segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Falastrão de Havana

Onde vai parar a temerária aventura de Fidel Castro Ruz, o comandante dos barbudos da revolução cubana, em seu embuste como chefe de estado autêntico e honrado? Com a crise dos mísseis, seus vizinhos mais próximos testemunharam a prova definitiva dos severos riscos a que estão submetidos em função da presença de Castro no poder. O jovem ditador da ilha caribenha foi salvo por um fio no acordo enredado entre John Kennedy e Nikita Kruschev. Mas quem é capaz de garantir que o primeiro-ministro não colocará tudo a perder na próxima oportunidade de fingir-se de líder mundial? Que Fidel Castro gosta de extrapolar os limites, todo mundo já sabe. A grande dúvida agora é adivinhar até que ponto o falastrão cubano chegará na condução de seus dois mais imprudentes empreendimentos – o desafio cada vez mais agressivo à superpotência capitalista e a sociedade explosiva com a superpotência comunista (encarregada, a partir de agora, de assegurar a sobrevivência dos barbudos). Mais do que nunca, graças a Castro, a Guerra Fria torna-se um confronto ideológico verdadeiramente global, em que os gigantes do Ocidente e do Oriente, não mais saciados com o domínio regional, levam a batalha para além de suas esferas de influência. O mais espantoso é que, há apenas três anos e meio, o pivô dessa transformação era acolhido como herói em solo americano, onde repetia sem parar: "Sou contra todos os tipos de ditadores. Sou contra o comunismo".

Naquela visita, ocorrida em abril de 1959 – apenas quatro meses depois do triunfo dos revolucionários de Sierra Maestra –, Fidel Castro era tratado como o rebelde populista e meio pândego que havia libertado Cuba da tirania de Fulgêncio Batista. O ditador canalha deposto pelos guerrilheiros fez da corrupção e da expansão da miséria suas grandes marcas. Ao fugir da ilha, não tinha mais o apoio dos americanos. Já diante de Fidel, a reação de Washington era de perplexidade. A improvável vitória de suas tropas, que dois anos antes se resumiam a um bando de esfarrapados marchando pelas montanhas cubanas, não era esperada. Com a deposição de Batista, os americanos também não contavam com a ascensão do comandante militar à chefia do governo. Quando desembarcou em Washington, a maior preocupação do governo era impedir que Castro fosse assassinado por algum simpatizante do antigo ditador. Mas era difícil segurar o cubano: para desespero dos agentes do Serviço Secreto, o visitante se esbaldava entre apertos de mão, abraços e elogios de seus fãs americanos. Depois de muita adulação nas recepções públicas e palestras, Fidel Castro passou sua última noite nos EUA no campus da Universidade Harvard, nos arredores de Boston, a convite do reitor McGeorge Bundy – ironicamente, hoje assessor de confiança de Kennedy. Num animado jantar, o cubano confidenciou ao anfitrião que fora rejeitado por Harvard vinte anos antes. Horas depois, ao apresentar Fidel aos 8.700 estudantes e professores reunidos para ouvir seu discurso, o reitor afirmou que a universidade tinha errado ao barrar sua inscrição. Ofereceu, então, uma matrícula ao palestrante.

Trio de ferro: Fidel, Raúl e Che Guevara

Paquera, namoro e noivado - Sabe-se agora que, naquela mesma semana, o irmão mais novo de Fidel, Raúl Castro, também participante da revolução, já ensaiava uma parceria futura com Moscou. As circunstâncias da aproximação ainda são cercadas de mistério, mas é seguro dizer que Raúl e o argentino Ernesto "Che" Guevara eram os responsáveis pela ideologia comunista na cúpula do movimento revolucionário cubano. A dupla entrou várias vezes em conflito com Fidel por causa da paquera com os soviéticos. O primeiro-ministro também desautorizou Raúl e Che publicamente em temas como a declaração pública da natureza comunista do novo regime (uma bandeira do irmão caçula) e da formação de uma milícia para defender o poder recém-conquistado na ilha (projeto mais sonhado pelo argentino). Desesperados com a vacilação de Fidel, ambos ameaçaram abrir dissidências ou simplesmente fazer as malas e partir. Perturbado com as promessas de oposição de seus dois mais próximos aliados, Castro sentia-se preso entre a dependência que tinha deles e o desejo inabalável de manter o poder em Cuba. Mas Fidel não era marxista, e sim o primeiro fidelista da história. Ele acredita ser a personificação da nação cubana e o herdeiro legítimo dos revolucionários Simón Bolívar e José Martí, seus grandes heróis. Sua obsessão era encontrar uma maneira de garantir o controle sobre os rumos da revolução e os destinos de seu povo. Quando percebeu que a melhor saída seria construir uma ditadura vermelha em pleno Mar do Caribe, comprou o plano de Raúl e Che. Depois de um namoro cada vez mais às claras, veio o noivado: num discurso radiofônico transmitido em dezembro do ano passado, Castro declarava ser um "marxista-leninista" e anunciava a adoção do comunismo à moda soviética em Cuba.


