domingo, 31 de maio de 2009

SOBRIEDADE EM 10 LIÇÕES



"Amigos, vou ser breve", como disse o moribundo gentil.


Aos senhores congressistas em plena decadência da ascensão que nunca tiveram, peço que, pelo menos, não nos encham mais o saco com seu psitacismo (!) delirante. Leiam abaixo 10 lições de brevidade, inteiramente grátis.


I – Não é que o crime não compensa. É que, quando compensa, muda de nome.

II – Errar é humano. Botar a culpa nos outros também.

III – O turista é o câncer do meio ambiente.

IV – Existe coisa mais sóbria do que uma garrafa de uísque lacrada?

V – O psíquico não tem fundo.

VI – Madame, seus cabelos estão ficando brancos? Use senso de ridículo.

VII – Criatividade é isso que os entrevistadores fazem com o que dizemos.

VIII – O que vale o homem que não gasta seu destino?

IX – Nasci no Meyer, aos 9 anos de idade.

X – Mas o máximo da brevidade é a dos surfistas:

"Ó o auê aí ô!"

No meio das ondas não há espaço pra encher o saco.

O logotipo é, graficamente, um exercício de brevidade. Este, do Banco Nacional, de Minas Gerais, feito pelo grande Aloísio Magalhães, ainda contém uma ironia. Em forma de queijo (de Minas) do qual estão comidos dois pedaços, revela o que os sócios estavam fazendo com o Banco.

Cingapura: só os mais talentosos lecionam

Lee Kong: a disputa por uma vaga é alta em sua escola para professores

Poucas escolas de formação de professores têm a reputação do Instituto Nacional de Educação, em Cingapura – sob o comando de Lee Sing Kong, 57 anos. À faculdade credita-se muito do rápido avanço da educação no país, que partiu de um patamar semelhante ao africano, em 1960, para figurar hoje entre os melhores do mundo em sala de aula. A seguir, os principais trechos da entrevista que Lee Kong concedeu à repórter Camila Pereira.


LÁ, PROFESSOR TEM STATUS Só admitimos na escola de formação de professores aqueles estudantes que, no ensino médio, aparecem entre os 30% melhores da turma. A ideia é que os mais talentosos do país sirvam à educação. Não adianta baixar uma regra dessas, no entanto, sem criar incentivos bem concretos para que tais jovens se interessem pela carreira. Um deles é o bom salário inicial, semelhante ao de um engenheiro no mesmo estágio. O outro é o prestígio da profissão em Cingapura. No dia dos professores, o presidente faz questão de receber aqueles que deram contribuições especiais às suas escolas. Os melhores ganham prêmios em dinheiro e são adorados pela população. Tudo isso explica a altíssima procura pela carreira. Em meu instituto, a relação é de seis candidatos para cada vaga – e todos são bons.

A CIÊNCIA DA EDUCAÇÃO Ensinamos apenas técnicas pedagógicas cuja eficácia já foi comprovada cientificamente. Temos dois laboratórios para fazer esse tipo de pesquisa. Num deles, o foco é desenvolver novas metodologias de ensino. No outro, testamos essas ideias na prática. São estudos longos e sistemáticos, que envolvem diferentes grupos de alunos. Ao final do processo, é possível identificar o que dá certo para transmitir cada conhecimento. Munidos dessas pesquisas, passamos a orientar os aspirantes a professor a fazer uso de recursos tecnológicos de modo produtivo. Por exemplo: nossos professores criam situações em que os alunos têm de pesquisar juntos, em rede, na internet. Para despertar a atenção dos estudantes hoje, é crucial entender que eles já nasceram num mundo conectado e pensam de maneira menos linear. São capazes de realizar diversas tarefas ao mesmo tempo e gostam mais de interagir do que de assistir passivamente a uma aula. Por isso, exercícios práticos e atividades em laboratório tornaram-se um dos esteios da nossa educação.

