sábado, 7 de novembro de 2009

A Evolução da civilização: Queda do Muro de Berlim 1


Lothar de Maizière, de 68 anos, foi o último governante da Alemanha Oriental e o único a ser eleito democraticamente, em março de 1990. No cargo de primeiro-ministro, sua missão era a de representar os alemães orientais no processo de reunificação, que se concretizou no dia 3 de outubro do mesmo ano. Com a extinção da República Democrática Alemã, assumiu um ministério no governo de Helmut Kohl. Dois meses depois, renunciou ao cargo em meio à denúncia de que havia colaborado com a Stasi. Maizière disse que mantinha contato com a a polícia política do regime comunista, mas negou ter agido como informante. Ele concedeu a seguinte entrevista ao editor Diogo Schelp, de VEJA, em seu escritório de advocacia em Berlim.

O que havia de pior e de melhor na RDA?
O pior era ter de ensinar nossos filhos a ter dupla personalidade. Quando eles nos faziam uma pergunta no almoço, em casa, tínhamos de dar duas respostas: uma valia apenas no círculo familiar e a outra para ser repetida na escola. Era muito angustiante ter de educá-los para serem dissimulados. Obviamente, também havia uma vida normal dentro de um sistema anormal. Tive meus filhos na Alemanha Oriental e, nos anos 60, lembro-me especialmente do dia em que toquei Brahms sob a regência do maestro ucraniano Igor Markevitch, de quem eu era fã [de Maizière tocava viola em orquestras]. Foi um momento incrível.

O processo de reunificação ocorreu rápido demais?
Cometemos alguns erros, mas não podiamos perder o momento certo para a mudança. Corríamos o risco de perder a oportunidade. Em 1990, o ministro de Relações Exteriores da União Soviética, Eduard Shevardnadze, disse-me em Moscou: "Apressem-se, não sei quanto tempo ainda conseguimos manter as rédeas da política externa russa para ajudá-los na reunificação." De fato, poucos meses depois ele pediu demissão e, no ano seguinte, Gorbachev sofreu uma tentativa de golpe de estado.

Recentemente descobriu-se que a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher e o presidente francês François Mitterrand pediram ajuda aos soviéticos para impedir a reunificação da Alemanha. Como o senhor e Helmut Kohl lidavam com isso nos bastidores?
Thatcher não queria a reunificação de jeito nenhum. Já Mitterrand mudou de opinião graças a Kohl. O francês temia que a Alemanha deixasse de se interessar pela União Européia. Kohl lhe disse: "Nós vamos avançar com a integração da Europa." Tanto Thatcher como Mitterrand temiam o papel de liderança que uma Alemanha grande poderia assumir na região. Thatcher resistiu à idéia até o fim porque viveu na pele os dramas da II Guerra Mundial. Eu perguntei a ela, em 1990, por que tinha uma postura tão ruim em relação aos alemães. Ela respondeu, talvez para disfarçar: "É que eu não suporto esses homens grandes e corpulentos como o Helmut Kohl e o Hans-Dietrich Genscher [ministro das relações exteriores]! Eles chegam e ocupam todos os espaços!" Nesse sentido, acho que se sentia à vontade comigo, pois sou pequeno.

O senhor tentou tranquilizá-la sobre a reunificação?
Sim, eu disse à Thatcher que este era o desejo da população alemã, mas que ninguém pensava em fazer reivindicações de território ou colocar em dúvida as fronteiras existentes. Disse também que a Alemanha Ocidental já tinha em relação aos outros países da Otan uma soberania reduzida e que isso ia continuar assim após a reunificação.

A troca da moeda da RDA para o marco da Alemanha Ocidental é considerada a maior transferência de renda da história. Como foi esta negociação?
Na RDA, as pessoas estavam dispostas a trocar, ilegalmente, 5 marcos orientais por 1 marco ocidental [para poder comprar alguns produtos raros, como café, no mercado negro]. Quando o Muro caiu, os cidadãos da RDA tinham 200 bilhões de marcos orientais em economias. Com essa moeda não dava para comprar mais nada, porque o país estava falido. O dinheiro poupado valia menos que papel em branco. Com a unificação da moeda nacional, os alemães orientais puderam trocar esse dinheiro sem valor com uma cotação excelente. No começo, Kohl queria que todos pudessem trocar 4.000 marcos a um câmbio de um para um. Quem tivesse mais do que isso guardado poderia vender o resto na proporção de dois para um. Pedi a ele que privilegiasse os aposentados. No final, crianças e jovens até 16 anos podiam trocar 2.000, os adultos 4.000 e os aposentados 6.000 marcos na proporção de um para um. Com isso, os alemães orientais experimentaram uma transição da economia planificada para a de mercado com uma suavidade que não se viu em nenhum outro país do leste europeu.

Muitos ainda reclamam da mudança e do desemprego.
Em um curto período de tempo, os alemães orientais tiveram de se adaptar a um novo sistema político e econômico, em que é preciso lutar pelos próprios interesses, em vez de ficar esperando que o estado tome decisões por você. Em geral, a adaptação foi positiva. Mas uma faixa da população foi prejudicada nesse processo: a das pessoas que tinham cerca de 50 anos. Elas eram velhas demais para começar uma nova profissão e jovens demais para conseguir a aposentadoria. Para entender o drama enfrentado por elas basta lembrar que, na Alemanha Oriental, de vinte pessoas com emprego, só uma está na mesma profissão que tinha em 1989. Com 50 anos, é muito difícil mudar e nenhum banco aceita dar crédito para abrir o próprio negócio. A maior parte da população, no entanto, foi beneficiada pela mudança.

Uma discussão atual na Alemanha é se antigos colaboradores da Stasi podem ocupar cargos políticos relevantes. O senhor passou por isso em 1990. Trata-se de uma preocupação ultrapassada?
Roubo, na Alemanha, prescreve após dez anos. Por que seria diferente com quem cometeu um erro político no passado? Eu sou a favor de julgar os indivíduos pelo que fazem hoje. Imagine dois cidadãos disputando uma posição política. Um vem da Alemanha Oriental e logo procura-se descobrir se ele tem um passado ligado à Stasi. O outro vem de Hamburgo. Lá não havia Stasi, mas ele pode ser um canalha do mesmo jeito. A única diferença é que não há um arquivo detalhado sobre seu passado. Recentemente, descobriu-se que muitos dos policiais da cidade de Potsdam trabalharam para a Stasi. Eles não fizeram outra coisa na vida além de atuar na área de segurança. Na RDA, este tipo de trabalho sempre esteve na mão da Stasi. Inclusive os legistas e outros peritos criminais. Não dá simplesmente para trocar todo um povo por outro. Se um sujeito foi cozinheiro da Stasi, podemos criticá-lo pela sopa que ele faz, mas não por seu passado profissional.

veja.com

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