segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Os erros de Frei Betto

Frei Betto acaba de escrever um artigo em que ataca a jovem cubana YoaniSánchez. Betto procura desqualificar as críticas de Yoani ao regime castrista. Críticas que expõe em um mero blog e nada mais. Principal argumento de Betto: ela morou na Suiça e implorou para voltar para Cuba.

Argumento secundário: ela não posta em seu blog fotos de pobres e mendigos porque não há pobres e mendigos em Cuba. Como não tem outro recurso além do blog, Yoani não tem como se defender.

Daí, fiquei intrigado até a medula. Não é estranho que uma blogueira cause tanto transtorno nos governantes de um país? Eu mesmo sou crítico a vários governos e nunca fui tolhido. Até Fidel chegou a citar Yoani em um prefácio de livro. E o blog de Yoani tem apenas dois anos de existência.

Não seria sinal de problemas políticos sérios na Ilha?

Mas, desta dúvida, emergiram outras. Por exemplo: não é estranho que um escritor brasileiro fique tão preocupado com uma blogueira que apenas posta notas na internet? Não haveria correspondência com o que o próprioFrei Betto disse, uma vez, sobre o governo Lula (que seria governo, mas não poder)? Ué... Yoani tem mais poder que o governo cubano?

Ou, ainda: o que Frei Betto queria dizer quando afirma que Yoani implorou para retornar à Ilha?

Que é uma espiã? Que é incompetente? Que deveria ter ficado na Europa? Conheço a Europa e não gostaria de viver no Velho Mundo.

Eles não têm nosso humor e se levam muito à sério.

Obviamente que quem tem um mínimo de militância política sabe que a crítica de Betto não é apenas dirigida à Yoani. É dirigida à dúvida e crítica ao regime castrista. Nasce do medo à pluralidade na esquerda.

Então, gostaria de fazer o inverso e abrir o debate com Betto. Entre duas pessoas de esquerda que acreditam em projetos opostos. Mas quero abrireste debate publicamente por motivos que exponho abaixo:

1) Minha motivação é abrir um franco debate entre as esquerdas de nossopaís. Durante a abertura política, evitamos abrir publicamente nossasdiferenças, que remontam às estruturas clandestinas e concepções vanguardistas dos anos 70, temendo que pudéssemos gerar alguma perseguição. Contudo, estamos nos mantendo por muito tempo no silêncio. Eeste silêncio está se revelando nefasto para a democracia do país e principalmente para as organizações sociais de base que estão mergulhadas num profundo rebaixamento político e intelectual. Nada que se relacionecom a fulanização do artigo de César Benjamin. Também não se vincula a nenhuma disputa entre partidos (não sou mais filiado a qualquer partido).

Trata-se de debate político entre esquerdas e não de moralismos e ataques pessoais;

2) A teoria etapista ainda viceja entre as esquerdas de alto coturno. O problema com esta velha e carcomida teoria é que o futuro é patrimônio de quem opera a evolução das etapas. O etapismo desconsidera os desejosindividuais e o diálogo entre diferentes porque define, escatologicamente, o que deveremos ser. O etapismo não dialoga com a franca e aberta participação no controle das políticas e ações públicas porque se entrelaça com a tutela;

3) Nos anos 80, Frei Betto criou um conceito rebaixado e estranho de"movimento popular", que agregaria gregos e troianos. Não, se fossem só gregos e troianos não haveria problema. Ele agregou, num mesmo saco,movimentos sociais, entidades populares, partidos e sindicatos. Dizia que eram "ferramentas" da luta dos povos oprimidos. Como poesia, este conceito é até sedutor.


Mas politicamente é um profundo equívoco. E perigoso.

