domingo, 11 de outubro de 2009

O prêmio preventivo

A justificativa do comitê
Obama foi escolhido por "dar ao mundo a esperança de um futuro melhor". Matar o terrorista Osama bin Laden e eliminar a Al Qaeda daria ao mundo um futuro melhor. Isso contou na escolha?

Barack Obama é o terceiro presidente americano a
ganhar o Nobel da Paz durante o mandato. A diferença
é que, desta vez, ele não foi homenageado pelo que fez,
mas pelo que se quer impedir que ele venha a fazer


Seu nome não aparecia na lista dos favoritos. Robert Gibbs, porta-voz da Casa Branca, reagiu com um "uau!" quando soube por um jornalista que Barack Obama havia sido o ganhador do Nobel da Paz de 2009. Ele é o terceiro presidente americano a levar o prêmio enquanto dá expediente na Casa Branca. O primeiro foi Theodore Roosevelt, em 1906, pelo desempenho como mediador da paz entre russos e japoneses, que estavam em guerra pelo controle de territórios no Extremo Oriente. Woodrow Wilson conquistou o prêmio em 1919 por ter sido o inspirador da criação da Liga das Nações, a organização precursora da ONU. A diferença é que, desta vez, o presidente americano não foi lembrado por ações efetivas em favor da paz. Obama foi escolhido por ser Obama – e talvez na vã esperança de que ele continue sendo Obama mesmo quando o telefone tocar às 3 da madrugada com alguma notícia que o obrigue a fazer chover Tomahawks na cabeça de um inimigo qualquer. Pela natureza eminentemente política do prêmio, seu ganhador é escolhido por uma comissão formada por cinco membros do Parlamento da Noruega. A escolha reflete a hegemonia política de momento na casa legislativa norueguesa. Obama foi escolhido como uma manifestação tardia mas simbólica de condenação a George W. Bush, seu antecessor.

O ex-primeiro-ministro norueguês Thorbjorn Jagland, um dos responsáveis pela premiação, diz que a homenagem serviu "não apenas para endossar como para realçar o tipo de política internacional e a atitude defendidos por Obama". Que política? Que atitude? Fora o descomunal carisma, a voz agradável, os discursos elegantes e o sorriso permanente, Obama nada fez nesses seus nove meses de governo para merecer o prêmio. Não mediou com sucesso uma guerra, não aplacou a fome de legiões de famintos, não destronou ditadores sanguinários, não arbitrou conflitos potencialmente desastrosos. Falar em um mundo sem armas atômicas ou aliviar uma tensão sem consequências com a Rússia, cancelando a instalação de mísseis na Polônia, não lhe dá assim o perfil de um Mahatma Gandhi – que, aliás, apesar das inúmeras indicações, nunca ganhou o Nobel da Paz. Também não parece muito mais do que propaganda a linha de conduta de tentar esgotar os recursos diplomáticos com o Irã ou a Coreia do Norte, países que buscam obcecadamente a construção de um arsenal nuclear agressivo disfarçado de "uso pacífico da energia atômica". A retirada das tropas americanas do Iraque, que parece inevitável, deve intensificar a matança entre as facções fratricidas locais. Aumentar a sangria no Iraque também não se qualifica como um gesto pacífico.

Não é a primeira vez, entretanto, que o Nobel é concedido antecipadamente, recompensando mais a intenção do que os atos. Em 1971, Willy Brandt, primeiro-ministro da Alemanha Ocidental, ganhou o prêmio pelo seu esforço para normalizar as relações de seu país com o bloco soviético, incluindo a Alemanha Oriental. A intenção só se concretizou um ano depois, com a assinatura do Tratado Básico, em que pela primeira vez as duas Alemanhas estabeleciam relações formais. Em 1994, o palestino Yasser Arafat e os israelenses Yitzhak Rabin e Shimon Peres receberam o prêmio pelas negociações de paz – que até hoje estão paralisadas. O mais adequado talvez fosse ter dado a Obama o "Nãobel da Paz", um prêmio pela inação.

Legados - Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson, presidentes laureados com o Nobel: o primeiro mediou o fim de uma guerra; o outro criou a Liga das Nações



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