domingo, 18 de outubro de 2009

Desanimados, chilenos preferem técnico da seleção a candidatos à sucessão de Bachelet

O país da última ditadura que caiu na América do Sul é também o primeiro do continente onde mesmo um governo popular já não anima seus eleitores. Com economia pujante e estabilidade política, o Chile está a dois meses de sua votação presidencial, mas até agora os candidatos favoritos não gozam de empatia sequer comparável à da presidente Michelle Bachelet para sucedê-la a partir de março de 2010.

Ao contrário de outros anos, nas ruas da capital chilena não há propaganda política maciça, nem sequer nos comitês eleitorais dos principais candidatos. Os debates presidenciais atingem audiência medíocre. Os jovens evitam se registrar para votar em 11 de dezembro. Em um país onde se discute política com cuidado e fervor, só se fala na classificação da seleção local para a Copa do Mundo de 2010. E só.

O desinteresse pelos potenciais sucessores de Bachelet é tamanho que a única candidatura vista com bons olhos é a não-oficial do técnico da "Roja", o argentino Marcelo Bielsa. Os santiaguenhos gritam "Bielsa presidente" mais com tom de decepção do que de brincadeira. "Brigamos tanto pela democracia para agora ficarem com essa piada boba", diz uma senhora diante de uma banca de jornais em Bellavista, reduto boêmio e cultural da cidade onde vivia o poeta Pablo Neruda.

Ela preferia que Bachelet, cujo mandato termina em 11 de março de 2010, pudesse disputar as eleições. A popularidade da presidente já bateu em 74%, número comparável apenas aos do brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e aos do colombiano Álvaro Uribe - e muitos preferiam que a ex-combatente da ditadura pudesse voltar a se candidatar.

Chamada de "mãe do Chile" pelos aliados, a ex-guerrilheira Bachelet aparece em quase toda a mídia do país como uma liderança positiva. Mas seu candidato, o ex-presidente Eduardo Frei, não passa dos 30% das intenções de voto nas pesquisas.

Quando terminou sua passagem pelo Palácio La Moneda, entre 1994 e 2000, Frei contava com 28% de popularidade, em meio a crises financeiras internacionais e isso, dizem analistas locais, pesa para a falta de engajamento dos chilenos na sucessão.

Oposição lidera
A principal demonstração da falta de empatia de Frei com o eleitorado pós-Bachelet é que o desinteresse dos chilenos em se registrar para a votação. Esse movimento mantém na liderança das nas sondagens é o empresário conservador Sebastián Piñera, que beira os 40% no primeiro turno desta vez e que foi derrotado pela presidente, então ministra do governo de Ricardo Lagos, em 2005.

Apesar de o governo ser aprovado pela ampla maioria dos eleitores e de Bachelet fazer campanha por Frei, o bilionário Piñera, sócio da maior companhia aérea do país, a LAN, segue com grande chance de vencer. Nas pesquisas para um eventual segundo turno, Piñera e Frei aparecem empatados com 48% das intenções de voto, mas a falta de engajamento do eleitorado pode favorecer o oposicionista.

O jovem socialista independente Marco Enriquez-Ominami, tido como grande novidade das eleições, com 17%, e o comunista Jorge Arrate, com 5%, têm eleitores que poderiam apoiar Frei, mas a esquerda chilena desconfia do ex-presidente que defendeu o general Augusto Pinochet, ditador do país entre 1973 e 1991, da detenção em Londres em 1998.

"Estamos satisfeitos com a presidente, é o melhor governo do Chile em décadas. Mas os candidatos que aí estão não nos convencem. O candidato do governo já governou e não foi tão bem e os adversários dele não nos garantem que nada será diferente para melhor. Assim, as pessoas trocaram a dúvida pelo tanto faz. Eu não penso em votar", resume o taxista Nicanor Sarmiento, 54.

Concertación torta
Desde o fim da ditadura, Sarmiento vota nos candidatos da Concertación, grupo de centro-esquerda composto por quatro partidos e do qual Bachelet é a principal expoente. Mas enquanto a presidente está mais à esquerda, defendendo um governo com maior participação popular, o cristão Frei é ligado a setores mais centristas da política chilena.

Sua candidatura é controversa desde o início. No início do ano, o Partido Socialista, membro da Concertación, decidiu apoiar Frei, do Partido Democrata Cristão, depois de o ex-presidente Ricardo Lagos e o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, abrirem mão da candidatura presidencial.

A decisão gerou um conflito com o deputado Ominami, que decidiu ser candidato independente. Para Silvana Lauzan, diretora do programa de democracia e direitos humanos da Universidade do Chile, o esquerdista é a grande novidade da eleição presidencial, mas por ter poucas chances reais de vencer os chilenos se interessam menos pela votação.

"Há um desencanto com o sistema de representação proporcional e ainda que Ominami tenha dado declarações fortes e tenha aberto novas possibilidades de discussão que não estavam na agenda, os dois principais candidatos inspiram pouco os jovens, que poderiam dar mais dinâmica às eleições. Para votar no Chile é necessário estar inscrito e as taxas de inscrição dos mais jovens são baixas", afirmou.

A professora avalia que se Frei parece mais do mesmo e não deslancha nas pesquisas apesar de ser o candidato - sem muito entusiasmo, é verdade - de Bachelet, o opositor Piñera "não reflete espírito daqueles que querem mudança de poder no país" e não consegue se aproveitar do desgaste dos longos anos de governança da Concertación.

Ao que tudo indica, mudança de verdade no La Moneda só virá se o Chile permitir ao argentino Bielsa que se candidate a presidente.

Maurício Savarese

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