COMO UMA RESIDÊNCIA MÉDICA Em nosso currículo, cerca de 30% do cronograma do curso se cumpre dentro das escolas. Os alunos passam por uma espécie de residência médica, em que efetivamente dão aulas, supervisionados por docentes mais experientes. É básico para qualquer um que queira aprender a ensinar, embora ainda não seja assim em muitos lugares. Felizmente, na maioria dos países da OCDE, que engloba os trinta países mais industrializados do planeta, já existe essa compreensão de que a formação do professor deve incluir uma intensa experiência prática. Do contrário, será incompleta.

UMA NAÇÃO QUE FORMA CIENTISTAS Despertar o interesse dos alunos por química, física e matemática é visto como função prioritária dos professores em Cingapura, como é na Ásia de modo geral. Ainda no ensino fundamental, os estudantes são incentivados a fazer pesquisas e os que se destacam já começam a trabalhar com pesquisadores renomados dentro das universidades. Há também muitas feiras de ciências ao longo do ano e as populares olimpíadas internacionais. Grandes cientistas costumam se tornar ídolos nacionais. Os prêmios Nobel são recebidos como celebridades em Cingapura. Nessas ocasiões, garantimos que alunos e professores das escolas – e não apenas os universitários – assistam às palestras e os conheçam pessoalmente.

Olimpíadas de computação: as competições estimulam o interesse pelas ciências

ESCOLAS DIRIGIDAS COMO EMPRESAS Em Cingapura, boas ideias do setor privado são aplicadas na educação. Há uma década, as escolas públicas do país definem sua Visão, Missão e Valores – a tríade básica em qualquer empresa. Elas também determinam metas a ser alcançadas e são cobradas pelo governo. Ainda existe uma política de bonificação pelo desempenho. Um professor que obtém bons resultados em sala de aula chega a receber dois salários a mais por ano. Não temos professores ruins. Quem não apresenta bons resultados é demitido.

POR QUE NÃO COPIAR? Se não bastasse o fato de que custa caro produzir tanta pesquisa como nós fazemos, ainda existe, em certos lugares, resistência à ideia de que a escolha de métodos pedagógicos deve se basear em evidências científicas. Mas estou certo de que mesmo os países com menos recursos podem ir nessa direção. Basta olhar para o que dá certo e, por que não, copiar. Claro que é preciso tomar cuidado ao adaptar métodos didáticos a realidades culturais diferentes, mas essa solução não deve ser desprezada por países que não têm muito para investir.


Revista Veja, ed 2115


Agora ele é réu...

O delegado responderá por vazar informações sigilosas e fraudar provas processuais


Operação Satiagraha, que não sai do noticiário, pode ser resumida assim: para investigar secretamente um banqueiro suspeito de operações fraudulentas e cheio de inimigos, inclusive nas altas esferas do governo, um delegado da Polícia Federal une-se ao chefe do serviço de inteligência da Presidência da República e coloca na rua um bloco de quase uma centena de espiões – que não poderiam atuar como meganhas. Durante um ano e meio, eles vigiaram e grampearam, além do banqueiro, deputados, senadores, juízes, advogados e jornalistas – na maioria das vezes, de maneira ilegal. Ao final, o delegado produziu um relatório que se presta a ajustes de contas pessoais, políticas e empresariais. O nome do delegado é Protógenes Queiroz, o do chefe da inteligência é Paulo Lacerda e o do banqueiro, Daniel Dantas. Pelo fato de as duas autoridades terem usado o aparelho estatal de forma ilegítima e lançado uma série de acusações mal fundamentadas e formuladas, o resultado é que o banqueiro poderá se safar.

O que está em jogo nessa história toda de Satiagraha é muito mais do que destinos individuais de três homens. É a própria noção de estado de direito, no qual os ritos formais que regem a atuação da polícia, da Justiça e dos espiões oficiais representam uma garantia não só de que as liberdades dos cidadãos serão preservadas, como de que os culpados de crimes serão punidos e os inocentes, absolvidos, sem dar margem a dúvidas. Ao atropelar o estado de direito, o delegado Protógenes e o doutor Paulo Lacerda deverão pagar por seus atos, para que não se crie um perigoso precedente. O laço da Justiça já aperta o primeiro. A Justiça Federal o processa por violação de sigilo e fraude processual.

