quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Minc afirma que meta de Dilma é ''improbabilíssima''


A briga no governo sobre as metas brasileiras para a Conferência do Clima, em Copenhague, está cada vez mais pública. Ontem, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, questionou os cenários de crescimento médio de 5% e 6% para os próximos dez anos defendidos pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para o cálculo das metas de redução de emissão de CO2 que serão apresentadas pelo governo brasileiro.


"Números improbabilíssimos" e "altamente improváveis" foram as classificações dadas por Minc aos cenários pedidos pela ministra Dilma, que é a pré-candidata do governo à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2010.

Há uma semana, em reunião entre ministros e o presidente Lula, Minc apresentou um estudo do MMA e do Ministério da Ciência e Tecnologia que previa redução de 40% na projeção das emissões que o Brasil teria em 2020, caso nada fosse feito. Seria essa a "meta ambiciosa" que o governo levaria para Copenhague como forma de pressionar os países desenvolvidos a melhorarem suas propostas. O estudo, no entanto, leva em conta um cenário de crescimento médio de 4% ao ano nos próximos dez anos. Dilma achou pouco e exigiu análises com crescimento de 5% e 6% ao ano.

Esse é mais um round de uma disputa recorrente entre o Meio Ambiente e a Casa Civil, iniciada ainda com a ministra Marina Silva (2003-2008).

Os embates com Dilma foram a principal causa da demissão de Marina, que defendia maior rigor na emissão das licenças ambientais, enquanto Dilma - no papel de ministra desenvolvimentista e tocadora de obras - reclamava que as demoras atrasavam o crescimento do País. Agora, Planalto e Casa Civil têm Marina na oposição e Minc no papel da ex-ministra.

"A ministra Dilma nos pediu que fizéssemos cenários com crescimento de 5% e 6% ao ano e estamos trabalhando nisso", disse Minc, para, em seguida, completar: "Nunca antes o Brasil cresceu 4% ao ano por dez anos seguidos. É uma hipótese já otimista dada pelos ministérios da Fazenda, do Planejamento e de Minas e Energia. Não fomos nós que criamos esse número."

Ainda assim, disse o ministro, uma equipe de técnicos do MMA, do MCT e da Embrapa está trabalhando nessas propostas. "Com 5% ao ano de crescimento, aumentaríamos mais 280 milhões de toneladas de emissões ao ano e alcançaríamos 3 bilhões de toneladas de CO2. Já é um número improbabilíssimo (os 5% de crescimento médio). Com 6%, daria mais 440 milhões de toneladas por ano. É muitíssimo improvável. Para o País crescer 6% ao ano de média, se um ano que crescer 2%, no outro tem que crescer 10%", disse o ministro Minc.

A análise da Casa Civil é que o Brasil não pode restringir seu crescimento a 4% por conta da redução projeção das emissões de gás carbônico para 2020. A proposta do MMA é que, além da esperada queda que já acontecerá com a diminuição em 80% do desmatamento na Amazônia, que representaria uma curva de crescimento 20% menor, outros 20% podem ser retirados de ações com a indústria, a agropecuária, o transporte e o uso de energia - áreas que a parte desenvolvimentista do governo prefere não mexer. Ontem, a Casa Civil não se manifestou.

Minc garante que já tem um planejamento para alcançar a redução na curva de emissões com o cenário de 4% e, com um pouco mais de esforço, com o cenário "improbabilíssimo" de 5% ao ano. "Com um esforço adicional, com mais biodiesel, mais etanol, pode se chegar à redução de 40% com 5% de crescimento. Com o cenário de 6% não conseguimos ainda. Alcançamos apenas 37%." Ainda assim, o ministro mantém a ideia de que o Brasil levará para Copenhague a meta de 40%. Perguntado, disse ao Estado que Lula havia gostado da ideia, mas pedira que provassem a ele que era possível a redução sem comprometer o crescimento. "Estamos fazendo isso."



ENTENDA

Em meados deste mês, em reunião entre titulares das pastas relacionadas à questão climática e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, anunciou um
projeto prevendo a redução de 80% do desmatamento da Amazônia até 2020 e o congelamento nas emissões de gás carbônico (CO2) nos padrões de 2005, para ser apresentado na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que está marcada para dezembro, em Copenhague, capital da Dinamarca

Entretanto, o projeto de Minc prevê um crescimento econômico de 4% ao ano, considerado insatisfatório pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que encomendou projeções para crescimentos de 5% e 6%. Nesses novos panoramas desejados pela ministra, as metas podem ficar inalteradas, mas as propostas para emissão de CO2 têm de ser recalculadas para patamares menos ambiciosos e poderiam colocar em jogo a pretensão do País de se tornar uma liderança internacional na questão climática.

Estadão

Nenhum comentário: