domingo, 11 de outubro de 2009

Os 400 mais ricos dos EUA


A lista de nomes é parecidíssima, mas as fortunas... Bill Gates, o fundador da Microsoft, e o lendário investidor Warren Buffett continuam os homens mais ricos dos Estados Unidos – ainda que nos últimos doze meses o patrimônio de Gates tenha encolhido 7 bilhões de dólares e o de Buffett, 10 bilhões de dólares. O ranking dos 400 mais ricos, publicado na semana passada pela revista Forbes, mostra que 314 deles – oito em cada dez – ficaram mais pobres nos últimos doze meses. Como boa parte do patrimônio estimado desses super-ricos se refere ao valor de suas ações, seu encolhimento é, sobretudo, contábil, com pequeno impacto sobre o estilo de vida. Afinal, a fortuna mínima para entrar na lista da Forbes é de 950 milhões de dólares. Bill Gates continua morando em sua mansão de oito quartos e 25 banheiros à beira do Lago Washington, perto de Seattle, cujo valor é estimado em 150 milhões de dólares. A Microsoft, que nasceu como uma pequena firma de garagem, ainda é o gigante dos programas de computador. Buffett, mais modesto que Gates, vive na mesma casa há cinquenta anos, comprada por 31 500 dólares. Mas ele não foi forçado a abrir mão de viajar a bordo de seu luxuoso jato particular, um Gulfstream IV. Ambos mantiveram a decisão de distribuir sua fortuna a causas sociais. A Fundação Bill & Melinda Gates é a maior organização filantrópica do planeta, financiando escolas públicas e pesquisas para a cura de doenças como a aids e a malária. Buffett vai doar em vida 85% de seus bens. Larry Ellison, fundador da Oracle e o terceiro homem mais rico dos Estados Unidos, ainda passeia pelas marolinhas (é um dos poucos que não perderam nada com a crise) em seu megaiate de 138 metros de comprimento, com adega, piscina e até quadra de basquete.

Ao todo, as perdas dos 400 bilionários americanos somam 300 bilhões de dólares, quase o PIB da Argentina. Ocorre que muitos ricaços construíram sua fortuna a partir do mercado financeiro e do mercado imobiliário – os epicentros da crise atual. Sanford Weill, ex-CEO do Citigroup e símbolo do desvario que pairou sobre Wall Street, perdeu mais da metade de seu patrimônio (1,6 bilhão de dólares em 2007) e foi riscado da lista. "Sandy", como é conhecido, criou a seguradora Travelers Group, cuja fusão com o Citicorp em 1998 resultou na maior instituição financeira do mundo, o Citigroup. Mesmo fora do ranking da Forbes, Sandy está longe de passar necessidades: ele conserva sua mansão em Greenwich, Connecticut, reduto de milionários, e mantém o hábito de almoçar no Four Seasons de Nova York, um dos hotéis mais caros da cidade. Entre os pouquíssimos ricaços que ganharam dinheiro com a crise, destaca-se Andrew Beal, banqueiro texano e jogador de pôquer nas horas vagas. Comprando bens desvalorizados e ações baratas no momento em que a bolsa pareceu atingir o fundo do poço, Beal conseguiu triplicar seu patrimônio para 4,5 bilhões de dólares.

A Justiça americana também tirou alguns bilionários da lista. Omid Kordestani, ex-vice-presidente do Google e responsável pela fórmula que permitiu ao site ganhar dinheiro, apaixonou-se por uma colega de trabalho e perdeu boa parte do patrimônio (estimado em 2,2 bilhões de dólares) no processo de divórcio com a iraniana Bita Daryabari. Já Robert Allen Stanford saiu da lista para a cadeia. Stanford começou a vida com uma cadeia de academias de ginástica no Texas, passou para o mercado imobiliário e terminou montando uma pirâmide financeira de 8 bilhões de dólares com sede em paraísos fiscais no Caribe. O golpe foi desbaratado em fevereiro e seus bens pessoais, estimados em 2,2 bilhões de dólares, foram congelados pela Justiça. O próximo a ir para a cadeia pode ser o advogado e filantropo nova-iorquino Jeffry Picower. Novato no ranking, ele é acusado de participar do esquema fraudulento de Bernard Madoff, que sumiu com 65 bilhões de dólares. Picower era um dos poucos clientes de Madoff a conseguir retornos exorbitantes para seus investimentos. Ele despertou suspeitas por ter resgatado 1 bilhão de dólares pouco antes da confissão de Madoff, mas diz que se trata de mera coincidência.

A lista internacional da Forbes, publicada em março, segue outro critério: só entram no ranking as pessoas com patrimônio superior a 1 bilhão de dólares. Mesmo assim, o panorama é similar: com a crise, a lista encolheu de 1 125 nomes no ano passado para os atuais 793. Nenhum país foi tão afetado quanto a Rússia, que perdeu 55 representantes. Como resultado, Nova York retomou o posto de cidade com a maior concentração de bilionários. Oleg Deripaska, um dos oligarcas que fizeram fortuna com as privatizações durante a Presidência de Boris Ieltsin, viu seu patrimônio encolher de 28 bilhões para meros 3,5 bilhões de dólares. O Brasil, que havia emplacado dezoito bilionários no ranking de 2008, agora tem treze. Com 7,5 bilhões de dólares, o empresário Eike Batista é o mais rico do país. É um dos 44 casos de aumento do patrimônio em plena crise.

