terça-feira, 13 de outubro de 2009

OPÇÕES AO MST

EDITORIAL
O GLOBO
12/10/2009

Citada em incontáveis programas partidários, de viés esquerdista ou direitista, promessa de todos os governos, inclusive no regime militar de 1964, a reforma agrária talvez seja a mais mitológica das bandeiras políticas da história brasileira.

Colônia e sede do império português, o Brasil entrou na República com a herança da concentração fundiária assentada no passado dos donatários amigos do rei, brindados por imensidões de terras a serem exploradas em sociedade com a Coroa e na base de mão de obra escrava.

A luta pela reforma agrária ganhou fôlego com a ociosidade de terras mantidas como reserva de valor pelas últimas gerações de uma aristocracia rural decadente. Isso serviu de combustível para as ligas camponesas de Julião no Nordeste dos anos 60, perpassou os 21 anos da ditadura militar, e emergiu, na redemocratização, na forma do MST, em que se aliaram frações da esquerda radical e seguidores da Teologia da Libertação.

Foi um longo ciclo em que o discurso da reforma agrária se descolou da realidade: modernizada e convertida em um setor dinâmico de uma economia que jamais esteve tão aberta ao exterior, a agricultura capitalista absorveu o "latifúndio improdutivo" e, impulsionada por uma competente estrutura de pesquisa científica, empurrou a fronteira de produção até a Amazônia. A outrora lavoura arcaica passou a responder por um terço das trocas mundiais de alimentos. Rivaliza ombro a ombro com os EUA no mercado de grãos e passou a líder nas exportações de carnes.

A rigor, o homem expulso do campo para quem a reforma agrária seria feita hoje não existe mais. Muitas famílias foram assentadas em todos estes anos. Sem assistência rural, várias passam à frente o lote, se transformam em assalariados da grande empresa agrícola e/ou, a depender da região em que se encontram, buscam renda no desmatamento. Devastada a área, migram. Restou ao MST ser a ponta de lança de um projeto radical e sem futuro, em que se autocriminaliza: dividir terras produtivas, investindo contra o estado de direito.

Sequer há hoje no campo gente para servir de massa de manobra, apenas o lumpesinato da periferia de cidades do interior. A organização deveria se transformar em partido político legalizado. Pois o caminho alternativo é sem saída - haja vista o destino das Farc colombianas.

Nenhum comentário: