sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sindicato pró-Kirchner sitia ''Clarín'' e ''La Nación''


Menos de 48 horas antes do início da 65ª assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que começa hoje na capital argentina, as instalações dos jornais Clarín e La Nación foram bloqueadas pelo sindicato dos caminhoneiros, liderado por Pablo Moyano, filho de Hugo Moyano, secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), organização aliada do governo da presidente Cristina Kirchner.

O bloqueio protagonizado pelos caminhoneiros - que impediram a saída de mais de 700 mil exemplares de jornais e revistas - começou na madrugada da quarta-feira e estendeu-se, com algumas interrupções, ao longo do dia. Não houve intervenção policial para a retirada do bloqueio.

De hoje até terça-feira, representantes da SIP debaterão as leis sobre a mídia que governos da região aplicaram nos últimos anos e que geraram restrições à liberdade de imprensa.

A paralisação da venda de jornais argentinos na quarta-feira foi o resultado do bloqueio ordenado por Moyano, cujo objetivo formal era o de conseguir 300 filiados adicionais para seu sindicato. Segundo Moyano, as empresas não cumpriram o acordo de incluir os funcionários que trabalham com a distribuição de jornais e revistas no sindicato dos caminhoneiros.

Analistas políticos, porém, viram no bloqueio aos principais jornais do país o objetivo de reafirmar a determinação da administração Kirchner de pressionar os meios de comunicação argentinos com posturas críticas sobre o governo.

Ontem, o ministro do Interior, Florêncio Randazzo, negou que o governo estivesse por trás do bloqueio dos caminhoneiros.

CENSURA

A Associação de Entidades Jornalísticas da Argentina (Adepa) emitiu um comunicado no qual ressaltou que o bloqueio aos jornais é "um flagrante caso de censura e de dano à liberdade de imprensa". Líderes da oposição também protestaram.

Um dos principais assuntos do encontro da SIP será o estado de conflito permanente entre o casal Kirchner - a presidente é casada com Nestor Kirchner, que a antecedeu no cargo e tem grande influência no governo - e a imprensa, além de mecanismos "sutis" aplicados na região para o controle da mídia.

O encontro contará com a presença de representantes dos principais jornais do continente, além de três ex-presidentes sul-americanos que foram jornalistas - o uruguaio Julio Maria Sanguinetti, o boliviano Carlos Mesa e o colombiano César Gaviria.

O governo mantém um intenso confronto com a mídia desde a posse de Nestor Kirchner, em 2003. O conflito intensificou-se a partir de março do ano passado, quando o casal presidencial desferiu uma guerra contra o Clarín, o jornal de maior tiragem na Argentina.

A partir de junho, as pressões sobre o setor aumentaram, com a intervenção do governo no setor de mídia, que pressionou para que a Associação de Futebol da Argentina (AFA) finalizasse abruptamente o contrato que tinha com a empresa TyC para a transmissão dos jogos de futebol. Kirchner ofereceu à AFA um contrato com valores maiores para estatizar as transmissões dos jogos.

Na sequência, a presidente Cristina Kirchner suspendeu a fusão entre as empresas de TV a cabo Multicanal e Cablevisión (operação aprovada por seu marido dois anos antes), prejudicando o dono de ambas, o Grupo Clarín. De quebra, há poucas semanas, o governo conseguiu a aprovação do Congresso para a polêmica lei de mídia, que impõe a desconcentração da propriedade dos órgãos de imprensa no país.

Como contraponto à reunião da SIP em Buenos Aires, o governo da Venezuela convocou o Primeiro Encontro Internacional de Meios e Democracia na América Latina, na própria capital argentina. O evento do líder bolivariano Hugo Chávez é patrocinado pelo governo argentino.

Um dos principais conferencistas será o autor da polêmica lei de mídia argentina, Gabriel Mariotto, interventor do Comitê Federal de Radiodifusão (Comfer). Outra das estrelas do evento será o venezuelano Andrés Izarra, presidente da rede de TV Telesur, usada desde sua criação como tribuna do governo de Chávez. Parlamentares discutirão os "monopólios midiáticos" na região.

A embaixada venezuelana, além do evento jornalístico paralelo, também promoverá uma passeata para protestar contra a SIP.


Estadão

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