quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A politização do Enade


A instrumentalização política da máquina administrativa federal não está poupando nem mesmo as áreas mais técnicas do setor educacional, como o sistema de avaliação do ensino superior. Das dez questões de conhecimentos gerais comuns às 27 carreiras profissionais avaliadas pelo Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), que foi aplicado a mais de 1 milhão de estudantes no último domingo, pelo menos seis fazem propaganda do governo e tratam determinados problemas de forma a elogiar iniciativas do presidente Lula e a classificar como preconceituosos os veículos de comunicação que o criticam.

Em quase todas essas questões, as respostas certas são as alternativas favoráveis ao governo ou as que se caracterizam pelo preconceito ideológico. Duas questões têm em seu enunciado elogios a uma campanha para a redução do consumo de sacolas plásticas, lançada em junho deste ano pelo Ministério do Meio Ambiente, e à criação do Índice Geral de Cursos pelo Ministério da Educação (MEC) para "orientar o público sobre a qualidade do ensino". Uma terceira questão destaca, de forma subliminar, a importância do PAC, da exploração do petróleo encontrado na plataforma submarina e da concessão de incentivos fiscais à indústria automobilística, pelo governo, "para que o Brasil pudesse se livrar com maior rapidez da crise econômica".

Na pergunta sobre as "ações que não contribuem para a formação de uma sociedade leitora", a alternativa correta é a que afirma que "a desaceleração da distribuição de livros didáticos para estudantes das escolas públicas, pelo MEC", enriqueceria editoras e livreiros. Numa questão sobre eventuais manipulações de resultados das corridas de Fórmula 1 e a maneira como eles têm sido divulgados, todas as alternativas criticam os órgãos de comunicação. E a resposta correta é a que enfatiza a "negligência ou omissão dos profissionais na apuração real dos fatos". A questão mais ilustrativa da instrumentalização do Enade é a que menciona as críticas feitas pela imprensa brasileira a Lula, em 2008, por ter afirmado que a crise financeira seria um tsunami nos EUA e uma simples "marolinha" no Brasil. O enunciado diz que a imprensa internacional confirmou a "previsão" do presidente e os alunos são orientados a considerar a "realidade atual da economia no Exterior e no Brasil" e julgar se houve por parte dos críticos de Lula "atitude preconceituosa", "irresponsabilidade", "livre exercício de crítica", "manipulação política da mídia" ou "prejulgamento".



Ao justificar a pergunta, o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Reynaldo Fernandes, afirmou que ela nem elogia nem critica o presidente Lula, pois a resposta correta seria "livre exercício de crítica". Esta não é, contudo, a opinião de professores e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). "Parece um discurso de autodefesa de Lula, quase ufanístico. O presidente tinha razão, mas somos uma democracia e temos de tolerar as críticas. A pergunta é tendenciosa", diz o professor Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília. "Está mais para relações públicas e propaganda do que para uma prova com o objetivo de verificar o conhecimento dos estudantes. A pergunta confirma a opinião do presidente, o que acho discutível. Não é um consenso que a crise tenha sido superada. Para quem perdeu o emprego, foi uma baita de uma crise", afirma o jornalista Sérgio Murillo de Andrade, presidente da Fenaj.



Segundo o MEC, todas as perguntas da prova do Enade deste ano, que é obrigatório para os estudantes que concluem o ensino superior, foram produzidas por uma conceituada empresa de consultoria em recursos humanos, com base em diretrizes estabelecidas por sete professores escolhidos pelo Inep. Evidentemente, não existem fórmulas para se afastar o risco de politização ou ideologização de questões de conhecimento geral. Por isso, o MEC e o Inep deveriam ter tido mais cuidado para evitar perguntas que dessem margem a suspeitas de alinhamento político, culto à personalidade e proselitismo ideológico, que corroem a credibilidade dos mecanismos de avaliação de ensino.

Editorial O Estado de São Paulo

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