quinta-feira, 26 de novembro de 2009

AMORIM E SEUS ALOPRADOS PRECISAM DE CAMISA-DE-FORÇA


O deputado Raul Jungmann (PPS-PE) decidiu entrar com um requerimento no Itamaraty pedindo informações e esclarecimentos sobre uma entrevista concedida por Ruy Casaes, representante do Brasil na OEA, à Terra Magazine. Ruy Casaes? Vocês se lembram do homem. Ele resolveu me mandar um e-mail contestando um post meu certa feita, e eu fiz um vermelho-e-azul com ele. Com a devida vênia, observo que o homem destrambelhou de vez. E lhe faço justiça: não se trata de um destrambelhamento pessoal. Ele nada mais faz do que reproduzir o estado miserável a que chegou a política externa brasileira.

Alguns leitores já haviam comentado a entrevista aqui. Aquele que representa, na OEA, um país que chegou a se colocar como mediador da crise chama o presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, de “palhaço”. Ainda que o atual presidente de Honduras fosse o mais desprezível dos seres, é evidente que não estamos mais diante de uma linguagem diplomática. Compreendo a fúria dos bolivarianos brasileiros. O papel ridículo desempenhado pelo Itamaraty revela-se agora sem reservas. Micheletti, para a turma de Celso Amorim, é mesmo um “palhaço”. O Brasil gosta de gente séria, de democratas circunspectos como Mahmoud Ahmadinejad, do Irã; Kadhafi, da Líbia, e Omar al Bashir, ditador do Sudão. Toda essa gente tem a mão atolada em sangue — Bashir, pelo menos 300 mil vezes. O governo Lula gosta é de homem sério. Micheletti não! Micheletti é um “palhaço!” Onde já se viu fazer uma “ditadura” em que os Três Poderes da República continuam a funcionar livremente, sem leis de exceção?

O que motivou o pedido de Jungmann, que é membro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara e foi convidado para ser observador das eleições hondurenhas, do dia 29 — e ele vai —, nem foi o destempero do tal Ruy. No vermelho-e-azul que fiz, já achava que ele precisava ou de férias ou de um Lexotan. Além, claro, de precisar ler a Constituição de Honduras. Jungmann quer que o Itamaraty explique outro trecho da entrevista. Ao considerar que Peru e Colômbia devem reconhecer o governo hondurenho que sair das urnas, afirmou o valente:
A Colômbia é um país altamente dependente dos EUA, o Peru é um país que tem um governo de centro-direita que tem dificuldades com alguns vizinhos, históricas com o Chile e ideológicas com a Venezuela. O Peru age de uma maneira que para eles é aquilo que significa a sua individualidade. Eu não sei se eles vão reconhecer ou não. Os indícios apontam que o Peru reconhecerá, assim como a Colômbia, independentemente de qualquer outra coisa. Eles estarão agindo de maneira incoerente e terão que fazer uma grande ginástica para justificar o fato de eles não estarem tomando a posição que eles assinaram tanto na Unasul, quando no Grupo do Rio, quanto na Calc. Isto será um problema deles.

Entenderam? Trata-se da confissão de que o alegado pragmatismo da política externa brasileira é mesmo falso. O alinhamento que conta é, antes de tudo, ideológico. Ora, não cabe ao representante brasileiro na OEA especular sobre o grau de “dependência” ou “independência” de uma nação soberana, como é a Colômbia, na relação com um terceiro país. É absurdo que o embaixador classifique ideologicamente o governo de uma nação amiga para desmerecê-lo, como ele faz com o Peru.

Sem contar que Casaes está falando, para não variar, uma grossa bobagem. Como ele mesmo deixa claro, os problemas do Peru com o Chile são “históricos” — e existiriam ainda que o governo fosse de esquerda. Mais: é o Peru que tem dificuldades “ideológicas” com a Venezuela, ou é a Venezuela que tem dificuldades com outros países? Qual dos dois governos julga poder exportar uma “revolução”? A crise hondurenha, aliás, nasce no chavismo, como é amplamente sabido.

A diplomacia brasileira, sob Celso Amorim, não é só primitiva ideologicamente. Ela é também ruim, grosseira, indicando seu impressionante rebaixamento. Casaes diz coisas como: “A população americana está se lixando para Honduras”, como se as populações dos demais países estivessem muito preocupadas. E, com razão, não estão: têm os seus próprios problemas. E Casaes? E Celso Amorim? E o governo brasileiro? Estariam eles, por acaso, preocupados com os hondurenhos ou estão ocupados apenas em marcar um ponto de vista que é de natureza ideológica? Gente preocupada com aquele povo propõe adiamento de eleições?

Vamos ver o que dirá a Fada Sininho que Amorim tem na imprensa, segundo aquela fascinante teoria da “penetração e do diálogo”… Nunca antes na história destepaiz tivemos uma diplomacia tão rasa, que nos expusesse a tantos vexames. Mas, se querem saber, estou começando a gostar da coisa. E explico por quê.

Amorim e seus aloprados estão começando a cumprir aquele roteiro da tragédia. Alguns tontos começaram a ver sucessos onde só havia desastres, e eles foram se agigantando — no caso de Amorim, trata-se de linguagem duplamente figurada… E foram sendo sempre mais ousados na demência. A tramóia para instalar Manuel Zelaya na embaixada, a proposta de adiar as eleições e a visita de Ahmadinejad dão conta de que os loucos passaram a tomar conta do hospício. Os “heróis” começaram a demonstrar a ambição desmedida, e isso chamou a atenção dos deuses, que estavam achando tudo até bem divertido até ali. “Está na hora de dar um chega prá lá nesses bananas”. E foi o que a diplomacia americana fez: pôs os bananas do Brasil no seu devido lugar.

Por isso Ruy Casaes está choramingando agora. As eleições hondurenhas vão acontecer apesar das ameaças terroristas. O novo governo tomará posse, e os EUA vão reconhecê-lo. E Amorim terá perdido mais essa.

E só para arrematar: vocês se lembram que escrevi aqui que Honduras havia se tornado um caso tão importante para as esquerdas latino-americanas porque era a primeira vez que a tática de assaltar a Constituição para dar sucessivos golpes por meio de eleições havia fracassado. E isso, claro, poderia servir de exemplo para outros países que viessem a sofrer o assédio de vagabundos dessa espécie. Casaes confirma minha análise. Leiam o que ele diz:
“Além de tudo é preciso levar em conta o efeito demonstração dessa crise. Há mais países com instabilidades internas que podem se agravar a partir do momento em que a crise não foi resolvida com a reinstalação da ordem democrática. Isso pode estimular. Se em Honduras, nada foi feito, porque não posso fazer em outro país também?”

Tá com medinho, Casaes? É isto mesmo: que as forças democráticas da América Latina, incluindo os militares, não mais permitam que Constituições democráticas, COMO É A DE HONDURAS, sejam rasgadas em nome da suposta democracia. CHEGA DE GOLPES NA AMÉRICA LATINA, INCLUINDO OS DOS POPULISTAS!

PS: Casaes já leu a Constituição de Honduras depois que desmoralizei a sua tese naquele vermelho-e-azul ou continua imerso na mais escura ignorância? Ok, gente, a minha pergunta é só retórica.



Reinaldo Azevedo

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