sexta-feira, 9 de outubro de 2009

''Lula está muito vinculado a Chávez''


Entrevista - Marta Lorena Alvarado de Casco: Vice-chanceler do governo de facto de Honduras; para alta funcionária da chancelaria, Brasil viola direito internacional ao manter indefinido o status de Zelaya na embaixada



O governo de facto de Honduras tem poupado o Brasil de críticas, apesar do enfático apoio do País ao presidente deposto Manuel Zelaya. Pela primeira vez, um alto membro do governo de Roberto Micheletti critica abertamente o Brasil. "Lula está muito comprometido com Chávez", diz a vice-chanceler Marta Lorena Alvarado de Casco, referindo-se aos presidentes do Brasil e da Venezuela. "É muito triste. Não tinha por que Lula fazer isso", disse ao Estado.

Por que o partido de Zelaya se voltou contra ele?

É muito difícil que um partido tome uma decisão dessa envergadura contra algum de seus membros. Havia tanto desconcerto com a atitude de Zelaya frente à lei, à população, ao dinheiro do país. Ele deveria ter enviado a lei de orçamento em setembro do ano passado e nunca mandou.

Mas o que mudou desde que ele foi candidato do partido, em 2005?

Em 30 anos de carreira política, Zelaya era um liberal normal. Uma vez no poder, aderiu à Alba (Aliança Bolivariana das Américas) e desde então assumiu uma linguagem e uma atitude desafiante à lei, ao partido e ao nosso candidato. Ele queria ser o único homem de Honduras, tem complexo de Messias. Foi marginalizando todos os líderes do Partido Liberal, um por um. Nomeava para um ministério e em seis meses o tirava. Foi decapitando todas as peças importantes do partido e foi capitalizando o poder. Quando já tinha o dinheiro e todo o resto sob controle, decidiu fazer a consulta, que era uma convocatória. Em 28 de junho estava-se celebrando a instalação de uma Assembleia Nacional Constituinte depois do referendo (de 29 de novembro). Foram dormir pensando que celebrariam uma nova conquista socialista e despertaram para um fracasso.

Sua destituição não foi um golpe?

O Congresso escolheu o presidente que correspondia. Só o partido comunista (Unificação Democrática) apoiou Zelaya, e alguns deputados.

A maneira como tiraram Zelaya foi correta?

Esse é o fio de cabelo na sopa - a forma foi feia.

E quem decidiu?

Não sei, porque eu não estava lá. Acho que no momento certo se deveria fazer uma investigação.

Foram os militares, não?

Eles apertaram. Eu não vou dizer nada.Tudo o que aconteceu antes foi horrível para Honduras. E o que viria seria, também, porque era um novo regime estilo Chávez. Não gostamos de Chávez: malcriado, prepotente, autoritário, não respeita os outros países, insultou os hondurenhos (chamando-os de "ianquezinhos"). Chávez domina Zelaya.

Mas ele escolheu a embaixada do Brasil...

Ele disse claramente que consultou Lula e o chanceler (Celso Amorim). Eles negam. Não creio que um presidente procurado pela Justiça vá chegar batendo numa porta sem saber se lhe vão abrir ou não. O Brasil protegeu Zelaya, deu acolhida carinhosa a 300 amigos dele. Da sacada da embaixada, ele começou sua campanha por "Restituição, pátria ou morte". O Brasil infelizmente emprestou seu território para favorecer esse homem. Não respeitou as Convenções de Viena, não declarou asilo político. Está na qualidade de "hóspede", um termo que não existe no direito diplomático. Estamos frente a uma situação de tolerância. Tenho certeza de que, se tivesse acontecido no Brasil, não teria sido tolerado. Estaria "fora", como se diz no Brasil, em 24 horas.

O que vai acontecer agora?

O único propósito desse governo é blindar o processo democrático, que começou em novembro do ano passado, com as primárias (dos partidos), avalizadas pela OEA, das quais emergiram os candidatos. O atual governo não tem nada a ver com nenhuma manipulação de candidatos improvisados ou dirigidos. A única coisa que queremos é que nos deixem em paz, que haja eleições livres, com participação de todos os hondurenhos que amam nosso país, e continuar com nosso destino. Se a comunidade internacional quiser nos ajudar, é bem-vinda. Se não, que não nos atrapalhe.

Para as relações com o Brasil, vai ter consequências?

Depende de Lula. Nós amamos o Brasil, não há problema. Mas Lula está muito comprometido com Chávez. É triste. Não tinha por que Lula fazer isso.


Estadão

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