sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A Formação do Estado de Israel - capítulo 4


São muitos os nomes pelos quais Jerusalém, terra sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos, foi conhecida ao longo de 3.000 anos de história. Seu mais famoso epíteto, porém, prova-se mais uma vez também o mais irreal. Açoitada por quase três semanas de pérfida batalha entre a legião árabe e as forças de defesa judaicas, que já produziram mais de mil baixas civis, Jerusalém fechou o mês de independência de Israel sob a ameaça de desabastecimento e fome para os 80.000 judeus da Cidade Nova. O cerco ferrenho da Terra Santa pelas tropas da Transjordânia, já senhoras da Cidade Antiga, é apenas o mais novo capítulo do infausto destino infligido pelo homem àquela que é ilusoriamente chamada de "Cidade da Paz".
O rei Abdullah: um desejo inabalável

Depois da vaga de violência que correu em paralelo aos estertores do mandato britânico na Palestina, Jerusalém foi tema de inúmeras reuniões e deliberações dos delegados das Nações Unidas. Mas a solução diplomática não é opção para o rei hashemita da Transjordânia, Abdullah, em cujas entranhas reside o desejo inabalável de capturar a cidade para compensar a perda de Meca e Medina para a dinastia saudita em 1925. Por isso, o monarca desprezou o plano de batalha da Liga Árabe, que determinava o engajamento da Legião em Haifa e no norte da Palestina, e enviou seus 4.500 homens rumo à Jerusalém, sob o comando do general britânico John Bagot Glubb. No último dia 19 de maio, os primeiros legionários chegaram à Cidade Antiga, enclave histórico dividido entre comunidades armênias, gregas, muçulmanas e de judeus ortodoxos. Uma única unidade da Haganá ficou responsável pela defesa da área, mas não foi páreo para a artilharia da Legião Árabe. No dia 28, os judeus locais, sem armas, sem munição e sem comida, renderam-se. A recente notícia da capitulação chocou a comunidade judaica pelo mundo; a idéia de que a Cidade Antiga e seus locais sagrados, como o Muro das Lamentações, agora estão sob controle do reino hashemita certamente não foi a boa-nova esperada pelos sionistas.

Do ponto de vista militar, contudo, a perda tem pouca significância – é a Cidade Nova, complexo urbano onde reside a maioria absoluta dos judeus, o coração da resistência do estado de Israel. Desde o início de maio, prélios selvagens ali se sustentam. Cerca de 2.000 legionários, amparados por uma artilharia de primeira grandeza, assacaram a Cidade Nova pelo norte, buscando forçar sua entrada na região habitada. As tropas da Haganá, ainda que em desvantagem numérica e com equipamento improvisado – morteiros caseiros são a principal arma dos judeus – conseguiram conter o avanço.

Tropa de burros: animais de carga ajudam a limpar as ruas e espantar a febre tifóide

O general Glubb, então, passou a concentrar seus esforços no front sul da Terra Santa – onde, no início do mês, tropas da infantaria egípcia já haviam atacado o kibutz de Ramat Rachel, na entrada da cidade. Novamente, porém, a tenaz resistência dos judeus surpreendeu os árabes, que suspenderam momentaneamente o ataque. Ao menos por enquanto, portanto, a possibilidade de invasão árabe da Cidade Nova está descartada, apesar de as cicatrizes causadas pelas cerca de 10.000 bombas jogadas sobre Jerusalém estarem longe de ser curadas.

Cerco apertado - Uma outra ameaça segue pairando sob os habitantes da Terra Santa. Sitiados, os judeus têm sofrido com o racionamento de água e alimentos – nos embates anteriores à retirada dos britânicos, os árabes conquistaram os acessos a Jerusalém. Contudo, todas as tentativas das forças de Israel para recuperar Latrun, hoje base de controle árabe na rodovia, têm se mostrado desastrosas. No dia 25, os homens do comandante Shlomo Shamir lançaram-se desesperadamente contra o quarto regimento da Legião Árabe, sem reconhecimento do terreno ou apoio de artilharia. Favorecidos pelas posições mais altas do vilarejo, os defensores repeliram de forma violenta os judeus, que registraram massivas perdas de vida. A Haganá ainda repetiria a ofensiva nos dias subseqüentes – em tentativas igualmente infrutíferas, que não representaram nenhuma ameaça à superioridade árabe em Latrun.

Na mira: judeus lutam pela 'cidade da paz'

Com o cerco apertado e a situação cada vez mais periclitante para os hierosolimitas (os moradores de Jerusalém), o exército de Israel agora deposita suas fichas em uma arriscada e improvável alternativa de abastecimento. Nas últimas semanas, o comando judaico vem usando uma trilha ao sul de Latrun e Bab al-Wad a fim de levar soldados, a pé, para dentro de Jerusalém. O coronel David "Mickey" Marcus, judeu americano formado na academia de West Point e que serve como voluntário no Oriente Médio, considerou que esse caminho pudesse ser alargado para a passagem de veículos com mantimentos e armamentos. Autorizados pelo comandante Yigael Yadin, centenas de trabalhadores labutam incessantemente ao longo da trilha, dinamitando pedras e abrindo alas antes que a trégua da ONU entre em vigor.

Se a "Estrada da Birmânia" (assim batizada em homenagem ao caminho usado pelos aliados para levar materiais à China antes do confronto com o Japão na Segunda Guerra Mundial) ficar pronta a tempo, os judeus da Cidade Nova, com suprimentos de água e comida regularizados, terão a oportunidade de renovar suas energias no cessar-fogo e voltar para a contenda com força total. Caso contrário, os dias que se seguirão a partir de 11 de junho serão os mais longos da história de Jerusalém – e o rei Abdullah poderá, ao final da trégua, celebrar a anexação também da parte moderna da cidade, rendida pela fome.

Revista Veja

Nenhum comentário: