quinta-feira, 19 de novembro de 2009

EM CARTA A LULA, BATTISTI AFIRMA QUE AÇÕES TERRORISTAS FIZERAM UMA ITÁLIA MELHOR. PARABÉNS, MINISTRO MARCO AURÉLIO!!!


Já escrevi aqui, e é fato, que o caso Battisti, em si, não chega a ser um botão quente, não é? Se as oposições tivessem a coragem de levar o homicida à televisão, e também as suas vítimas, a coisa talvez fosse diferente. Mas não o farão. Defendo a extradição porque acho que lugar de assassino é na cadeia. É questão simples. E, claro, pesa o asco que tenho pela canalha terrorista.

Battisti enviou uma carta a Lula, tornada pública. Espero que o ministro Marco Aurélio de Mello a leia com atenção para perceber a canalhice intelectual e moral com a qual está colaborando. Dos demais que decidiram que Lula é César, não espero grande coisa — nem mesmo uma leitura percuciente do texto.

A impostura segue abaixo. No começo do caso, Battisti fazia questão de se apresentar como alguém que tinha renunciado à política, que se ocupava agora da natureza, dos passarinhos e de assuntos morais. Mais: apresentava-se como um arrependido. Dado o andamento das coisas, voltar a ser um “político” passou a ser útil. Na carta a Lula, ele se apresenta como um utopista e, atenção, SUSTENTA QUE AS AÇÕES TERRORISTAS AJUDARAM A CRIAR UMA ITÁLIA SOCIALMENTE MAIS JUSTA. É claro que ele não chama terrorismo de “terrorismo”. O país teria melhorado, diz ele, em razão do sangue dos “companheiros” que tombaram. Sobre o sangue de suas vítimas, ele nada diz. Pulha!

Às vezes, sinceros amigos meus me dizem: “Você é muito duro; não se exponha tanto”. Perdão! Não consigo! O que vai abaixo é a mais descarada, safada e vigarista defesa do TERRORISMO. E Battisti defende o terrorismo para deixar claro que seus atos foram “políticos”. E, dada a seqüência, o crime político parece alguma coisa mais doce e melhor do que o crime comum.

Parabéns, ministro Marco Aurélio — e note que só me refiro ao senhor, uma deferência. O senhor se torna signatário desta rara peça de moral humanista. Aprendemos que o sangue do crime político é mais barato. E pode ser libertador, não é? Segue íntegra da carta.

*

“AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
SUPREMO MAGISTRADO DA NAÇÃO BRASILEIRA

AO POVO BRASILEIRO
“Trinta anos mudam muitas coisas na vida dos homens, e às vezes fazem uma vida toda”.
(O homem em revolta - Albert Camus)

Se olharmos um pouco nosso passado a partir de um ponto de vista histórico, quantos entre nós podem sinceramente dizer que nunca desejaram afirmar a própria humanidade, de desenvolvê-la em todos os seus aspectos em uma ampla liberdade. Poucos. Pouquíssimos são os homens e mulheres de minha geração que não sonharam com um mundo diferente, mais justo.

Entretanto, freqüentemente, por pura curiosidade ou circunstâncias, somente alguns decidiram lançar-se na luta, sacrificando a própria vida.

A minha história pessoal é notoriamente bastante conhecida para voltar de novo sobre as relações da escolha que me levou à luta armada. Apenas sei que éramos milhares, e que alguns morreram, outros estão presos, e muito exilados.

Sabíamos que podia acabar assim. Quantos foram os exemplos de revolução que faliram e que a história já nos havia revelado? Ainda assim, recomeçamos, erramos e até perdemos. Não tudo! Os sonhos continuam!

Muitas conquistas sociais que hoje os italianos estão usufruindo foram alcançadas graças ao sangue derramado por esses companheiros da utopia. Eu sou fruto desses anos 70, assim como muitos outros aqui no Brasil, inclusive muitos companheiros que hoje são responsáveis pelos destinos do povo brasileiro. Eu na verdade não perdi nada, porque não lutei por algo que podia levar comigo. Mas agora, detido aqui no Brasil não posso aceitar a humilhação de ser tratado de criminoso comum.

Por isso, frente à surpreendente obstinação de alguns ministros do STF que não querem ver o que era realmente a Itália dos anos 70, que me negam a intenção de meus atos; que fecharam os olhos frente à total falta de provas técnicas de minha culpabilidade referente aos quatro homicídios a mim atribuídos; não reconhecem a revelia do meu julgamento; a prescrição e quem sabe qual outro impedimento à extradição.

Além de tudo, é surpreendente e absurdo, que a Itália tenha me condenado por ativismo político e no Brasil alguns poucos teimam em me extraditar com base em envolvimento em crime comum. É um absurdo, principalmente por ter recebido do Governo Brasileiro a condição de refugiado, decisão à qual serei eternamente grato.

E frente ao fato das enormes dificuldades de ganhar essa batalha contra o poderoso governo italiano, o qual usou de todos os argumentos, ferramentas e armas, não me resta outra alternativa a não ser desde agora entrar em “GREVE DE FOME TOTAL”, com o objetivo de que me sejam concedidos os direitos estabelecidos no estatuto do refugiado e preso político. Espero com isso impedir, num último ato de desespero, esta extradição, que para mim equivale a uma pena de morte.

Sempre lutei pela vida, mas se é para morrer, eu estou pronto, mas, nunca pela mão dos meus carrascos. Aqui neste país, no Brasil, continuarei minha luta até o fim, e, embora cansado, jamais vou desistir de lutar pela verdade. A verdade que alguns insistem em não querer ver, e este é o pior dos cegos, aquele que não quer ver.

Findo esta carta, agradecendo aos companheiros que desde o início da minha luta jamais me abandonaram e da mesma forma agradeço àqueles que chegaram de última hora, mas, que têm a mesma importância daqueles que estão ao meu lado desde o princípio de tudo. A vocês os meus sinceros agradecimentos. E como última sugestão eu recomendo que vocês continuem lutando pelos seus ideais, pelas suas convicções. Vale a pena!

Espero que o legado daqueles que tombaram no front da batalha não fique em vão. Podemos até perder uma batalha, mas tenho convicção de que a vitória nesta guerra está reservada aos que lutam pela generosa causa da justiça e da liberdade.



Reinaldo Azevedo

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