sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Prêmio Nobel da Paz, mas com 2 Guerras nas costas.


O redator dos discursos de Barack Obama precisará ser rápido desta vez. Como ninguém esperava que o presidente recebesse o Nobel da Paz, as palavras que entrarão para a história precisarão ser escolhidas com rapidez. Especialmente, para falar em paz quando o chefe da Casa Branca pode decidir enviar mais 40 mil jovens americanos para lutar no Afeganistão ao lado de outros 68 mil, já baseados no território afegão. Sem falar de mais de cem mil no Iraque. Centenas ou milhares deles morrerão. Em resumo, Obama recebeu o prêmio com duas guerras e nenhum acordo de paz.

Na do Iraque, tudo bem, o presidente a herdou o conflito e tenta organizar a retirada, também já iniciada pelo seu antecessor. Mas o cenário é completamente diferente no Afeganistão. Obama a intensificou as operações de George W. Bush. E pode ampliá-las ainda mais se acatar o pedido de aumento de tropas feito pelo comandante das forças americanas no território afegão, Stanley McChrystal.

Tem ainda o Irã. Verdade, neste caso, os americanos buscaram uma aproximação diplomática, participando de negociações com autoridades iranianas em Genebra. Mas os resultados ainda não são definitivos e um conflito envolvendo Israel e os iranianos não está descartado. Sem falar que o regime de Teerã pode, em breve, conseguir a sua bomba nuclear, aumentando a instabilidade no golfo Pérsico.

Falando nos israelenses, Obama pode ter se esforçado, mas não avançou um centímetro no diálogo para a resolução no conflito no Oriente Médio. O presidente pressiona Israel para que congele a expansão dos assentamentos e clama os palestinos a cessar o incitamento contra os israelenses. O problema é que Israel ainda ergue casas nas suas colônias na Cisjordânia e, nesta semana, vários atos contra Israel ocorreram nos territórios palestinos.

Se Obama merecer o Nobel pela sua atuação na Coréia do Norte, Bush também teria o direito, já que a política dos dois presidentes para o país asiático é a mesma. Sem esquecer de Honduras, que o presidente americano praticamente ignora e sequer possui uma equipe de América Latina para lidar com a questão – em parte por causa dos republicanos.

Obama também fracassou na questão das mudanças climáticas e não conseguirá avançar no estabelecimento de medidas nos EUA antes da conferência sobre o clima na Dinamarca no fim do ano. Chegará de mãos abanando e sem capacidade de liderar a comunidade internacional.

Até agora, o grande feito de Obama foi o discurso para o mundo islâmico no Cairo. Estive no Egito no dia e, em seguida, viajei ao Líbano. Falando com as pessoas, percebi que o presidente americano alterou um pouco a imagem dos EUA entre os muçulmanos e árabes – que podem ser cristãos também. Hoje, o tom em relação aos americanos é distinto do que era na época de Bush. Talvez, nem tanto pelas palavras, mas pela própria figura de Obama. Afinal, bem antes de ele falar na capital egípcia, vi camisetas com seu nome para vender em Damasco, cidade sede de um regime ainda considerado inimigo de Washington.

Mas Obama lembra aqueles atletas especiais, como Michael Phelps e Roger Federer. Pode perder um torneio ou uma prova em uma semana e dar a volta por cima na seguinte. Como aconteceu na passada, na Dinamarca, quando o Rio derrotou Chicago na disputa pelos Jogos Olímpicos e Lula celebrou a sua vitória sobre o presidente americano. Mas, menos de sete dias depois, Obama conquista o Nobel, que para um político vale tanto quanto uma medalha de ouro olímpica ou um título em Wimbledon. E Obama, diferentemente de Jimmy Carter, o conquistou no começo da carreira.

Na verdade, por mais que tenha se tornado um presidente comum nos EUA, Obama ainda mantém a condição de líder especial no resto do mundo, mesmo com duas guerras e nenhum acordo de paz.

Em tempo, a premiação ocorre com o presidente evitando um encontro com o Dalai Lama, Nobel da Paz em 1989. O presidente, porém, jamais negou um encontro com líderes chineses.

Estadão

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