quarta-feira, 18 de novembro de 2009

No vácuo de Lula

SÃO PAULO - Lula acredita que o Tribunal de Contas da União é um entrave ao progresso do país. Seu governo quer manietar o TCU para reduzir os efeitos práticos da fiscalização das obras e da aplicação dos recursos públicos. Lula também disse há pouco que a imprensa não deve fiscalizar o poder, mas informar seus leitores. Se for mais que um jogo de palavras, trata-se de uma defesa do jornalismo subalterno. Seria, claro, um enorme retrocesso, mas o traço obscurantista foi logo assimilado ao repertório de disparates de Lula a que, afinal, estamos habituados.

O lulismo começou esvaziando a desconfiança dos mercados. Depois esvaziou os partidos, os movimentos sociais, os sindicatos autônomos, o que restava de vida intelectual independente no país.

Lula ficou cheio de si e hoje aglutina um poder quase incontrastável. Mas, apesar das bobagens que diz, se mantém um democrata. Talvez tenha razão quem acha que Lula representa a parte boa do PT.

Sua aclamação popular, porém, dá ensejo para que o governo venha flertar com tentações autoritárias, bem ao gosto dos "neoestatólatras". Parece ser este o caso da Confecom -a conferência organizada por Franklin Martins para discutir a regulação das comunicações no país.

Segundo as propostas compiladas pelo Planalto, e reportadas ontem por esta Folha, fica claro que a intenção é expandir e facilitar os negócios da mídia estatal, como a TV Brasil, que ninguém vê, e fortalecer a mídia privada regional e/ou comunitária, que hoje já é dependente da verba do Estado e na prática faz propaganda do governo. Sob a retórica da democratização, o que se busca é esvaziar a imprensa independente, aquela que fiscaliza e dá azia em Lula todas as manhãs.

Seria essa uma demanda da sociedade e da democracia ou uma agenda motivada por algum ressentimento pessoal? Seria uma iniciativa da gestão Lula ou do governo paralelo que o futuro primeiro-ministro começa a operar a serviço de Dilma Rousseff?


Folha de São Paulo

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