segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ahmadinejad é recebido com protestos no Itamaraty

BRASÍLIA - O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, chegou por volta do meio-dia desta segunda-feira, 23, ao Palácio do Itamaraty, onde foi recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com quase uma hora de atraso, Ahmadinejad utilizou a entrada principal do prédio, onde estava sendo aguardado por dois grupos distintos de manifestantes. Um contra a visita do presidente iraniano e outro a favor.

Os manifestantes foram afastados do carro de Ahmadinejad por uma fileira de 16 homens da Polícia Montada. No começo desta tarde, ainda estavam na área cerca de 150 homens da PM e da segurança do Palácio do Planalto. Em comparação a outras visitas de presidentes ao Brasil, o número de seguranças, desta vez, é maior.

Mas, apesar de todo efetivo, um homem, carregando uma criança de pouco mais de um ano, conseguiu driblar os seguranças e entrou no Itamaraty para distribuir folheto em solidariedade ao presidente iraniano. O papel era um manifesto de boas vindas a Ahmadinejad e elogios por sua "incansável luta contra o imperialismo dos Estados Unidos, Israel e seus aliados". Ao ser retirado pelos seguranças, o homem, que não quis se identificar, perguntava se o funcionário do Itamaraty era judeu, por estar afastando-o do local.

Na tarde desta segunda-feira Ahmadinejad será recebido pelos presidentes da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e deve dar uma palestra em uma universidade local. O último compromisso será uma entrevista coletiva, prevista para as 20h30. Ahmadinejad pernoitará em Brasília e amanhã de manhã seguirá para a Bolívia.


Estadão



SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta segunda-feira, 22, o direito do Irã de manter seu programa nuclear para fins pacíficos, com a ressalva de que Teerã colabore com a busca de uma "solução justa e equilibrada" para o impasse em torno de suas atividades nessa área.


"O que defendemos há muito tempo é que o Irã tenha o direito a um programa nuclear para gerar energia, com pleno respeito aos acordos internacionais", disse o brasileiro durante pronunciamento ao lado de seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

As declarações de Lula vão de encontro aos interesses dos Estados Unidos, que acusam o Irã de possuir um programa secreto para a construção de uma bomba nuclear. Recentemente, o presidente Barack Obama acusou o Irã de construir uma usina secreta de enriquecimento de urânio.

Lula pediu, no entanto, respeito aos acordos internacionais sobre proliferação de material bélico nuclear. Para ele, "esse é o caminho que o Brasil vem trilhando em obediência a nossa Constituição, que proíbe a produção e a utilização de armas nucleares". Segundo Lula, não proliferação e desarmamento nuclear devem andar juntos. "O Brasil sonha com um Oriente Médio livre de armas nucleares como ocorre com nossa América Latina", disse.

Ahmadinejad retribuiu o apoio de Lula pedindo uma reformulação no Conselho de Segurança da ONU. "O Conselho de Segurança deve ser ampliado. Portanto, apoiamos o status permanente do Brasil no órgão", disse o líder iraniano, em referência à ambição do Brasil de se tornar membro permanente do órgão. A declaração do líder iraniano vem no mesmo momento em que o País assume uma vaga rotativa no conselho.

Em discurso de saudação ao presidente do Irã, o brasileiro tratou ainda de temas delicados como direitos humanos e o direito do povo palestino de ter a sua nação ao lado do Estado de Israel. Após destacar que o Brasil tem se empenhado em fortalecer o Mercosul e construir a União de Nações Sul-americanas (Unasul) com "muito diálogo, tolerância e paciência", o presidente Lula ressaltou que o Brasil está trabalhando para a integração continental.

"Reconhecemos que, sem estabilidade e cooperação regional, não haverá paz e prosperidade duradouras", afirmou o presidente, acrescentado que a política externa brasileira "é balizada pelo compromisso com a democracia e o respeito à diversidade". "Defendemos os direitos humanos e a liberdade de escolha de nossos cidadãos e cidadãs com a mesma veemência com que repudiamos todo ato de intolerância ou de recurso ao terrorismo", completou.

Lula ressaltou que encoraja o presidente iraniano a continuar o engajamento com países interessados de modo a encontrar uma solução justa e equilibrada para a questão nuclear iraniana. Em seu discurso, sem nenhum improviso, o presidente Lula lembrou a experiência brasileira de abrigar comunidades árabe e judaica em convivência harmoniosa, que, segundo ele, "desmente o mito de que o Oriente Médio está condenado aos conflitos e sofrimentos que tem vivido por décadas".

Ele acrescentou que o Brasil mantém um "diálogo aberto e franco" com todos os países da região. Em seguida, citou que foi com este espírito que recebeu, nos últimos dias, os presidentes de Israel e da Autoridade Palestina. "A Shimon Peres e a Mahmoud Abbas reiterei a posição brasileira sobre o conflito no Oriente Médio. Defendemos o direito do povo palestino a um Estado viável e a uma vida digna ao lado de um Estado de Israel seguro e soberano. Mas a busca de um entendimento nesse e em outros temas regionais exige a incorporação de novos interlocutores nas negociações genuinamente interessados na paz. Para dialogar, é necessário construir canais de confiança com desprendimento e coragem. São esses mesmos valores e princípios que devem prevalecer na busca de paz no Oriente Médio", disse.

Lula acrescentou que o Irã pode ser decisivo, não só no Oriente Médio, mas também na Ásia Central. "Confiamos na experiência milenar de sua cultura para forjar uma ordem internacional harmônica em sua própria região. Será particularmente importante a contribuição iraniana para lograr a unidade dos palestinos, sem a qual suas aspirações de liberdade não poderão ser alcançadas".

Lula encerrou o discurso dizendo que a vinda do presidente iraniano ao Brasil e sua visita ao Irã em 2010 fortalecerão o diálogo entre os dois países, que partilham desafios e têm a vontade de superá-los. "Esse diálogo é e será marcado pela franqueza e pela disposição de colocar a paz mundial acima de qualquer outro interesse. Por isso, vejo que podemos olhar com confiança para nosso futuro", disse.


Estadão

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