O delegado vazou informações sigilosas a repórteres da Rede Globo e pediu que eles filmassem um encontro de um policial com um emissário de Dantas, antes de a operação tornar-se pública. Na reunião, em um jantar, o policial pediu propina para excluir o banqueiro da operação. O representante caiu no flagrante armado. Dantas foi processado e condenado por corrupção. A prova do crime é o vídeo, que foi editado para retirar cenas nas quais os jornalistas apareciam. Como Protógenes alterou a prova, também cometeu fraude.

Grave, ainda, é a proximidade da relação do delegado com Rodrigo de Grandis e Fausto de Sanctis – procurador e juiz da Satiagraha, respectivamente. Os três deveriam atuar de maneira independente. A tarefa do policial é investigar. A do procurador, avaliar se há indícios para oferecer uma denúncia. A do juiz, decidir se o processo será aberto. "Os três só deveriam conversar oficialmente, por escrito. O distanciamento entre eles é o que garante a lisura do processo", diz o jurista Paulo Brossard, ex-ministro da Justiça. Na Satiagraha, porém, Protógenes, De Grandis e De Sanctis se falavam o tempo todo, como se formassem uma equipe. Em momentos-chave, os contatos telefônicos se intensificavam (veja o quadro abaixo), indicando que o trio combinava ações do inquérito. "Se um juiz deixa de ser o elemento de controle para tornar-se sócio da investigação, o estado democrático de direito fica amea-çado", diz o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.

Outro pacote explosivo está prestes a ser aberto. O juiz Ali Mazloum, que instaurou o processo contra Protógenes, encontrou indícios de que um empresário ajudou a direcionar a Satiagraha: Luiz Roberto Demarco. Ele foi funcionário de Dantas. Demitido, passou a espionar o ex-patrão e a repassar as informações à Telecom Italia. Há indicações de que Demarco e Protógenes mantiveram contato durante a Satiagraha. Ou seja, a Polícia Federal pode ter sido usada para atender a interesses econômicos privados. Mazloum determinou a abertura de dois inquéritos: um apura a participação de Demarco na operação e outro afere o real alcance dos grampos ilegais. Para completar, a PF está convencida de que os personagens que mantinham contato com Protógenes – o trio De: Demarco, De Grandis e De Sanctis – conversavam por telefone, também, com Paulo Lacerda, o homem por trás da Satiagraha. Se tudo for confirmado, a operação inteira pode ser considerada ilegal. Isso não será culpa daqueles que a investigam agora, mas dos seus próprios autores – que não se preocuparam em agir dentro da lei.



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Revista Veja, ed 2115

Diplomacia sem resultados

A ministra Ellen: sem traquejo em comércio exterior, a candidatura não vingou

No afã de servir aos desejos explícitos e aos apenas imaginados do presidente Lula, que ele trata de "nosso líder", Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores do Brasil, tem arriscado a reputação da excelente diplomacia brasileira. É uma estranha e incômoda situação. O Itamaraty e as Forças Armadas brasileiras têm dado ao longo das últimas décadas as mais cabais demonstrações de serem uma espécie de "burocracias de último recurso" do país, ou seja, celeiros de competência, dedicação e inteligência com os quais os governos podem contar quando essas qualidades se fazem mais necessárias. Diplomatas e militares têm fornecido os quadros mais preparados dos governos desde a redemocratização, em 1985. Nesse contexto, parece difícil entender os desacertos recentes do Itamaraty. Não é. Eles são fruto da aplicação ao pé da letra por Amorim das piores formulações ideológicas da casa do barão do Rio Branco e da excessiva servidão do chanceler Amorim a quem ele chama de "nosso líder". Em uma reportagem desta edição sobre a influência brasileira em El Salvador, relata-se como uma diplomacia de resultados positivos está sendo levada a cabo – sem diplomatas.

