segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Godzillas do rock chacoalham Nova York

"Quem mais estava lá?", perguntava a todo momento o taxista australiano após o concerto no Madison Square Garden. E, a cada nova resposta, ele abria a boca atônito: U2, Mick Jagger, Metallica, Ozzy Osbourne, Bruce Springsteen, Stevie Wonder, Jerry Lee Lewis, Sting, Lou Reed, Buddy Guy, Aretha Franklin, Black Eyed Peas, Annie Lennox, Lenny Kravitz, Ray Davies (dos Kinks), Stevie Wonder, Crosby, Stills & Nash, Simon & Garfunkel, B.B. King, entre outra dezena de astros.

Durante duas noites, quinta e sexta-feira, o Madison Square Garden de Nova York, casa dos Yankees, assistiu ao imponderável. Na noite de sexta, logo após a apresentação inicial feita por Tom Hanks (que saudou "o gênero que mudou o mundo, dos clubes de New Orleans às praias da Califórnia", gênero feito tanto "por caminhoneiros de Memphis quanto por dândis de Nova York"), entrou em cena um mito inicial, o veterano Jerry Lee Lewis, "The Killer", cantando Great Balls of Fire, sozinho ao piano.

Jerry Lee saiu do palco quebrando uma cadeira, autêntico rebelde sem jeito do rock. Depois disso, foram se seguindo cenas oníricas, como Aretha Franklin (em forma estupenda) cantando com Annie Lennox e Lenny Kravitz e Ozzy Osbourne e o Metallica brincando de montanha-russa com o público. Parecia delirium tremens: Bono Vox e Mick Jagger cantando juntos Stuck in a Moment, do U2, e o clássico Gimme Shelter, dos Stones (com a voz feminina e as pernas de fora a cargo de Fergie, do Black Eyed Peas). Bruce Springsteen, Patti Smith e o U2 debulhando os versos "because the night belongs to lovers" e Springsteen e o U2 reinventando I Still Haven"t Found What I"m Looking For.

Parece história de pescador? Bom, foi tudo gravado para a TV. O concerto celebrava os 25 anos do Hall da Fama do Rock"n"roll, espécie de museu geriátrico do rock dos americanos - lugar em que as antigas realezas teimam em se mexer nervosamente. E você, leitor, vai ter o prazer de conferir esse choque de gigantes com os próprios olhos no dia 7 de dezembro, às 20 h, na TV do Brasil (e de outros 41 países da América Latina e Caribe; nos Estados Unidos, a HBO exibe antes, no dia 29 de novembro). É certo que as performances têm mais de 6 horas de música, e deverão ser "limadas" para a edição na TV, então muito do que se passou lá não será visto pelo espectador.

Mas não é tarefa fácil escolher o filé mignon da jornada. Por exemplo: nada será tão emocionante quanto ouvir Jeff Beck ao lado de Billy Gibbons, do ZZ Top, esmerilhando Foxy Lady, de Hendrix. Uau! Mas teve também Lou Reed com o Metallica, esfolando dois clássicos do Velvet Underground: Sweet Jane e White Light, White Heat. Difícil dizer o que o ouvinte deixaria de fora. Você deixaria de fora Jeff Beck e Sting em People Get Ready? Desprezaria Aretha Franklin e Annie Lennox cantando juntas Chain of Fools (com Annie vestindo uma camiseta com os dizeres HIV Positive)? Tiraria Iron Man ou Paranoid da junção de Metallica com Ozzy Osbourne?

Momento histórico logo na entrada: Aretha Franklin bem-humorada, a voz mais poderosa da música negra atual em seu auge, envergando um vestidão vermelho ao lado de uma memorável big band. E até dançando no palco. É para orgulhar uma testemunha, uma cena para contar aos netos. Ela cantou Make Them Hear You, de Ragtime, e depois Don"t Play That Song, Baby I Love You e até New York New York, sucessão de Frank Sinatra (mas ninguém cantou como Aretha jamais). E, é claro, seu grande hit, Respect.

Jeff Beck era para ser apenas um convidado, mas foi estrela porque o titular, Eric Clapton, cancelou sua participação. E Jeff botou para quebrar, colocou a guitarra no lugar mais alto do pódio (acompanhado de uma baixista notável, Tal Wilkenfeld, de 23 anos, que todo mundo pensava que era filha dele). Beck fez bela homenagem aos Beatles com A Day in the Life, e tocou Rice Pudding e Big Block com fagulhas nos solos de guitarra. Está renascido e melhor que nunca, vale trazer para o Brasil de novo.

O Metallica deixou todo mundo com os ouvidos zunindo. Ofereceu um belo coquetel de rock pesado, com músicas como Enter Sandman (que foi precedida de imagens no telão do jogador dos Yankess Mariano Rivera, que tem a música como seu tema da vitória), Stone Cold Crazy, For Whom the Bell Tolls e Turn the Page. O vocalista James Hetfield parecia realmente maravilhado com seus convidados, especialmente com Ray Davies, do Kinks. "Ele foi nossa escola nos primórdios dos riffs do rock", afirmou. Quando Davies deixou o palco, após cantar All Day and All of the Night, ele exclamou: "Uau, que doideira!"

O U2 foi o último a se apresentar, e já com status de superclássico. A "dica" do convidado especial da banda já começou na primeira música, Vertigo, que Bono Vox finalizou com uma inserção de It"s Only Rock"n"roll (But I Like It), dos Stones. Depois, emendou I Was Born To Be With You e logo em seguida entraram dois convidados de mãos dadas. Ninguém menos do que The Boss, Bruce Springsteen, e a diva da blank generation, Patti Smith. Eles tiveram de fazer duas vezes a mesma música, porque o microfone de Patti falhou ("Take two", brincou a cantora), mas Bono administrou bem o contratempo e terminou tudo em festa.

"O rock"n"roll trata de muitas vozes juntas unidas, trata da liberação: política, sexual, espiritual", discursou Bono, enquanto Springsteen tirava um sarro: "Vamos nos divertir um pouco com isso!", arrematou o boss. O U2 ainda cantou Misterious Ways, I Still Haven"t Found, Beautiful Day. "Se vocês amam a música, coloquem um dedo no ar", insuflou o cantor irlandês. A discurseira não serviu para nada, ficou todo mundo tentando ver quem é que iria ganhar no duelo de melhor rebolado: Mick Jagger ou Fergie. E, creiam-me, Jagger, 66 anos, dançando como uma lagarta com uma formiga nas costas, ganhou.

O repórter viajou a convite do canal TNT
ESTADÃO

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