terça-feira, 3 de novembro de 2009

Morre aos 100 o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss

PARIS - O antropólogo francês Claude Gustave Lévi-Strauss, que morreu no sábado aos 100 anos, segundo anunciou hoje a editora Plon, é considerado o pai do estruturalismo e um dos grandes pensadores do século XX.

Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas em 28 de novembro de 1908, dentro de uma família de intelectuais franceses de origem judaica.

Estudou direito e se formou em filosofia na Universidade de Sorbonne em 1931.

Após uma breve passagem pela docência no ensino secundário, Lévi-Strauss foi nomeado membro de uma missão universitária no Brasil e, de 1935 a 1939, foi professor na Universidade de São Paulo.

Durante este período, organizou e dirigiu várias expedições etnográficas ao Mato Grosso e Amazônia, e estudou também as tribos indígenas do norte e do sul do continente americano.

De volta à França, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, participou dos esforços de guerra de 1939 a 1940, até que abandonou esse país para ir aos Estados Unidos, onde lecionou na New School for Social Research de Nova York, entre 1942 e 1945.

Em 1944, foi chamado à França pelo Ministério de Assuntos Exteriores, mas, no ano seguinte, voltou aos Estados Unidos para ocupar as funções de conselheiro cultural na embaixada francesa em Washington, cargo que abandonou em 1948 para se dedicar ao trabalho científico.

Em 1949, foi nomeado subdiretor do Museu do Homem e, em 1950, como diretor de estudos na Escola Prática de Altos Estudos.

Depois, foi nomeado professor no Collège de France, onde exerceu como catedrático de antropologia social, cátedra que ocupou de 1959 e até aposentadoria, em 1982.

Lévi-Strauss transformou a etnologia contemporânea e elaborou um método original, reunindo o método estrutural e a contribuição da psicanálise para interpretar os mitos, descobrir os grandes sistemas de pensamento e explicar o funcionamento social.

Este foi o método usado para estudar a organização social dos indígenas no Brasil e do norte e sul da América. Foi vital seu encontro em 1941 com o linguista americano Roman Jakobson, após o que decidiu aplicar o estruturalismo aos fenômenos humanos, começando pelo parentesco.

Autor de vários livros, publicou em 1949 "As Estruturas Elementares do Parentesco" e, de suas expedições pelo Brasil, nasceu em 1955 sua obra "Tristes Trópicos", considerado um texto fundamental da etnologia contemporânea.

Em 1958, foi lançado "Antropologia Estrutural"; em 1962, publicou "O Pensamento Selvagem"; em 1964, "O Cru e o Cozido"; e, em 1967, "Do Mel às Cinzas". Também publicou, em 1993, "Olhar, Escutar e Ler".

Ao longo de sua carreira, conseguiu uma grande popularidade, além de contar com o reconhecimento acadêmico.

Em 1973, foi eleito membro da Academia Francesa, onde ocupou o assento que antes foi de Henry de Montherlant.

Detentor da Grã-Cruz da Legião da Honra desde 1992, era também membro estrangeiro da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, da Academia Americana e do Instituto de Artes e Letras, também nos Estados Unidos.

Era doutor "honoris causa", entre outras, das universidades de Bruxelas, Oxford (Inglaterra), Chicago (Estados Unidos), Stirling (Escócia), Montreal (Canadá), da Universidade Nacional Autônoma do México, da Universidade Laval do Québec, assim como de Yale, Harvard, Johns Hopkins e Columbia, nos Estados Unidos.

Em 1966, recebeu a medalha de ouro e o prêmio da Fundação Viking, concedido pelo voto internacional de etnólogos; e, em 1967, conseguiu a medalha de ouro de Centro Nacional de Pesquisa Científica da França.

Em 28 de novembro de 2008, por ocasião de seus 100 anos, recebeu a homenagem do mundo da cultura e da ministra da Cultura francesa da época, Christine Albanel, foi inaugura uma placa em sua honra no museu Quai Branly de Paris.

Obras Fundamentais

TRISTES TRÓPICOS: Mais que um livro de viagem, é um clássico da etnologia (1955). Além de trazer detalhes pitorescos das sociedades indígenas do Brasil, o livro discute as relações entre Velho e Novo Mundo e o significado da civilização e do progresso. Lévi-Strauss desloca parâmetros consagrados e

questiona viajantes e cientistas. O mundo dos cadiuéus, bororos, nhambiquaras e dos tupi-cavaíbas revelam seus próprios estilos e linguagens.

ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL: Publicada em 1958, a obra reúne artigos que propõem um empréstimo das teorias estruturalistas de Roman Jakobson, lingüista que Lévi-Strauss conheceu nos EUA, para renovar o método antropológico. Ela se divide em cinco partes: Linguagem e parentesco; Organização social; Magia e religião; Arte; e Problemas de método e de ensino. A obra será lançada pela Cosac Naify no dia 11.

O SUPLÍCIO DO PAPAI NOEL: A Cosac Naify lança, também no dia 11, O Suplício do Papai Noel, ensaio de 1952. Lévi-Strauss parte da queima de um boneco de Papai Noel em Dijon, França, em 1951, para analisar, por meio da antropologia estrutural, o significado das festas de fim de ano, a comercialização das datas tradicionais e a influência norte-americana nesse processo.

MITOLÓGICAS: Composta por quatro obras - O Cru e o Cozido (1964), Do Mel às Cinzas (1967), A Origem dos Modos à Mesa (1968) e O Homem Nu (1971) - a série analisa 813 mitos de diferentes povos indígenas do continente americano.

DE PERTO E DE LONGE: Em entrevista para o filósofo Didier Eribon em 1988, o antropólogo faz um balanço sobre sua história pessoal, formação intelectual e conceitos-chave de sua teoria.

HISTÓRIA DE LINCE: Segundo Lévi-Strauss, essa obra (1991) é a última incursão pela mitologia americana. Questões presentes em sua produção de mitólogo são retomadas e esclarecidas.

SAUDADES DO BRASIL: Obra de 1994 reúne fotografias feitas entre 1935 e 1939. Lévi-Strauss se deu conta de que poderia descrevê-las, localizando-as no tempo e no espaço, com auxílio da memória afetiva. Saudades de São Paulo, de 1996, também tem um depoimento em que se revisitam imagens de uma cidade onde o gado convivia com carros e bondes.

OLHAR, ESCUTAR, LER: De 1993, é escrita em tom de conversa, inteiramente dedicada à arte.

O PENSAMENTO SELVAGEM: No livro, de 1962, ele focaliza um traço universal do espírito humano - o pensamento selvagem que se desenvolve tanto no homem antigo como no contemporâneo.

Estadão

Ele se entediava com a filosofia. O Brasil o salvou. E levou-o a entender por que o pensamento selvagem nada tem de atraso

Gilles Lapouge, Correspondente


PARIS - "Toquei, compus, pintei, sempre com o mesmo insucesso", ele me confiou com suas pedras, seus bororos, suas flores, ele fazia o estruturalismo

(Este texto foi publicado originalmente em 22/11/2008)

Claude Lévi-Strauss nasceu em 28 de novembro de 1908, em Bruxelas, de pais franceses. Em breve será centenário. Isso é uma façanha, mas as relações que Lévi-Strauss manteve com a passagem do tempo sempre foram estranhas. Ele prefere o tempo que não passa.


Há alguns anos, ele me dizia que à força de freqüentar os povos "primitivos", seus mitos e suas fábulas, tinha virado um homem do neolítico. Não era uma boutade. Lévi-Strauss se debruçou, não sobre a "longa duração", mas sobre durações muito, muito longas, as durações letárgicas, quase paralisadas. A ciência que o solicitou e guiou com mais constância não foi nem a antropologia, nem a filosofia, nem a história, nem a sociologia. Foi a geologia.

Quando descobriu, muito jovem, Freud, ele viu a psicanálise "como uma aplicação ao homem individual de um método do qual a geologia representava o cânone". É fato que ele sempre manifestou um interesse singular pelos objetos da natureza - árvores e flores, animais, rios. Mas, entre todos esses objetos, foi a pedra que primeiro o fascinou, o pedregulho.

Uma bela pedra, um bonito veio de basalto ou uma chapada de arenito, e ele fica em transe. Uma de suas mais belas lembranças é geológica. Muito jovem, ele estava de férias nas Causses de Cévennes. Observando a montanha, ele imaginou, de repente, que ali estava, debaixo de seus olhos, ao alcance de

sua mão, algumas centenas de milhões de anos fixados e congelados no ponto de encontro de duas camadas geológicas entrelaçadas. Exultou.

Sua juventude conheceu outros prazeres. Seu pai era um pintor de retratos. Ele tinha o gosto pelas coleções, bem no espírito do século 18, quando se apreciavam os "gabinetes de curiosidades". A criança contraiu o vírus. Recolhia objetos desemparelhados, plumas, instrumentos musicais. "Aos 15 anos", ele conta, "eu era equipado com algumas convicções rústicas que ainda me guiam." Não seria sua obra um imenso e fabuloso "gabinete de curiosidades", dentro do qual ele ordena, classifica e ilumina, não os

objetos insólitos, mas mitos, modos à mesa, pensamentos selvagens ou não, fonemas, estruturas de parentesco?

Bons estudos. Primeiro, professor suplente de filosofia em 1931. Depois, professor titular. A filosofia o aborrecia. O Brasil o salvou. Ao conseguir um posto de professor na USP, exultou. Quanto à natureza, com o Brasil ele estava servido! Seu "olho deslumbrado mediu a riqueza e a variedade dos objetos". Ele passaria belos anos em São Paulo em companhia de uma plêiade de professores franceses excepcionais, o historiador Fernand Braudel, o "Bastidinho" (Roger Bastide) e o "Bastidão" (Paul Arbousse-Bastide), Jean

Maugüé, Pierre Monbeig.

Mas Lévi-Strauss não esqueceu que se afastou da filosofia para melhor se aproximar dos homens pela antropologia. Ele fez várias incursões nas terras dos bororos. Em 1938 aconteceu sua grande expedição para a Amazônia, Mato Grosso, na qual estudou os nhambiquaras e os tupi-kawahib. O Brasil é, pois,

uma das chaves de seu destino notável. Não só permitiu que Lévi-Strauss trocasse "uma cadeira de professor numa pequena cidade francesa pelo ensino numa das maiores cidades do mundo", como toda sua obra futura se articularia em torno do estudo das sociedades indígenas. O Brasil forma a coluna

vertebral dessa obra, uma das mais grandiosas deste tempo.

Por que o Brasil? Há 20 anos, ele me havia dito: "Cheguei ao Brasil por acaso. Eu poderia perfeitamente ter ido para um outro país. Do mundo, eu não conhecia nada... E, de repente, o Brasil. Eram os 'trópicos', com tudo que este termo evoca de poesia, de mistério, de literatura. Eu esperava uma grande aventura, tomar contato com uma natureza desconhecida e que nunca deixou de me fascinar."

Em 1939, a guerra. Ele voltou à França. Um dia, durante o recuo francês, ele estava escondido no campo com outros soldados. Para passar o tempo, observou uma flor de dente-de-leão. Esqueceu tudo, as bombas, as metralhadoras, para "admirar a estrutura maravilhosamente regular". Esse dente-de-leão, ou as outras flores, nunca deixou de ser mencionado na obra por nascer.

Como judeu, o professor Lévi-Strauss foi destituído pelo governo colaboracionista do marechal Pétain. Ele chegou a ir para os EUA, onde lecionou na New School for Social Researches. Conheceu o lingüista Roman Jakobson, que inventara, para aplicar em suas pesquisas acadêmicas, a "análise estrutural". Lévi-Strauss se entusiasmou. Com suas pedras e suas flores, com seus bororos, ele fazia, em suma, "estruturalismo sem o saber".

Jakobson forneceu-lhe o instrumento para esse "estruturalismo" que, daquele momento em diante, inspiraria todo o trabalho de Lévi-Strauss, assim como o de outros grandes do século, como o psicanalista Jacques Lacan.

Após a guerra, em Paris, Lévi-Strauss tornou-se subdiretor do Museu do Homem. Começou então a construção de sua obra, este formidável monumento de palavras que revolucionou não só a antropologia, mas também o olhar que lançamos sobre o mundo e sobre todos os seus locatários, do craveiro ao

musaranho, dos homens às nuvens.