"Em diplomacia há dois riscos principais que têm de ser evitados. O primeiro é subestimar o potencial do seu país e ficar na inércia. O segundo é superestimar esse potencial e cair na insensatez", diz Celso Lafer, ex-ministro das Relações Exteriores. A frase de Lafer contém um ensinamento básico das relações entre os países e até entre as pessoas. Não por acaso, os diplomatas são excelentes avaliadores de suas próprias possibilidades e das dos outros e, com base nisso, calibram suas ações. Foi tudo o que faltou – além de sorte – na indicação de um embaixador brasileiro, Arnaldo Carrilho, para a Coreia do Norte. Pouco antes da chegada do representante brasileiro, a Coreia do Norte decidiu se tornar o único país a detonar uma bomba atômica neste século. Adiaram-se os planos para a instalação de Carrilho.


O diplomata Carrilho: embaixada inoportuna na Coreia do Norte

Foi ridícula também a candidatura da ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal, a uma cadeira no Órgão de Apelação da Organização Mundial do Comércio (OMC). A brilhante biografia e a atuação de Ellen Gracie na corte constitucional brasileira não ficaram arranhadas com sua derrota. Mas a maneira como o Itamaraty conduziu sua campanha constitui uma das iniciativas mais toscas da diplomacia brasileira. Para começo de conversa, quis viabilizar a candidatura de Ellen Gracie alardeando justamente sua inexperiência no julgamento de causas internacionais envolvendo o comércio. Não é preciso ser um experiente psicanalista para ver nessa atitude – além da evidente tentativa de enganar o público pagante – a intenção de agradar ao "nosso líder" com a reafirmação internacional da noção temerária de que não é preciso ter estudado, exibir diplomas nem ter o hábito de ler para se sair bem em qualquer cargo. Funcionou com Lula na Presidência do Brasil. Mas extrair disso uma lei universal é subestimar a inteligência do próximo.


Revista Veja , ed 2115

INSTALADA A CPI DO CQC!!!!

Renan Calheiros, que comanda o circo,
e Romero Jucá, cotado para relator: se o assunto é fraude...


Dirigida por especialista em escândalos, a CPI da Petrobras
já produziu uma certeza: vai custar caro ao contribuinte


Alexandre Oltramari


Um dos programas mais divertidos da televisão brasileira, o Custe o que Custar (CQC), vai ganhar um concorrente de peso. Nesta semana, o Senado instalará a CPI da Petrobras, investigação que deveria apurar suspeitas de malfeitorias na administração da maior empresa do país. A CPI, que já tem seus onze integrantes definidos, será dirigida por Renan Calheiros, um colecionador de escândalos especialista na arte de barganhar verbas e cargos por favores a governos. Seu elenco, que vai frequentar o horário nobre da televisão pelos próximos 180 dias, tem bastante experiência na área. Dos onze integrantes da CPI, oito são réus em ações criminais no Supremo Tribunal Federal ou tiveram sua campanha financiada por empresas que fazem negócios com a petrolífera. O favorito ao cargo de relator, o senador peemedebista Romero Jucá, é investigado em dois inquéritos e já foi indiciado por crimes de responsabilidade e corrupção eleitoral. Nas mãos de Calheiros e sua turma, portanto, a CPI da Petrobras tem tudo para se transformar em uma espécie de CQC. A diferença é que o humorístico dirigido por Calheiros, além de não ter nenhuma graça, custará muito caro aos cofres públicos.