Explico: este conceito é o que criou o caldo de cultura para apartidarização de sindicatos e movimentos sociais brasileiros, ao longodos anos 80 e nos 90. Porque se todos são instrumentos, e se na teoria marxista o partido é a expressão maior da organização dos que desejam a transformação (o restante estaria no plano da luta econômica, do interesse), obviamente que a noção de autonomia, fundamento da origem do PT, teria que desaparecer. Ora, este é o cerne da mudança do PT dos anos 80 para o dos anos 90 e atual. Porque a sociedade pode pensar que sempre foi o mesmo, com discurso oportunista no início. Mas não foi. Houve uma disputa surda que mudou o rumo original;

4) Grande parte das lideranças sociais e sindicais do país tem origem nas organizações da igreja católica filiadas à Teologia da Libertação, que bebeu nos ensaios de Frei Betto. Hoje, o fruto colhido é a profunda partidarização e imenso desprezo pelo debate franco na base social. Os "debaixo" não teriam condições de compreender as manobras dos "de cima". Uma espécie de leninismo rebaixado. Aliás, os discursos são rebaixados.

Recentemente, participei de uma mesa de debates com um dirigente da CUT que me deixou estarrecido. Ao apresentar esta crítica de como as centrais sindicais brasileiras são, todas, expressões de partidos, o dirigente daCUT afirmou que foi por conta dos outros partidos, porque a CUT sempre desejou tê-los unidos na central. Não é verdade. Basta analisarmos o que ocorreu no 4º congresso da CUT. Mas muitos sindicalistas sentados na platéia da escola sindical desconheciam os meandros das disputas de cúpula. O dirigenta da CUT me travou, porque me colocou a responsabilidade de desvendar e desmistificar a história da CUT. Eu fiquei preso no dilema de ser a Cassandra de lideranças sindicais honestas que me ouviam. Preferi me calar. E errei;

5) Enfim, Frei Betto tem direito de defender o regime castrista. Um regime centralizador, autoritário, que não respeita a pluralidade, que até então não respeitava a sexualidade de quem não era a imagem e semelhança da virilidade guerrilheira (e que agora começa a mudar com a firme posição da filha de Raúl Castro em defesa da pluralidade). Um regime militarizado, assim como o chavista. Mas deve confessar a todos este desejo de país. Sem apelar para argumentos aparentemente ingênuos de que em Cuba não há fome e todos estudam. Primeiro, isto não é verdade. Basta andar poucos quarteirões pelas ruas das cidades cubanas para ser atropelado por olhos esbugalhados que desejam algum gênero de primeira necessidade do estrangeiro. Segundo, o ser humano não vive apenas de comida. Vive de diversão e arte. E muito mais. Rebaixar a vida humana à condição de animal quase irracional não é projeto de esquerda. E nunca foi. Talvez, num momento de transição. Mas já se passaram décadas e tudo continua no mesmo lugar;

6) Assim, as diferenças entre projetos de esquerda em nosso país devem ser escancaradas.


Devemos parar com esta pasteurização que desconsidera a inteligência da base social e de tantos militantes sinceros das lutas pelos direitos sociais. Esta infantilização do discurso, que encobre erros históricos que se acumulam e que desaguam na perplexidade frente à escândalos e posturas sem nexo histórico, deveria acabar de imediato.

Rudá Ricci, Diretor Geral do Instituto Cultiva. Fórum Brasil do Orçamento

8 comentários:

Stenio Guilherme Vernasque da Silva disse...

E um texto esquerdista. Usei-o para chamar-nos atenção

Rudá Ricci disse...

Sim, é esquerdista. Afinal, sou de esquerda, de uma família de esquerda. Mas, apesar do que os direitistas imaginam, não somos todos iguais e a grande maioria de nós é democrata. Infelizmente, não posso dizer o mesmo dos direitistas.

Stenio Guilherme Vernasque da Silva disse...

Amigo Rudá...
Sou um democrata por assepção da palavra, por favor não generalize.
Facilmente inverto os valores desta frase que vc colocou e vemos Stalin, Lula, Zé Dirceu , Chaves, Mao, Fidel e vemos que a esquerda é que só se mantém sem democracia...
Não generalize....

Stenio Guilherme Vernasque da Silva disse...

