quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Honduras e a farsa da imprensa brasileira!


Setores da imprensa que cobrem a crise de Honduras se especializaram em anunciar recuos. Talvez isso não fosse necessário se não anunciassem os “avanços” — ou o que consideram “avanços” — que não houve. Anteontem, estava em todos os jornais: “Micheletti já admite a volta de Zelaya”. Fui ler a entrevista e disse aqui que não era bem aquilo. O presidente interino declarou que tudo poderia ser discutido, mas deixou claro que não abriria mão das eleições na data marcada — e insistiu ontem neste particular. Portanto, trata-se de reiteração, não de recuo.

Quem leu, viu e ouviu a imprensa nativa - a nossa, não a de Honduras - ficou com a impressão de que o Bandoleiro do Chapéu já estava com um pé no palácio presidencial. Aí só resta dar um truque do leitor, no ouvinte e no telespectador e afirmar que Micheletti recuou. Não pode ter recuado do “avanço” que nunca houve. Já havia afirmado que renunciava ao cargo, mas que Zelaya deveria desistir da intenção de retornar ao governo.

Micheletti, para “o mundo”, como gostam de marcar os propagandistas voluntários e involuntários do bolivarianismo, é um “golpista”. E nada do que disser, obviamente, merece respeito. Imaginem a caricatura que não estaria sendo feita a esta altura se o presidente interino tivesse denunciado um complô judaico para envenená-lo com gás e para interferir em sua mente com ondas de alta freqüência. Diriam dele o óbvio: é louco. Tentariam colocá-lo num hospício, mas querem Zelaya na Presidência. Vocês devem ter visto a foto em que ele fala com representantes da OEA. No centro da mesa, o chapelão, o símbolo de sua luta. Atrás, janelas vedadas com alumínio para evitar as tais ondas malignas. Este cara precisa de remédio, mas querem lhe dar um governo.

O mais provável - e sempre achei isso, basta ver o arquivo - que Zelaya acabará sendo restituído mais ou menos nos marcos do Plano Arias, o que será, se assim for, uma derrota para Chávez e para neogolpismo latino-americano - aquele exercido pelas urnas. A razão é simples: teria de dividir o poder e abrir mão de sua consulta. E as coisas só não chegaram ontem mais perto desse desfecho porque, DE NOVO!, à diferença do que diz a imprensa bolivarianizada, é Zelaya quem está, mais uma vez, criando embaraços.

Nestes dois dias, apostando no retorno iminente, o Chapelão resolveu botar o bigode de fora. Em entrevista à Folha, deixou claro que considera a sua volta apenas uma etapa de sua “revolução”. Vale dizer: está enganando todo mundo. Em seguida, no curso da negociação do governo interino com a OEA, conclamou a entidade a não acreditar em Micheletti. Ora, como desacreditar de saída aquele com quem tem de negociar? Ocorre que a ordem vem de fora. Chávez dá como certa a reinstalação do companheeiro na Presidência e tenta, agora, eliminar as condicionantes.

Zelaya já dá ultimatos: ou volta até o dia 15, ou considera que as eleições têm de ser adiadas. Está encruando o debate. Vocês se lembram que os dois “migué” dessa história - José Miguel Insulza, da OEA, e Miguel D’Escoto, o sandinista que está presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas - já haviam lançado a tese de que o deposto deveria retornar e esticar o mandato para compensar os dias do “golpe”.

O divórcio de setores da imprensa com os fatos é evidente. Leio coisas coisas como: “O governo alega que Zelaya tentou fazer uma consulta popular declarada ilegal pela Justiça”. Ora, isso não é uma mera alegação, que pode, eventualmente, ser contestada: é um fato! Ele tentou mesmo! Há uma entrevista sua à Telesur, e emissora de Chávez, em que afirma que vai prosseguir com a ação ilegal porque a Justiça hondurenha está coalhada de “reacionários”. Ele aprendeu com seu amigo venezuelano que um governante não deve seguir as leis das quais discorda. Não só isso: deve impor as leis com as quais concorda.


Reinaldo Azevedo

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