segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Torpor e poder


Como as verbas destinadas às ongs companheiras e milhares de cargos criados dentro das grandes instituições nacionais, estatais e governos, Lula pensa que o Brasil é uma extensão de seu gabinete, de seu poder, de seus interesses. Assim sai montado em jato presidencial, de bota e roseta, demarcando o território nacional, fazendo de seu governo, das verbas e obras federais, o palanque despudorado das eleições do ano que ainda vem. É a privatização partidária do que é público, a bolsa ideológica da administração federal.

Há uma omissão covarde tomando conta do Brasil. Há um desejo barato de não se indispor com o poder atual e futuro. Há uma conveniência em não se expor e isso toma conta de todo os poderes, das entidades de classe, das instituições. Vivemos, desde sempre no Brasil, uma democracia da conivência, coisa de gente menor, coisa de povo menor, cada um com a sua bolsa familiar, cada um com seu mensalão ideológico, que compra o mais pobre agricultor e o mais destacado senador.

É o Brasil do medo que paralisa os braços, que cala a voz dos abastados, que aluga o indignado. Onde vai parar isso, não sei! Apenas vejo o desfile, desfraldado, em plena luz do dia, da caravana dos eleitos, aqueles que quando não compram, alugam. Vão dizer, como resposta, o que sempre ouvimos, que a caravana passa, enquanto os cachorros ladram. O poder é mesmo revelador!

Fico imaginando a grita petista que seria no Congresso se um outro presidente fizesse um décimo do que Lula fez até aqui para a sua candidata, aquela que se tornou estrela pop star da súcia planaltina, a ventríloqua do continuísmo. A democracia brasileira é uma democracia dos interesses, dos grupos, uma democracia privatizada e privativa.

No nordeste, no sul e no sudeste, onde tem obra, tem palanque; onde tem povo, tem discurso; tudo financiado pelo caixa um de nossos impostos, pelo Estado pelego, que só faz o que manda e pensa o patrão. Esse é o Brasil do presente, o eterno Brasil do passado. Um povo que vota e escuta discursos com a barriga cheia, com a marmita quente. A diferença talvez seja apenas essa: hoje, a marmita está quente, quando sempre esteve fria e, muitas vezes, vazia. É o néscio posando de super homem. Há aí uma paródia cruel do que é o ser brasileiro. Retrato de nossos dias, retrato de uma nação, infelizmente!

Enquanto isso, assistimos nosso presidente exibindo a nítida certeza da eterna impunidade, fazendo de um monte de terra o palanque para suas idéias e suas provocações. Coisa de sindicalista, que faz do discurso uma eterna cachaça, desfrutando do embriagante torpor do poder.

Petrônio Souza Gonçalves - é jornalista e escritor.

Petroniosouzagoncalves.blogspot.com

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