Gostei muito deste trecho (sério):

Um regime centralizador, autoritário, que não respeita a pluralidade, que até então não respeitava a sexualidade de quem não era a imagem e semelhança da virilidade guerrilheira (e que agora começa a mudar com a firme posição da filha de Raúl Castro em defesa da pluralidade). Um regime militarizado, assim como o chavista. Mas deve confessar a todos este desejo de país. Sem apelar para argumentos aparentemente ingênuos de que em Cuba não há fome e todos estudam. Primeiro, isto não é verdade. Basta andar poucos quarteirões pelas ruas das cidades cubanas para ser atropelado por olhos esbugalhados que desejam algum gênero de primeira necessidade do estrangeiro. Segundo, o ser humano não vive apenas de comida. Vive de diversão e arte. E muito mais. Rebaixar a vida humana à condição de animal quase irracional não é projeto de esquerda. E nunca foi. Talvez, num momento de transição. Mas já se passaram décadas e tudo continua no mesmo lugar;

Stenio Guilherme Vernasque da Silva disse...

Será que não é projeto da esquerda?
As cartas de Marx não condizem com esta afirmação.
Ele dizia que o "povão" era inferior e precisava do Estado como tutor.
"Piolhentos" como ele chamava, não é?

Rudá Ricci disse...

Stenio,
Vamos por partes:
1) Como democrata, aprecio muito o debate político, e não descarto este exercício com você. Pelo contrário, é isto que nos faz da mesma espécie;
2) Veja as ilustrações e temas de seu blog: são todos pela negação. Não consigo ler uma proposta concreta. Vive para negar o que considera esquerdismo: do aquecimento global à candidatura de Dilma (sempre procurando fulanizar a política, personalizando e idolatrando seus adversários imaginários). O que demonstra que a direita brasileira perdeu o rumo e não consegue disputar como sempre fez;
3) Eu já escrevi sobre a importância de uma direita organizada em nosso país. É o contraponto com a esquerda. Mas a direita brasileira se perdeu politicamente com o neoliberalismo. Explico: o neoliberalismo não foi um projeto da direita brasileira, mas de professores universitários que, hoje, são consultores. E que nunca se organizaram ou organizaram uma direita. Enfim, o que parecia ser a redenção tornou-se a crise da direita brasileira. Veja o sistema partidário tupiniquim? Quem é direita? O DEM, que está minguando a cada dia?
4) Você é daqueles que acredita que Marx elaborou a Bíblia da esquerda? Este é um dos problemas da direita: não consegue se atualizar. Vamos lá: até mesmo Marx reconheceu seus erros teóricos no final da vida. Um exemplo são as cartas que escreveu ás dúvidas de Vera Zasulich. Até Lênin confessou seus erros ao confundir Estado com Nação e Partido, em seu último artigo, "Vale quanto Pesa". Enfim, Stênio, como diz aquela propaganda engraçadíssima: "o mundo gira e a Lusitana roda";
5) Eu abomino as ditaduras e, principalmente, os totalitarismos. De direita ou esquerda. Se procurar meu nome no google, achará críticas pesadas ao lulismo (estou escrevendo um livro a respeito) e às mudanças de rumo do PT e CUT. Também venho criticando a falta de capacidade crítica e de elaboração dos movimentos sociais (publiquei recentemente um artigo a respeito na Folha de São Paulo).
Sugiro que se atualize. E que não fique naqueles tempos em que se acreditava que toda esquerda comia criancinha. Eu, por exemplo, gosto de comida francesa e, como filho de italianos, gosto de um bom vinho (pode até ser um Carmenére chileno).

Stenio Guilherme Vernasque da Silva disse...

Gostei da resposta.
Extamente isso: A DEMOCRACIA nos aproxima. Quanto à negação:
E meu site é exatamente isso(ANTI FORO SP) : a negação destes fartores, que julgo utópicos dolosamente e mal feitos de forma até infantil.
Tenho outro site que fala sobre projetos, e um Brasil com base na "direita" democrática e liberalismo econômico.. Mas este site faz propaganda anti-esquerda mesmo.
Mas isso não nega o debate saudável.
Parabéns mesmo pelo seu texto que me chamou muito a atenção, muito bem escrito.
Não vamos entrar no merito de dicotomias direita e esquerda , mas parabéns pelo espírito democrático, tão ausente na esquerda que está no poder hj em dia.
Abraços.

Stenio Guilherme Vernasque da Silva disse...

Gostaria que, se tiver interesse, de ler este artigo:

http://antiforodesaopaulo.blogspot.com/2009/12/democracia-dicotomias-e-falsos.html