quarta-feira, 18 de novembro de 2009

“LULA, O FILHO DO BRASIL” E A ESTÉTICA INAUGURADA PELA PT



Foi o maior fuá ontem em Brasília. Mil e quatrocentas pessoas deveriam estar no Teatro Nacional para a pré-estréia de “Lula, O Filho do Brasil”, filme da família Barretão que inaugura a estética do lulo-petismo — sim, uma verdadeira revolução, como queria Trotsky, tem uma estética também revolucionária. Já volto ao ponto. Imaginem se onde cabem 1.400 puxa-sacos não se amontoam no mínimo 1.800! E foi o que aconteceu. Os adoradores de Lula se espalhavam pelos corredores. Barretão pai, o Luiz Carlos, tentou chamar os fiéis à razão: “Não há bombeiros aqui. Se estourar uma lâmpada, as pessoas estarão todas correndo risco de vida”. Foi vaiado. Barretão filho, Fábio, o diretor, reclamava: “Nós, equipe e atores, estamos sem lugar para sentar”. Inútil. Ficou todo mundo no mesmo lugar. Era o dia de celebrar a igualdade.

Ao fim da seção, aplausos e tal, como seria de se esperar numa platéia esmagadoramente petista — exceção feita a alguns jornalistas, poucos não-petistas, é verdade. Relata um amigo que a reação, no entanto, foi fria. Segundo ele, há momentos no filme, em especial alguns diálogos, que são constrangedores. Por que a relativa frieza? Não sei. Preciso ver o filme primeiro. A minha hipótese é a de que não há Lula de ficção que possa superar o de verdade na dor e na alegria. Que humorista tentaria sacanear o petista especulando sobre as eventuais vantagens que teria a Terra se fosse quadrada? E, no entanto, Lula se deu a tais divagações.

O filme, diz-me esse amigo, é feito para emocionar, para chorar — e não para chorar pouco. Pode estar aí um problema? Um clichê, escreveu Umberto Eco, incomoda; cem clichês podem comover — duzentos, acrescento eu, podem narcotizar. De todo modo, “Lula, O Filho do Brasil” não foi feito para sensibilizar aquela platéia. Ao contrário até: a esmagadora maioria se considera parte da construção do mito. Lá se encontravam o apparatchik e aquele misto de lobistas e homens de negócios que tão bem caracteriza Brasília. Muitos ali terão seus cineastas do coração — e não é a família Barretão. Devem achar que o filme é importante “para o povo”, entenderam?, apostando, obviamente, no seu efeito eleitoral.

Financiamento ilegal de campanha
A platéia estava coalhada de ministros. Quem deu o tom adequado para a coisa foi o do Planejamento, Paulo Bernardo. Respondendo a críticas dos que antevêem uso eleitoral do filme, mandou ver: “Não tem nada ilegal ou irregular nisso. Eles [os oposicionistas] também que façam um filme. Se procurarem, acham alguma história interessante”. Quanta delicadeza d’alma! Vamos pensar: o contrário de “oposição”, nesse contexto, é “governo”. Se Bernardo desafia a oposição a fazer um filme, então admite que se trata de um trabalho do… governo, de uma manifestação de oficialismo. A divulgação massiva do filme se dará em ano eleitoral. Assim como dois mais dois são quatro, estamos falando de uma peça da propaganda eleitoreira.

Persigamos a lógica de tal raciocínio, o que acabará me levando àquela questão sobre a inauguração de uma nova estética. Barretão se orgulha de não ter recorrido a leis de incentivo. Huuummm… Pra quê? O filme mais caro até agora feito no Brasil — R$ 16 milhões ao todo — contou com o apoio generoso das seguintes empresas: AmBev, Camargo Corrêa, Embraer, Suez, Nestlé, OAS, Odebrecht, Oi e Volkswagen. Eike Batista, o coruscante, contribuiu com R$ 1 milhão, mas como pessoa física. Consta que nem foi preciso pedir. As empresas fizeram questão de colaborar.

Há uma lei maior e bem mais importante operando aí: a Lei do Poder. Vejam o caso da Oi, antiga Telemar. Se deu R$ 10 milhões para a empresa de Lulinha, por que não daria uma graninha para o filme sobre a vida do pai de Lulinha, que é quem manda? A contribuição estética certamente será irrelevante. Mas a contribuição ética de Barretão ao cinema e à política já é inigualável!” Estaríamos diante de uma sofisticada maneira de financiamento irregular de campanha?

As centrais sindicais entraram na parada e vão levar o filme aos trabalhadores. Hugo Chávez já foi convidado para distribuí-lo — e financiar essa distribuição — entre seus companheiros bolivarianos da América Latina. Tenta-se comprometer o próprio Barack Obama com o apoio à fita nos EUA. Nesse caso, é bem possível. Sabem como é este moço. Já Chávez… Vai que Lula tome o lugar de Bolivar no coração dos chavistas…

Estética
Stálin era um conservador em estética. Teria dito certa feita: “Fizemos a revolução, mas conservamos a bela língua russa”. Lula não diria o mesmo sobre o português — especialmente com a expansão, do modo como se dá, de certo ensino universitário. A nossa revolução atinge a língua também. Trotsky, no exílio, chegou a flertar com uma arte transgressora. Mas, na URSS stalinista, triunfou o analfabetismo cafona do Realismo Socialista: os “homens do povo” passaram a ser as personagens da produção cultural, que tinha de ter uma mensagem edificante, que contribuísse para solidificar a moral revolucionária.

Não vi o filme, mas parece que não se encaixaria bem nessa definição — e as fontes de financiamento, somada à confissão involuntária de Bernardo, sugerem outra estética: o lulo-petismo criou o Vitimismo Triunfalista Estato-Capitalista. O estado não põe dinheiro na propaganda petista. Quem faz isso é a iniciativa privada que ou faz negócios com esse estado ou não quer ficar de mal…

A expectativa é a de que o povo saia chorando de emoção com Lula e, de coração “lavado e enxaguado”, vá votar em Dilma. Será? A mitificação do presidente contribui para fortalecê-la ou só reforça o contraste existente entre ambos? Verei certamente o filme — é obrigação profissional — e escreverei aqui as minhas impressões. Nos cinemas, os trailers têm sido recebidos com uma vaia meio preguiçosa — um muxoxo, um “hannn” de insatisfação. É uma vaia também fria, como o aplauso.

“O filme é para o povo, não é pra você, Reinaldo”. Tá… Eu juro que preferiria chorar de raiva a chorar de melancolia.

Reinaldo Azevedo

Nenhum comentário: