segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Uruguai: Algumas considerações sobre o pleito

MONTEVIDÉU - O partido governamental Frente Ampla (FA) venceu este domingo o pleito geral realizado no Uruguai, mas seu candidato, o ex-guerrilheiro tupamaro José Pepe Mujica, terá que enfrentar o ex-presidente Luis Alberto Lacalle em um segundo turno no final de novembro. Segundo pesquisas de boca de urna, Mujica teria entre 47% e 49% dos votos, enquanto Lacalle teria entre 29% e 31% dos votos.

Com 82% dos votos apurados, a coalizão de esquerda no poder conseguiu um respaldo de 46,5% dos eleitores e, embora ainda tenha maioria no Parlamento, agora haverá de lidar pela Presidência com uma eventual aliança de Lacalle, candidato do Partido Nacional (PN, Blanco) com o outro líder de centro-direita, o aspirante do Partido Colorado, Pedro Bordaberry. Após conseguir 30,1% dos votos, o ex-presidente Lacalle vê em Bordaberry um apoio chave para aspirar a vitória, pois o "colorado" conta com 17,5% dos votos, o dobro do previsto nas enquetes, e já anunciou que votará no candidato do Partido Nacional no turno seguinte, em 29 de novembro.

Mujica causa preocupação no setor financeiro com suas promessas de acabar com o sigilo bancário do Uruguai, considerado o paraíso fiscal da região. Ele diz, porém, que seu modelo de esquerda se aproxima do estilo moderado do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva - e não do radicalismo do venezuelano Hugo Chávez. Lacalle também causa desconfiança: embora liberal, não se comprometeu em alterar a forte presença estatal na economia.

Com 75 anos, ex-ministro da Agricultura e senador, Mujica deu seus primeiros passos no grupo "errado", o Partido Nacional, com cujo candidato e hoje máximo rival, Lacalle, chegou a compartilhar fileiras em uma convenção da juventude partidária em 1958. No entanto, Mujica em breve trocou a militância pela atividade guerrilheira no seio do MLN-T, que lhe custou seis ferimentos à bala e mais de 13 anos de prisão em condições sub-humanas durante a ditadura que imperou no Uruguai entre 1973 e 1985. Com o retorno da democracia e beneficiado pela lei de anistia aos tupamaros, Mujica voltou para a política como líder do Movimento de Participação Popular (MPP), setor majoritário da Frente Ampla.

Com um estilo reto e desalinhado e um discurso simples, infestado de jargão e metáforas cotidianas, Mujica fez de si mesmo um espelho no qual hoje milhares de uruguaios se olham, esperançosos por seus ideais revolucionários e seu compromisso com a luta social. No entanto, a espontaneidade se perfilou como uma faca de dois gumes para o veterano político, cujas saídas de tom, frequentemente acompanhadas de gritos e impropérios, lhe valeram críticas da oposição e dentro de seu partido durante a campanha eleitoral. Alertado por seus próprios excessos, Mujica nos últimos tempos tem adotado uma postura mais sossegada e contida, centrada em promover-se como herdeiro do atual presidente, Tabaré Vázquez.

(Com Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo)


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Uruguaios rejeitam anular lei que anistiou militares da ditadura

Segundo pesquisas de boca-de-urna, plebiscito para revogar a Lei de Caducidade fracassou com 48% dos voto.


MONTEVIDÉU - Na votação deste domingo, 25, os uruguaios rejeitaram a anulação da lei que anistiou os militares que cometeram violações aos direitos humanos durante a ditadura militar (1973-1985). Luis Puig, porta-voz da Coordenadoria pela Nulidade da Lei de Caducidade admitiu o fracasso do plebiscito, assinalou que "a luta pela verdade e pela justiça não termina nem se menospreza" com o resultado desfavorável, segundo apontaram pesquisas de boca-de-urna.

"O tema da memória e da justiça teve um grande apoio nos jovens uruguaios", disse Puig, também secretário de Direitos Humanos da principal central operária do Uruguai.Era preciso superar 50% dos votos emitidos para conseguir a nulidade da Lei de Caducidade, mas segundo as pesquisas manuseadas pela coordenadoria não ultrapassaram 48%.

A Lei de Caducidade foi aprovada em 1986 no fim do regime cívico-militar (1973-1985) e já foi referendada em um primeiro plebiscito em 1989. A nulidade da Lei de Caducidade tinha se transformado em um motivo de disputa na campanha eleitoral, com acusações cruzadas de utilização eleitoreira de um assunto tão delicado.


Estadão

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