Os títulos se sucederam: As Estruturas Elementares do Parentesco em 1948, Raça e História, em 1952, depois Tristes Trópicos, em 1955, obra romântica, dilacerante às vezes, quase budista. Apesar de confessar que o homem, no universo, é tão somente uma anedota, um traço, ela atinge uma espécie de

alegria esplêndida e melancólica.

Após a guinada para o registro literário e romântico de Tristes Trópicos, Lévi-Strauss retornou escrupulosamente a sua disciplina de pesquisador. Totemismo Hoje (1962) surpreende. Suas primeiras palavras dão o tom: "Il en est du totémisme comme de l'hysterie" (numa tradução livre, o totemismo é

tão real como a histeria). Ele quer dizer com isso que se trata de uma ilusão, de uma construção arbitrária, ligada a certezas etnológicas equivocadas. Segundo ele, os componentes do totemismo se relacionam à atividade "classificadora" que se encontra em produção no mundo inteiro.

A obra seguinte, O Pensamento Selvagem, exploraria esse novo filão. Para ele, o pensamento selvagem não é o pensamento dos selvagens, mas o pensamento "não domesticado", natural, que está em produção em cada homem, e que organiza com estardalhaço as formas de arte, as maneiras de viver, os costumes, o saber popular, as taxonomias, os vocabulários, etc.

Contrariamente ao que o termo "pensamento selvagem" poderia sugerir, ele mostrou que esse pensamento é ativo, minucioso, sutil, não pára de classificar, de comparar, de fazer e desfazer relações, de distinguir, de transformar por jogos de relações extremamente delicadas, e que chegam assim

mais perto do real, atestando pelo mesmo o parentesco e quase a similitude entre os objetos naturais e o espírito, sendo o espírito ele próprio um desses objetos.

A etapa seguinte explorou a mesma via. Com Mitológicas, ele resolve "classificar" uma produção fervilhante, intangível, bizarra, incerta, e que parecia a mais avessa a qualquer classificação: os mitos. Durante 10 anos, ele colecionou os mitos, os comparou, emparelhou suas maneiras de narrar, buscou seus parentescos e suas dessemelhanças. O material sobre o qual trabalhava era infinito: um milhar de mitos provenientes de 200 povos indígenas das Américas. O resultado é soberbo. Quatro grossas obras: O Cru e o Cozido, Do Mel às Cinzas, Da Origem dos Modos à Mesa, O Homem Nu.

Persiste, a meu ver, um mistério nessa obra a um só tempo difícil e magnífica. Como foi que esse homem, capaz de nos oferecer esse grande poema noturno que se chama Tristes Trópicos, não teve a tentação de acompanhar sua produção científica com uma exploração mais literária? Eu fiz-lhe essa

pergunta um dia. Sua resposta foi sem rodeios. Era evidente que ele teria amado poder escrever romances tão belos como "os de Dickens, de Conrad ou de Proust", mas não tinha os recursos para isso. "Quando era adolescente, eu me sentia capaz de tudo: pintura, música, literatura, sim, nada me assustava e tentei todas essas formas de arte. Eu escrevi, pintei, compus. Toquei todos os instrumentos da música, do violino ao acordeão, e sempre com o mesmo insucesso."

Claro, eu não acreditei em uma só palavra de seus argumentos. Os recursos literários, ele mostrou que os dominava à perfeição, não só em Tristes Trópicos. Então, por que ter rodado toda a vida em torno da poesia, em torno da música, em torno da filosofia, em torno do romance, sem contudo penetrar neles? "Quando muito", ele disse com aquele humor britânico do qual nunca se separou, "quando muito eu realizei pequenas investidas furtivas nos territórios privados da filosofia."

Eis que o homem das longas durações se acerca de seu centésimo ano. A glória o envolve. Imagino que ele acolha esse aroma com aquele sorrisinho discreto que nele representa o ápice do entusiasmo. Um de seus amigos em São Paulo, o professor francês Jean Maugüé, fala de Lévi-Strauss em um de seus livros:

"No fundo, Lévi-Strauss nunca se interessou pelas coisas que desaparecem."

Há alguns anos, lembrei a Lévi-Strauss esse juízo de Jean Maugüé. Ele pareceu surpreso, de início, mas depois me disse: "Ah, Maugüé dizia isso? Eu mesmo o poderia ter dito."


TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

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