sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Alquimia política


A capacidade de o presidente Lula fazer a alquimia política de transformar sua popularidade em votos para a candidata oficial, Dilma Rousseff, é a grande questão que domina a cena partidária, no momento em que se aproxima a hora da decisão sobre alianças para a eleição de 2010. As últimas pesquisas de opinião de posse da direção do PT mostram que Dilma já voltou ao patamar de 20%, seu maior índice até o momento. Mas mostram, também, tanto que o governador de São Paulo, José Serra, continua liderando com folga a preferência do eleitor, numa faixa que vai de 35% a 40% dependendo do cenário; como que o governador de Minas, Aécio Neves, já consegue se equiparar a Dilma na faixa de 19%, quando é apresentado como candidato tucano.

Embora o deputado federal Ciro Gomes, quando incluído na lista, apareça com capacidade de liderança, nem PT nem PSDB levam sua candidatura a sério. O PT porque acredita que Lula conseguirá tirá-lo da disputa nacional, e o PSDB por isso e também porque acredita que, sendo Aécio o candidato, o próprio Ciro desistirá de concorrer.

Aliás, é nesta potencialidade de refazer os acordos políticos que estão sendo costurados agora que o governador de Minas joga sua maior cartada na sucessão interna do PSDB.

Os dirigentes tucanos conversam com partidos que estão na base do governo, como o PP, o PTB e parcela do PMDB, para avaliar a possibilidade de união caso o candidato venha a ser o governador mineiro.

Os programas eleitorais do PSDB que começam a ser divulgados, e culminarão com o programa nacional, divididos igualmente entre os dois potenciais candidatos, deverão dar maior consistência à análise das pesquisas de opinião até dezembro, marco que Aécio determinou para uma decisão, se não do PSDB, dele próprio nesta corrida pela indicação do partido.

Ele continua perdendo consistentemente para Serra em todas as regiões do país, mas sua movimentação nacional tem lhe dado maior visibilidade nos últimos tempos, o que se reflete nas pesquisas eleitorais. Ele ganha bem de Dilma no Sul e Sudeste, e perde de lavada no Nordeste, enquanto Serra vence em todas as regiões do país, inclusive no Nordeste, onde Lula é fortíssimo.

O presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, não tem dúvidas de que o presidente Lula já está transferindo votos para a ministra Dilma, que, em condições normais, não teria os 20% com que aparece em média nas pesquisas. A questão é saber se este é o limite, e aí há dois balizadores.

O presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, diz que a transferência de Lula é de cerca de 15%, e chegou a fazer uma pesquisa em que colocou o ministro da Justiça, Tarso Genro, como “o candidato de Lula”.

Genro saiu de 2% para 12%.

Já o cientista político Fabiano Santos trabalha com um índice de 20% do eleitorado a favor do PT, e esse seria o índice que Dilma conseguiu até agora, unindo os eleitores petistas em torno de seu nome.

A esquerda como um todo teria cerca de 30% dos votos, limite que Lula não conseguiu ultrapassar durante muito tempo nas eleições que disputou.

A constatação do presidente Lula, tempos atrás, de que a eleição de 2010 será disputada apenas por candidatos “da esquerda” pode prejudicar a candidatura oficial, pois, com José Serra pelo PSDB e as candidaturas de Ciro Gomes e, principalmente, Marina Silva, a faixa da esquerda está congestionada.

Serra, e sobretudo Aécio, no entanto, têm mais capacidade de ampliar seu eleitorado para o centro e para a direita do que o perfil político de Dilma, que, sem uma história eleitoral antecedente, sem ter disputado sequer uma eleição, só tem seu passado de guerrilheira para apresentar.

Teria, sim, a experiência de secretária estadual e ministra do governo Lula, e este foi o primeiro mote de seu l a n ç a m e n t o . A “m ã e d o PAC”, como Lula a apresentou há quase dois anos, foi desaparecendo à medida que as obras não conseguem deslanchar, e sua gestão à frente da Casa Civil poderá ser questionada justamente pela ineficiência.

As críticas de Lula contra o Tribunal de Contas da União (TCU) e a burocracia de maneira geral, que estariam atrasando as obras, têm muito a ver com a irritação do presidente, mas têm também um caráter preventivo de se defender de críticas quanto à ineficiência de sua administração, em contraponto à “gestão eficiente”, que é um dos pontos fortes das candidaturas tucanas.

Com a decisão, que parece em curso, de valorizar aspectos do governo Lula como a intervenção estatal e a política externa, a candidatura de Dilma pode ficar estreita, sem capacidade de se expandir para outras faixas do eleitorado brasileiro, que não é de esquerda em sua grande maioria.

Nas pesquisas, a experiência anterior do candidato é bastante valorizada pelo eleitor, e a história de Serra como secretário estadual, deputado federal, senador, ministro, prefeito e governador de São Paulo, além de candidato à Presidência em 2002, conta valiosos pontos. Sua força no Nordeste, por exemplo, é devida à lembrança de sua atuação no Ministério da Saúde.

É por essas dificuldades que a candidatura oficial está sendo moldada com base na tentativa de se fazer uma eleição plebiscitária entre os governos Lula e Fernando Henrique, o que tiraria do primeiro plano os candidatos oficiais, transformados em meros representantes de seus líderes políticos.

Por isso, José Serra quer adiar ao máximo a decisão, não apenas para verificar se a transferência de votos de Lula tende a fortalecer Dilma inapelavelmente, mas também para não se expor ao confronto direto com Lula.

Por seu lado, Aécio Neves acha que é o único candidato capaz de evitar essa polarização política.

Merval Pereira

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