sexta-feira, 2 de outubro de 2009

PARTICIPAÇÃO CRUCIAL NUMA ´ENRASCADA´

EDITORIAL
JORNAL DO BRASIL
2/10/2009

Virou lugar-comum denominar a crise política de Honduras como uma “enrascada” na qual o Brasil se encalacrou. Ao abrigar o presidente deposto Manuel Zelaya em sua embaixada, o Brasil foi jogado para o olho do furacão de uma confusão que não lhe diria respeito. O Itamaraty teria, a rigor, se intrometido numa briga pelo poder em um inexpressivo país – curiosamente o que inspirou o termo República de Bananas – onde dois caudilhos medem força. Não há certeza, passados 11 dias, se a diplomacia brasileira teve papel atuante na volta de Zelaya para Honduras ou se foi pega de surpresa, num joguete diabólico orquestrado por Hugo Chávez.
Mesmo assim, o episódio, delicado por seu ineditismo, tem oferecido fartas oportunidades a um discurso que atira críticas essencialmente de duas estirpes: ou o governo brasileiro e o Itamaraty agiram de modo ingênuo, incompetente, ou a condução da política externa do Estado foi ideologicamente capturada por um viés esquerdista da pior espécie, o bolivarianismo que estaria se espalhando da Venezuela e Bolívia para tomar todo o continente.
Ora, não se trata nem de um nem de outro suposto equívoco. Há situações em que simplesmente restam poucas opções. Uma vez que Zelaya chegasse à embaixada brasileira, negar-lhe o abrigo seria contraditório, já que o Brasil (bem como toda a comunidade internacional) foi contra a sua deposição, taxando enfaticamente sua expulsão do poder como um golpe. Aliás, é curioso notar como a grita de gralhas logo após o primeiro dia se transformou no previsível barulho de cigarras tão logo a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, veio a público referendar a atitude do Brasil.
É claro que o episódio requer cuidados e tomou proporções perigosas. O governo golpista de Micheletti – ou interino, “de fato”, para usar expressões mais eufemistas – fechou rádio e TV de oposição, impôs toques de recolher diários, revogou as liberdades constitucionais e mandou suas tropas para as ruas. A truculência, porém, vai surtindo efeito contrário, e Micheletti já perde apoio interno – de empresários e até dos poderes que o sustentaram: Congresso, Supremo e Forças Armadas. A saída negociada, com sua renúncia, é uma possibilidade iminente. O exato arranjo institucional que será desenhado é uma incógnita.
Mas caso isso ocorra, a participação do Brasil no episódio terá sido crucial. Não por incompetência, ingenuidade ou captura ideológica que, “por sorte”, não resultaram em pior desfecho. Mas porque era, democraticamente, o correto a ser feito. Aconteça o que acontecer.
Obviamente, dilemas deste tipo não podem e não são tratados com voluntarismo na política internacional. Envolvem contextos geopolíticos. A linha de atuação do Brasil, de certo, tem mudado. Mas não no sentido ideológico, como imaginam alguns, e sim no estratégico. A diplomacia está acompanhando o novo papel que o Brasil vem exercendo no mundo, com seu peso econômico e político, não mais restrito a uma função de simples apaziguador de conflitos de vizinhança. Há uma oportunidade de inserção no cenário globalizado. Vide o pleito do país, já apoiado pela França, de ter assento no Conselho de Segurança da ONU. O Brasil quer ter voz efetiva. Mas isso tem um preço. O imbróglio em Honduras é o início deste aprendizado.

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