A CPI da Petrobras nem começou e já mostrou a que veio. Um de seus integrantes, o senador João Pedro, do PT do Amazonas, sugeriu o roteiro que ele considera ideal: "Acho que temos de ir no passado da Petrobras e investigar coisas como o acidente da plataforma P-36 e os gestores durante o governo Fernando Henrique". Embora as auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) que serviram de base para a criação da CPI tenham identificado superfaturamento milionário (81,5 milhões numa única obra), contratos sem licitação e indícios de fraudes recentes, o petista pretende iniciar a CPI investigando fatos ocorridos há oito anos. A tecnologia de transformar CPIs em campeonatos de delitos é recente e eficaz, quando o objetivo é não apurar nada. Foi adotada na CPI dos Correios, em 2005, e na CPI dos Cartões, no ano passado – e começa a ser reprisada agora. E foi exatamente para garantir que as investigações sejam mantidas sob estrito controle dos interesses oficiais que o governo lançou mão dos valiosos serviços oferecidos por Renan Calheiros, Romero Jucá e outros integrantes do noticiário policial do Congresso. Eles estarão lá, atentos, de prontidão, dispostos, como sempre, a fazer o que for preciso, custe o que custar.


Revista veja, ed 2115

O Brasil exporta a "revolução" lulista


Por doze anos, a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) manteve acesa uma sangrenta opção preferencial pela guerrilha com o objetivo de derrubar o governo e implantar o regime comunista em El Salvador. O conflito deixou um saldo de 75 000 mortos, dividiu o país e o mergulhou em uma profunda crise econômica, social e política. Nesta segunda-feira, dezessete anos depois de trocar as armas pelo palanque, finalmente a FMLN assume o poder. A festa da posse de Mauricio Funes, o novo presidente, marcará o triunfo da revolução que começou no século passado, embora pouco ou quase nada reste daquilo que os velhos guerrilheiros imaginavam como modelo de civilização. Fidel Castro e Che Guevara, os líderes que inspiravam as ações violentas do grupo no passado, serão citados como referências históricas de um tempo que já se foi. O destaque da festa será o presidente Lula, que encontrará um cenário muito familiar na menor nação continental da América Central. Para vencer a eleição, a FMLN abandonou o discurso radical, fez alianças com políticos antes hostilizados, firmou compromisso público de que não haveria rupturas econômicas e se comprometeu com ações que vão priorizar a parte mais pobre da população. Alguma semelhança com a campanha do PT em 2002? Toda.

O modelo brasileiro não só inspirou como ajudou a eleger o novo presidente salvadorenho. A FMLN, assim como o PT, surgiu em 1980, como a principal força de oposição a um governo militar. Derrotada no campo de batalha, a FMLN desvestiu a farda e aderiu ao jogo eleitoral democrático. Apareceu à luz do dia dividida em tendências, refratária a alianças, com uma ala ainda nostálgica da luta armada e prometendo desmontar a política econômica capitalista quando chegasse ao poder. A Frente, a exemplo do PT, também foi derrotada em três eleições presidenciais seguidas. Exatamente como o PT, os salvadorenhos perceberam que sem uma reforma interna não chegariam a lugar nenhum. El Salvador ainda é um país polarizado entre o que se convencionou chamar de direita e esquerda, e muitas de suas forças políticas vivem como se o mundo estivesse sob a Guerra Fria. Mas a maioria da população já chegou ao século XXI. Na campanha, os adversários de Mauricio Funes tentaram associar sua imagem à de Hugo Chávez e à de Fidel Castro – e assim caracterizá-lo como a ameaça comunista. Não colou. Usar o exemplo do Brasil foi o antídoto escolhido pelos ex-guerrilheiros para atrair parte do empresariado e do eleitorado tradicional da direita. "Lula é um modelo e um exemplo para mim", disse o presidente Funes na semana passada a VEJA, no escritório do governo de transição, em um hotel de luxo em San Salvador. "Da mesma maneira que Lula, eu sei que não é possível fazer um governo sectário, rompendo com tudo o que já foi feito no país. É preciso governar com toda a sociedade para que El Salvador supere sua grave crise econômica."


