segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Honduras e algumas verdades que a "imprensa" brasileira não mostra


Eu não vou desistir de fazer um trabalho simples: dar de ombros para a gritaria e a distorção e procurar o que dizem os fatos. O presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, revogou o estado de emergência que vigorava no país, restabelecendo plenamente os direitos civis. Pois bem: isso está na imprensa brasileira. Mas também está que ele admitiu a volta de Manuel Zelaya ao poder. Mais ou menos.

Também circula nos blogs da canalhada que ele teria admitido, numa entrevista à TV, que 90% dos hondurenhos querem a volta do Chapelão. Falso. O que ele disse foi que “90% de la población no quiere su retorno”. “No” quer dizer “NÃO”!!! Tratou da possibilidade da própria renúncia:
“Desde que não haja distúrbios de nunhuma natureza, eu vou para a minha casa, ele (Zelaya), não sei para onde vai porque tem problemas judiciais… Sem nenhuma intervenção nossa que esteja fora da lei”.

Não parece que isso seja admissão de volta. Mas, com efeito, há outro trecho sobre o assunto:

“Pero hay que hablar de los diferentes temas en el sentido que se busca garantizar las elecciones y que sean transparentes, masivas, una fiesta cívica. De allí para allá se puede hablar de cualquier escenario con un presidente electo, antes es muy difícil pensar (…) Creemos que hay una razón para sentarse a dialogar, que es la patria primero; la restitución es una aspiración del señor Zelaya que habría que escucharla ya con mejores planteamientos, con planteamientos legales”.

A única eventual dificuldade de entendimento aí é a palavra “planteamiento”: “exposição, enfoque, apresentação”. Em suma, Micheletti está dizendo que a decisão não é sua, mas da Corte Suprema, aquela mesma que considerou que Zelaya desrespeitou as leis e a Constituição.

Mas atenção!
A situação do país é das mais difíceis. O cerco covarde que se armou é impressionante. E creio, desde que o Plano Arias existe (basta procurar no arquivo), que a solução vai acabar passando por ele — tratei do assunto em artigo na VEJA desta semana. A tendência é que Zelaya seja “restituído”, mas tendo de dividir poderes com uma comissão formada pelos outros poderes, sem insistir no tal plebiscito. E isso é uma derrota para Chávez e para os bolivarianos. Como escreveu Clóvis Rossi, “os golpistas venceram”. Isso quer dizer, então, que os democratas venceram.


Reinaldo Azevedo

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