terça-feira, 3 de novembro de 2009

Marcas para 2010


O Globo

Não foi por acaso que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez comparações entre o lulismo e o peronismo no seu artigo de domingo, no qual acusa o governo Lula de estar cometendo “pequenos assassinatos” da democracia na direção do que chamou de “subperonismo”, onde predominam “uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão”.

Fixar a imagem de que a candidata oficial, Dilma Rousseff, não tem luz própria e sua vitória representaria a supremacia de um projeto pessoal é uma tática oposicionista. A própria Dilma parou de dizer que sua eleição seria “um terceiro mandato de Lula” justamente para fugir desse estereótipo.

A comparação fica cada vez mais forte à medida que o presidente Lula vai exacerbando sua faceta populista, especialmente nessa parte final de seu segundo mandato, e menosprezando as intermediações institucionais.

Assim como Perón transformou duas mulheres — Evita e Isabelita — em ícones políticos, tendo feito até mesmo Isabelita presidente da Argentina, também Lula teria escolhido Dilma apenas por questão de gênero, não por suas qualidades próprias.

O fato de o PT não ter tido nenhum candidato natural à Presidência da República a não ser Lula nesses vinte anos desde a primeira disputa, em 1989, mostra que a consequência da centralização das ações políticas em torno da figura do líder carismático é a fragilidade da proposta partidária, que acabou transform a n d o s e e m u m m e ro apêndice de um projeto de poder personalista.

N o d o c u m e n t á r i o “Peões”, de Eduardo Coutinho, a ex-metalúrgica Tê, uma das fundadoras do PT, define com objetividade o que aconteceria em 2002 com a eleição de Lula à Presidência: “É o Lula que chega à Presidência, não é o PT”.

Tê ainda guardava consigo uma imagem saudosa do que ela idealiza o PT original, criado “no fundo do quintal” com o objetivo de não fazer política tradicional e realizar trabalhos de base nas comunidades.

Lula se referia ao PT como “a primeira oportunidade para os operários saírem das fábricas e dirigirem a política”. Mas o sindicalista radical que pensava como Tê admite que se tivesse sido eleito em 1989 não estaria preparado para exercer o cargo, e se convenceu de que o PT deveria se abrir para ganhar a eleição.

Quase 30 anos depois de sua fundação, o PT passa a ser apenas um braço operacional político do lulismo, tendo que engolir a decisão de seu líder de indicar sua escolhida, a chefe do Gabinete Civil Dilma Rousseff para sua sucessão, e dependendo apenas de Lula para o sucesso da empreitada.

Dependendo da disposição de Lula, o PT pós-Lula pode ter o mesmo destino do peronismo argentino, com diversos grupos disputando entre si seu espólio político.

Um arco político tão grande de apoios, que vai se reproduzindo no jogo da sucessão, tem espaço para partidos da extrema-direita à extremaesquerda, assim como no peronismo houve espaço para o radicalismo de esquerda dos montoneros, e também para o conservadorismo de direita de Menem.

A crescente influência sindicalista no governo Lula, um ponto de ligação com o peronismo, é um fenômeno político recorrente na história política que deságua na ocupação das estruturas do Estado.

Assim como aconteceu com os diversos movimentos sociais — MST, UNE, — cooptados pelo governo com verbas oficiais generosas, os sindicatos ocupam amplos espaços no Estado e formam uma verdadeira aristocracia operária que manipula as centrais sindicais e os fundos de pensão e outros órgãos federais.

A presidência do Serviço Social da Indústria (Sesi), que já serviu de base para políticas liberais, ser ve agora de base política ao sindicalista Jair Meneghelli, com um alto salário e um orçamento de fazer inveja ao mais fisiológico dos burocratas, que o fizeram abrir mão, como suplente, de assumir o mandato de deputado federal para continuar na sinecura oficial.

Outro quinhão do poder com caixa avantajado é o Sebrae, que foi dado de presente a Paulo Okamoto, antigo tesoureiro do PT, amigo íntimo de Lula.

O sociólogo Francisco Oliveira foi o primeiro a registrar que a elite do sindicalismo passou a constituir uma nova classe social, ao ocupar posições nos conselhos de administração dos principais fundos de pensão das estatais e do BNDES.

Só a Previ, comandada pelo sindicalista Sérgio Rosa, tem hoje mais de 200 cargos nos conselhos das maiores empresas do país, entre eles a Vale do Rio Doce, cuja presidência andou cobiçando.

Esse mesmo processo ocorreu tanto com o peronismo quanto com o Solidariedade, na Polônia, e está atingindo também o PT.

O próprio Lula, antes de chegar ao poder central do país, considerava Lech Walesa, o líder do Solidariedade e posteriormente presidente da Polônia, um “pelegão”.

No documentário de João Moreira Salles “Entreatos”, Lula conta como seu sindicato perdeu uma verba no exterior para o Solidariedade, e atribui essa “derrota” ao peleguismo de Walessa.

Se em 2002 o PSDB procurava atemorizar os eleitores com o caos na Argentina, hoje a oposição usa a mesma imagem para criticar as fragilidades políticas da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Comparando-a ora a uma consequência do “subperonismo” lulista, ora ao ex-presidente argentino De La Rúa, cujo curto governo foi dominado por crise econômica permanente, com movimentos populares violentos de protestos, o PSDB quer colocar a marca da insegurança na candidatura Dilma.

Não deu certo com Lula.

Além do mais, essa preocupação não deve afetar a maioria do eleitorado, mas pode fazer com que a sua parte mais elitizada fique preocupada com o futuro.

E, sobretudo, Dilma não é Lula.


Merval Pereira


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