domingo, 20 de dezembro de 2009

A ética distorcida


Chego a ficar comovido com o fato de os petralhas se preocuparem com o meu futuro mais do que eu mesmo e do que a minha família. Se Dilma ganhar, eles prevêem, revelando a sua [dos petralhas] natureza vingativa e totalitárias, dias muito difíceis para mim. Em outros tempos, esse tipo de delinqüência acenaria com aquela generosidade dos fortes. “Ganhamos? Ah, deixem o cara aí como o ‘menino de MEP’, né?, dando cotoveladas e chutes. Afinal, todo mundo tem o direito de resistir ao hálito das trevas na nuca…” Que nada! Eles querem mesmo consumar a violação do direito à divergência. Eles não têm nenhum receio de revelar qual é o seu intento. Porque isso é mesmo da natureza do pensamento que abraçam. Essa gente é só a periferia da esquerda, sei bem; não tem teoria, conceito, nada; não lê um miserável livro que oriente suas escolhas. Mas percebeu direitinho qual é a metafísica. Assim, eles imaginam uma Dilma vitoriosa e um Reinaldo esmagado — eu e qualquer outro que ouse divergir.

Caso o vitorioso seja José Serra, aí eles me vêem como um desses esbirros que andam por aí com sua isenção sempre a favor do governo, porta-voz informal do poder, a justificar com igual destreza o certo e o errado. E ainda indagam: “Sem falar mal do Lula, o que vai lhe restar?” Pra começo de conversa, quem disse que eu deixaria de “falar mal de Lula” (para ficar na linguagem que eles abraçam)?

Lula não me interessa. Ele me provoca mais preguiça do que excitação intelectual (como poderia?). Essa espetacularização a que ele submete sua vida privada desperta em mim aquele sentimento da “vergonha alheia”, que vocês sabem muito bem o que é; aqueles momentos em que você se constrange no lugar do outro. Eu me ocupo de Lula como figura central de um partido político que tem um projeto de poder. E escrevo “projeto” porque a obra ainda está longe do fim — segundo seus próprios seguidores —, embora em curso.

Eu me ocupo de Lula como principal expoente de uma visão de estado e de sociedade que eu repudio. E já escrevi aqui: pouco me importa saber se o governo está dando “certo” ou “errado”; se está indo “bem” ou “mal”. Tenho uma medalha no peito ao menos: escrevi na revista Primeira Leitura que era bobagem imaginar que Lula faria um governo desastroso. Ao contrário, observei, será até mais convencional em economia do que Serra - e estávamos em 2001. Nunca antevi a catástrofe. O QUE EU FALEI, SIM, FOI OUTRA COISA, BEM MAIS SÉRIA, BEM MAIS SEVERA: “O MAIOR RISCO QUE O BRASIL CORRE É O GOVERNO DO PT DAR CERTO!!!”

Vejam que brutal honestidade intelectual, não? E esse “dar certo” queria dizer justamente isso que temos. O PT governa o Brasil segundo as regras da economia de mercado — ou quase (*) — e, em troca, vai nos pedir que lhe cedamos pedaços da institucionalidade; em troca, vai no pedir um país menos democrático, menos livre, menos subordinado às regras do estado democrático e de direito.

E isso está em curso. E, por isso, eu os repudio. E continuarei a repudiá-los, pouco me importa quem esteja no poder: o próprio Lula, Serra, Dilma ou J. Pinto Fernandes. Ademais, conhecemos muito bem como os petistas se comportam quando estão na oposição: com o mesmo desrespeito pelas instituições! Se, no poder, não punem as invasões de terra; na oposição, eles as estimulam (a exemplo do que fazem em São Paulo); se, no poder, eles tentam controlar a imprensa, a exemplo das propostas estapafúrdias saídas da tal Conferência de Comunicação de Franklin Martins, na oposição, eles se tornam as principais fontes de vazamento de informações sigilosas; se, no governo, são eles a pedir uma Constituinte, na oposição, eles tentam sabotá-la, como se viu com o processo que resultou na Constituição de 1988; se, no governo, eles propõem uma reforma da Previdência, como fizeram, na oposição, eles põem a tropa na rua contra essa mesma reforma; se, no governo, eles chamam a Lei de Responsabilidade Fiscal de inegociável, na oposição, eles recorrem ao STF contra ela; se, no governo, fazem o mensalão para comprar partidos e parte do Congresso e negam que tenham praticado qualquer crime, na oposição, eles põem a tropa na rua contra… o mensalão!

A lista seria infindável! E essa moral não me serve, pouco me importa se a economia cresce 0,1%, 1%, 10% ou 100%. Fosse esse o meu parâmetro, chamaria a tirania chinesa de governo exemplar — afinal, nenhuma economia cresce tanto como aquela e tira tantas pessoas da pobreza. É o crescimento chinês que garante o bom momento do Brasil — pelo menos até que os doidos no aquecimento global não decidam que aquele país tem de crescer só 4%… E a China provoca em mim nada menos do que horror, com seu totalitarismo eficiente. EU NÃO NEGOCIO LIBERDADES PÚBLICAS POR UM POUCO MAIS DE ARROZ. “Ah, mas os miseráveis negociam”. RESPONDO ASSIM: QUE OS MISERÁVEIS TENHAM COMIDA, MAS EU NÃO OS ESCOLHEREI COMO GUIA DAS MINHAS UTOPIAS; TAMBÉM NÃO CREIO QUE DEVAM SER REFERÊNCIA EM MATÉRIA DE LIBERDADE. O fascismo foi “eficiente” por um largo período. Como foi o stalinismo.

Repudio de modo veemente, claro, explícito, as tentações totalitárias do PT, expressas até num programa político em que vai apresentar a sua candidata; repudio aquela linguagem da divisão, do confronto, do ódio, do esmagamento do outro; repudio seu compromisso reiterado com a mentira — mente de modo miserável sobre o passado para chamar para si não apenas as glórias que tem, mas também as que não tem. De novo: pouco me importa quantos acreditam. Não é a crença da maioria que faz uma verdade.

LULA PODERIA MUITO BEM ENGORDAR A SUA BIOGRAFIA COM HEROÍSMOS QUE NUNCA TEVE, MAS NÃO PRECISARIA ROUBAR A BIOGRAFIA ALHEIA PARA ISSO.


Reinaldo Azevedo

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