é? O que é que mudou? — Bem, assim de cabeça é difícil lembrar.

— Então eu ajudo, vamos lá. Mudou a educação? O ensino público está uma beleza, o povo está cada vez mais educado, os professores são bem pagos, fizeram uma grande reforma, não foi? — Eu sei que não é bem assim, mas...

— Mas nada, não tem “mas” nenhum nessa conversa, é tudo um horror mesmo e, quando acham um colégio melhorzinho, dá reportagem no “Fantástico”, é caso de comemoração.

E saúde, a saúde vai bem, não vai? Todo mundo atendido, não tem mais esse negócio de dormir na fila ou esperar meses por uma consulta, tem? — Você está sendo irônica, eu...

— Segurança, tem segurança? Onde é que você está seguro? Dentro de casa, não está seguro. Na rua, não está seguro. No ônibus, não está seguro.

No restaurante, não está seguro.

No hospital, não está seguro. Nem numa delegacia ou num quartel, porque vão lá e jogam uma bomba! Onde é que não assaltam e, se quiserem, torturam e matam, me conte, onde é? A polícia já aconselha a não sair com documentos, fazer o que o assaltante manda e assim por diante. Agora eu estou esperando que também aconselhem a gente a manter em casa um lanchinho para agradar os assaltantes.

Melhor ainda, um brunch, que é mais chique e mais moderno. Uns drinquezinhos, uns brioches, tudo para os assaltantes não se aborrecerem.

No futuro vão aparecer manuais e matérias de jornal com cardápios especiais para esse caso.

— Taí, você falou em futuro e me lembrou. Tem o pré-sal também.

— Tem, tem. Ninguém sabe direito se vai dar para extrair esse petróleo e, se der, como é que vai estar o petróleo daqui a dez ou quinze anos. O futuro não era o etanol, não eram as fontes de energia renováveis? Agora não é mais, é o petróleo mesmo, não é? Tão certo quanto as eleições que vêm aí.

— Você não está sendo um pouquinho pessimista, não? As próprias eleições são uma esperança.

— São, são. Esperança de que entrem ladrões novos, para substituir os velhos, isso é importante, é sempre interessante observar as gerações mais jovens se firmando. E os métodos de roubar com certeza vão mudar também, nada de saudosismo, vamos aos novos paradigmas da corrupção, o Brasil não pode ficar para trás.

— Olhe aí, você trouxe outra coisa à baila, o Brasil hoje é outro, no panorama internacional.

— É, eu sei, é o país dos barbudinhos exóticos, os gringos gostam muito, se divertem bastante. E ainda nos empurram os bagulhos deles.

— Que é isso, também não é assim.— Eu sei, é pior. Agora, com a embaixada brasileira em Honduras transformada em quartel-general da cucarachada, com essa cafajestada diplomática toda, está uma beleza, somos alvo do respeito universal, não é, não? E os gringos também acreditam nesse papo de que “não sei de nada”, “não ouvi nada” etc. e tal.

— É, já vi que você hoje está mesmo com toda a corda.

— Ao contrário de certos escritores que eu conheço. E já que, ao que parece, você também está achando tudo ótimo, pelo menos ponha na sua coluna um título que seja fiel à situação do Brasil de hoje.

Eu lhe ofereço um de graça. Que tal “de bem a pior”?

João Ubaldo Ribeiro

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