Nunca o mundo ganhou tantos milionários quanto nos últimos quarenta anos. A receita para o aumento exponencial do clube dos endinheirados em escala global começou na década de 70, quando os países passaram a adotar as taxas de câmbio flutuantes, os sindicatos começaram a perder seu poder de barganha e o mercado de capitais foi liberalizado. Desde então, a acumulação de riquezas foi estratosférica. Em 1982, quando a revista Forbes elaborou a primeira lista dos 400 cidadãos mais ricos dos Estados Unidos, o grupo todo somava 92 bilhões de dólares. Em 2008, a riqueza somada do ranking chegou a 1,6 trilhão de dólares. A maior parte desse dinheiro foi acumulada no espaço de uma geração: as heranças respondiam por 21% dos patrimônios em 1982, e apenas por 2% atualmente. Warren Buffett começou a trabalhar com 11 anos de idade na corretora dos tios. Conseguiu o primeiro milhão aos 32, e o primeiro bilhão, aos 55. Bill Gates abandonou os estudos de matemática em Harvard para fundar a Microsoft em 1975. Ficou bilionário com o Windows, o sistema operacional mais popular do planeta. Nesse universo de super-ricos, o sumiço de 300 bilhões de dólares não chega a ser uma crise assim tão grave.

A cara mais feia da crise



Nunca ninguém roubou tanto dinheiro de tantos em tão pouco tempo como fez Bernie Madoff. Um dia, que pode chegar daqui a dois, três ou até cinco anos, os efeitos destrutivos da crise econômica mundial terão sido superados pela retomada da economia dos países. Os crimes de Madoff jamais serão esquecidos ou perdoados. Aos 71 anos, condenado por diversas fraudes financeiras a 150 anos, ele morrerá na prisão. Madoff roubou de parentes, Madoff roubou de amigos de infância. Madoff roubou de bilionários, roubou de milionários e de viúvas. Roubou de sinagogas e de obras de caridade. O judeu Madoff roubou todas as economias pessoais de Elie Wiesel, judeu-símbolo do sofrimento desse povo no século passado. Ele pelou Wiesel, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz que, aos 80 anos, depois de denunciar o holocausto nazista nos sete cantos do mundo, planejava uma beatífica aposentadoria. Madoff roubou também todos os recursos da Fundação para a Humanidade, criada e dirigida por Wiesel. A suas vítimas ele disse um inaudível "I’m sorry" ao sair do tribunal em Nova York.

Wiesel, o Nobel da Paz, afirmou que jamais o perdoaria. Ele colocou irmão contra irmão. Em São Paulo, um banqueiro que captou investimentos para o que viria a ser a arapuca de Madoff foi vaiado na própria sinagoga que ele mandou construir na cidade. O banqueiro ressarciu com recursos próprios todos os que ele levou a perder dinheiro no esquema de Madoff. Enquanto o malfeitor pensa na cadeia sobre o prejuízo de 65 bilhões de dólares que ele deu a quase 5 000 pessoas e instituições, começam a surgir os primeiros livros que tentam explicar:

1) como essa fraude pôde acontecer;

2) por que ninguém desconfiou antes;

3) como Madoff enganou seus investidores, entre alguns dos cérebros financeiros mais refinados do nosso tempo; e, claro,

4) afinal, quem é e como se formou (ou se deformou) essa figura chamada Bernard Madoff, que viria a se transformar no maior fraudador financeiro de todos os tempos, o homem que fez sumir 65 bilhões de dólares em menos de uma semana.

Até agora não surgiu livro melhor do que Madoff with the Money, de Jerry Oppenheimer, ainda sem tradução para o português. A começar pelo título, um intraduzível trocadilho que significa "Fugiu com o Dinheiro", o livro tem a crueldade necessária quando o objetivo é dissecar as vísceras de um monstro. Oppenheimer informa que:

Madoff aprendeu a enganar parentes e amigos em casa, com os próprios pais, quando ainda era um garoto de 10 anos de idade. O pai fingia ser bombeiro hidráulico, mas nunca ninguém o viu consertar um vazamento. O pai e a mãe mentiram para os vizinhos sobre sua origem, sobrenomes e profissão. Eles eram apostadores com dinheiro dos outros – de cavalos a penny stocks, ações de pequenas empresas sem fiscalização, cujo valor podia chegar a, no máximo, 5 dólares.

Toda a sua vida de investidor foi feita de fraudes disfarçadas de investimentos seguros que exigiam, para funcionar, a entrada constante de dinheiro novo.

Ele garantia lucros anuais aos investidores entre 8% e 10%, remuneração que era boa demais para ser desprezada, mas conservadora o bastante para não levantar suspeitas.

Até cair o rancho, ele nunca dera prejuízo a ninguém, pagava os melhores salários e distribuía os bônus mais fabulosos aos empregados.

Nunca será esquecido ou perdoado.


veja.com

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