domingo, 4 de outubro de 2009

PT e PSDB - Faces da mesma moeda.


Peter Kingstone, diretor do Centro de Estudos sobre América Latina e Caribe da Universidade de Connecticut, está com a agenda cheia. Tem recebido uma série de convites para dar palestras sobre o Brasil, tema de estudo há cerca de duas décadas.

"Quando comecei com isso, ninguém se importava com o Brasil. Agora é um tema popular em círculos acadêmicos, financeiros, governamentais. Recebo convites a toda hora."

Em entrevista por telefone, na sexta-feira, horas antes de o Rio ser escolhido como sede das Olimpíadas de 2016, o cientista político, autor e editor de livros sobre o País, avaliou o governo Lula e o cenário eleitoral para 2010.

Para muitos analistas, o PT ficou parecido com o PSDB nos últimos anos. O senhor concorda?

Não vejo grandes diferenças entre os dois partidos. Antes de Lula vencer, em 2002, o partido defendia a transparência, a justiça social, o modo petista de governar. O PT se moveu de forma abrupta para o centro, perdeu tudo o que fazia diferente. Os militantes que não apoiaram o movimento para a direita se foram. E muitas pessoas se filiaram apenas porque o partido está no poder.

De que maneira o senhor compara os governos Lula e Fernando Henrique Cardoso?

Lula se beneficiou das reformas implementadas pelo antecessor. Deu continuidade a muitos programas, aprofundou e estendeu alguns dos melhores, como o Bolsa-Família. A maior diferença que vejo é na política externa. Lula aparece como um ator mais confiante no cenário internacional. Ele conseguiu traduzir o poderio econômico do Brasil em uma política externa mais assertiva.

O sr. prevê mudanças nas políticas sociais e econômicas caso José Serra vença as eleições?

Tanto Serra quanto Dilma Rousseff representam a mesma possibilidade de mudança. Ambos têm forte orientação nacionalista. Com a eleição de um deles, o papel do governo assumirá uma direção mais nacionalista. Será uma mudança em relação às gestões de Lula e FHC. Não vejo uma vitória de Serra como uma guinada para a direita. A gestão Lula tem sido nacionalista mais na retórica do que na realidade.

Serra tem evitado o confronto com Lula. É uma boa estratégia?

O que ele pode fazer? A trajetória do Brasil desde a crise tem sido melhor do que a de muitos países. Em termos de performance econômica, não se pode criticar Lula. O prestígio do Brasil no mundo aumentou. A única coisa que Serra pode dizer é que tem havido muita corrupção no governo, mas isso já aconteceu e os eleitores reelegeram o presidente.

Há tolerância em relação à corrupção no Brasil?

Sim, há pesquisas que mostram que, principalmente entre os pobres, essa não é uma questão tão importante. Quem estuda o Brasil se surpreende com a forma como está indo bem. Em vários aspectos o País ficou mais maduro. Mas ainda precisa aprofundar a democracia. O respeito às leis é uma área em que certamente precisa melhorar. Mas não pretendo afirmar que a corrupção é o que diferencia o Brasil. Infelizmente, nos Estados Unidos, George Bush foi reeleito apesar das evidências de que seu governo havia agido de forma não ética e provavelmente ilegal. O problema no Brasil é que 50% da população é muito pobre. É uma grande massa de eleitores para quem não é um grande problema o "rouba, mas faz".

Entre os escândalos de corrupção e as políticas sociais, como o governo Lula será lembrado no futuro, na sua opinião?

Seu legado é muito bom. Não há dúvidas de que muitas pessoas ficaram desapontadas com a corrupção. Pela minha perspectiva, os esforços em políticas sociais também são decepcionantes. Os investimentos em saúde são fracos e o sistema educacional é horrível. O Bolsa-Família garante uma renda mensal que acaba com a fome, o que não é uma coisa trivial. Também é uma ideia maravilhosa para ampliar matrículas e evitar a evasão escolar. Mas de pouco adianta se os alunos não têm recursos adequados, se os professores não têm treinamento adequado, se os salários são baixos. Por melhor que o Brasil esteja indo, ainda é um dos países mais desiguais do mundo. No futuro poderemos olhar para o governo Lula e dizer que ele deveria ter feito mais. Mas o lado positivo também é tremendo. Não se pode ignorar o fato de que o Brasil é hoje diferente do que era há dez anos.

Estadão

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