O aprendiz de caudilho, que já levara Dwight Eisenhower a romper relações com a ilha menos de um ano antes, logo seria alvo das primeiras sanções econômicas de Washington. Os castigos impostos pelos EUA alimentaram ainda mais sua inflamada retórica antiamericana. Mas a população, que no geral gostava de ver o comandante provocando os "ianques", começava a desconfiar da utilidade da contenda – afinal, faltava cada vez mais comida à mesa, e a atmosfera de intimidação e pavor era cada vez mais evidente. John Kennedy ainda ajudou a mobilizar as massas cubanas nas trincheiras abertas por Castro com seu patrocínio à vexaminosa invasão da Baía dos Porcos, em abril do ano passado. O cotidiano brutal da ilha, agravado neste mês com o temor de uma ofensiva maciça dos EUA, logo dissipou o clima de união nacional e dividiu de vez a sociedade cubana. Os partidários de Fidel Castro se oferecem para as linhas de frente, cheios do orgulho nacionalista instigado pelo duelo com o Golias americano. O resto da população, no entanto, vive uma situação calamitosa. Depois de padecer para exorcizar a camarilha de corruptos que perpetuava a pobreza nos antigos governos, o povo cubano continua na miséria – agora acompanhada da perseguição política e do caos institucional. A Havana de antes, vibrante, festeira e de beleza inebriante, já não existe mais. No terreno da capital moderna e alegre brotou o núcleo de uma tirania física e espiritual. O ritmo buliçoso e quente da cidade, ditado pelos sons de rumba, chachachá, salsa e merengue, foi trocado pela batida enfadonha dos coturnos nas patrulhas militares que vigiam os moradores e espalham o medo.

'Habana Libre' - Apesar da opressão que mantém muitas pessoas longe das ruas, Havana amarga um permanente estado de desordem. É a capital mundial das filas: é preciso esperar longas horas por vistos e passaportes, por reservas de passagens nas poucas companhias aéreas que ainda viajam à ilha, pelos escassos mantimentos dos cartões de racionamento. O trânsito é sempre infernal – não pelo vigor do comércio de automóveis, mas sim pelo giro de caminhões militares abarrotados de jovens recrutas e dos canhões e tanques estacionados no Malecón, a movimentada avenida da orla. Os grandes magazines estão com as prateleiras vazias, e os hotéis de luxo deixaram de receber os turistas estrangeiros. Estão lotados de soviéticos, checos, poloneses e chineses, que pagam diárias de albergue estudantil para ocupar as melhores suítes. Erguido no elegante bairro de Vedado, o Hilton Havana, cinco estrelas imponente que custou 35 milhões de dólares aos americanos, foi transformado no quartel-general de Castro depois da revolução. Roubado do grupo hoteleiro Hilton, agora se chama "Habana Libre".

Mas talvez o sintoma mais alarmante do ocaso de Havana seja a presença dos milhares de indigentes que ocupam suas praças e avenidas. Antes uma cidade cosmopolita, a capital agora é a meca dos camponeses pobres atraídos pelas promessas de fartura e conforto de Fidel. Alguns desembarcam na ilusão de matar a fome. Outros se recusam a voltar para suas terras antes que o governo concretize suas esperanças. Nos dias que antecederam a crise dos mísseis, Cuba lidava com outro problema. As agências de notícias internacionais informavam que o ano letivo começou com um mês de atraso nas escolas primárias. O motivo: assustados com a doutrinação comunista nas salas de aula, os pais deixaram os filhos em casa, e muitos professores abandonaram a profissão. Fidel, que já ameaça prender os pais dos estudantes ausentes, mandou trocar todos os livros didáticos – que tratavam de temas agora proibidos, como democracia e liberdade –, antes do retorno dos alunos das férias. Os novos volumes de História, Letras e até Ciências abordam todos os assuntos do ponto de vista marxista-leninista. Fidel Castro é incapaz de colher comida suficiente para alimentar seu povo, mas já planta as sementes de uma ditadura viçosa e longeva.

Veja.com

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