A guerrilha da FMLN lutou durante mais de uma década para implantar o comunismo em El Salvador: vitória nas urnas e compromisso com regime sem rupturas

A participação brasileira na campanha da FMLN não se resumiu a uma mera associação de imagens. O governo brasileiro e o PT despacharam para lá assessores e técnicos para ajudar na campanha eleitoral e, depois da vitória, na transição de governo. O responsável pelo marketing foi o publicitário João Santana, o mesmo da reeleição de Lula. Santana passou três meses instalado em um escritório em El Salvador comandando uma equipe de trinta pessoas – vinte delas brasileiras. Não por coincidência, o símbolo da campanha era uma estrela vermelha, o candidato Funes sempre aparecia trajando ternos bem cortados, falando serenamente e discursando a "esperança" e a possibilidade de ser ele o homem certo para a "mudança com responsabilidade". A FMLN não informa quanto foi gasto com propaganda, nem quem foi o responsável pelo pagamento. Os adversários derrotados, é natural, insinuam que a fonte dos recursos pode ser localizada no Brasil.

A estrutura da campanha presidencial da FMLN contou com outras figuras importantes do governo brasileiro e do petismo – cada uma levando sua própria experiência a El Salvador. Marco Aurélio Garcia, o assessor para assuntos internacionais de Lula, esteve lá três vezes. O ex-ministro José Dirceu, que tem trânsito livre e acesso direto ao presidente Mauricio Funes, ajudou na estratégia de montagem das alianças políticas internas. A socióloga Ana Fonseca, uma das mentoras do programa Bolsa Família, passou uma semana no país projetando o Rede Solidária, a versão local do benefício. No início do ano, quando o clima na campanha ficou acirrado, Funes precisou atrair parte do empresariado para seu lado. Foi a vez de o deputado e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci dar sua contribuição. Responsável pelo plano de governo do PT, ele recomendou que o candidato redigisse uma carta nos mesmos moldes da Carta ao Povo Brasileiro, da campanha de Lula em 2002, na qual garantiria que contratos seriam honrados e que o país pagaria suas dívidas. Isso acalmou os mercados, possibilitou a injeção de recursos na campanha do esquerdista e praticamente assegurou a vitória do candidato oposicionista.

Petista militante, a primeira-dama Vanda Pignato foi a responsável pela aproximação com Lula

Mesmo no processo de transição, a tecnologia petista continuou sendo aplicada segundo o modelo utilizado no Brasil. Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula, passou três dias em San Salvador para "ensinar Funes a negociar com a direita", conforme suas próprias palavras. Para mostrar que não estava blefando, na semana passada, ao anunciar os nomes de sua equipe econômica, Funes indicou políticos moderados e economistas ligados ao mercado financeiro para os principais cargos, inclusive o Banco Central. Também anunciou a criação de programa similar ao PAC. "Lula comanda no Brasil um estado planejador na busca de crescimento econômico, distribuição de renda e combate à pobreza. É o mesmo modelo que pretendo adotar aqui em El Salvador, adaptado às realidades do país", afirmou Funes. As semelhanças, porém, param por aí. A situação que Funes herda é muito mais grave do que a enfrentada por Lula. El Salvador viveu uma guerra civil de 1980 a 1992 que deixou mais de 75 000 mortos e dividiu o país. Mesmo após um acordo de paz bancado pela ONU e uma lei de anistia ampla nos moldes da brasileira, a violência ainda impera no país, que tem o maior índice de homicídios da América Latina. É comum ver seguranças privados armados de escopetas e metralhadoras protegendo prédios comerciais e residenciais, sempre cercados por rolos de arame farpado eletrificado. A economia é dolarizada e frágil, o país praticamente não tem indústria e possui parcos recursos naturais. Para piorar, inconformados com as primeiras medidas econômicas, setores do próprio partido de Funes ameaçam boicotar o governo. Sindicatos rurais acenam com uma greve contra o ministro da Agricultura e a equipe do vice-presidente eleito, um ex-guerrilheiro, em protesto, ameaça não ir à cerimônia de posse.


"Funes está em uma encruzilhada. Se mantiver o discurso responsável da campanha, poderá ter sucesso na economia, mas vai desagradar a boa parte de seu partido, podendo provocar instabilidade política", analisa o cientista político Roberto Rubio-Fabián, diretor executivo da Fundação Nacional para o Desenvolvimento de El Salvador. "Se ceder às ideias da Frente e aderir ao socialismo bolivariano de Chávez, ele poderá acentuar a crise econômica e dividir o país." Entre a cruz e a espada, Mauricio Funes terá de se mostrar um bom negociador e compensar com a adesão do empresariado e de parte dos políticos conservadores uma eventual dissidência na Frente, conclui Rubio-Fabián. Não será uma tarefa fácil. Mas nada pode ser fácil em um país dividido politicamente e com uma das maiores desigualdades sociais do mundo.

Apesar da estreita colaboração entre as equipes, o principal elo entre o Brasil e o novo governo salvadorenho é a advogada Vanda Pignato, a primeira-dama. Paulistana do Tatuapé e fundadora do PT, Vanda mudou-se para El Salvador em 1992, pouco depois de um acordo mediado pela ONU para pôr fim à guerra civil. Representante do PT para assuntos da América Central, há quinze anos ela conheceu Funes, então jornalista e apresentador de uma rede de televisão. Vanda foi essencial na escolha do marido como candidato da Frente e na estratégia de campanha, plugada na experiência do PT. Centralizadora, brigou com boa parte da velha guarda comunista, mas seu trabalho de aproximação com o Brasil e com o empresariado local lhe rendeu respeito – e inevitáveis comparações com o estilo do ex-ministro José Dirceu. A partir desta semana será possível começar a avaliar os resultados da vitória da "revolução" sem tiros. Se der certo, como se espera, Lula e o PT poderão dizer, com toda a razão, que "nunca antes neste continente...".

O ex-ministro sugeriu carta para garantir que não haveria quebras de contrato

ANA FONSECA
Esteve em El Salvador para ajudar no projeto de criação do Bolsa Família local

GILBERTO CARVALHO
Foi ao país para ensinar os ex-guerrilheiros comunistas a "negociar com a direita"

Revista veja, ed 2115

"Na mala, na meia, na cueca"

Como vampiros, os mafiosos
sugavam dinheiro público e
distribuíam propina aos deputados


Leonardo Coutinho e
Marcelo Carneiro


O ex-deputado Carlos Rodrigues é um velho freqüentador do noticiário de escândalos de Brasília. Conhecido como bispo Rodrigues, ele renunciou ao mandato em setembro de 2005 depois de ser acusado de participar de um esquema de corrupção na Loterj e de ter recebido 150.000 reais do valerioduto. Atualmente, o ex-deputado encontra-se preso em Cuiabá (MT), sob a acusação de envolvimento na máfia dos sanguessugas – o esquema por meio do qual parlamentares apresentavam emendas ao Orçamento da União, solicitando a compra de ambulâncias para as suas regiões em troca de propina paga pela empresa Planam, que vendia os carros a preços superfaturados. Uma conversa telefônica captada pela Polícia Federal entre funcionários da Planam revelou que a quadrilha fez um pagamento de 9.000 reais para o ex-deputado. Rodrigues prestou depoimento à PF na última quinta-feira. Aos investigadores, não só admitiu ter recebido dinheiro da Planam como revelou que a quantia era maior do que se pensava: 77.000 reais – e em espécie. Perguntado sobre a origem da bolada, respondeu: "Negócios com gado". Alguém se lembra de como o hoje famoso publicitário carequinha de Minas Gerais justificou, pela primeira vez, o hábito de andar por aí com tanto dinheiro vivo no bolso? Tudo a ver.

As coincidências não param por aí. Ganha uma estrelinha dourada do PT quem adivinhar onde os donos da Planam transportavam o dinheiro da propina para os deputados. Ora, ora – na cueca, claro. E também nas meias, em maletas e nos bolsos do paletó, conforme relatou à PF a delatora premiada Maria da Penha Lino, ex-assessora especial do Ministério da Saúde e tida como peça-chave no esquema. Também em depoimento à PF, o motorista Fernando Freitas, que costumava transportar os donos da Planam – Darci Vedoin e seu filho, Luiz Antônio – em Brasília, confirmou que os empresários andavam com maletas abarrotadas de notas de 100 e 50 reais e, ao chegarem ao Congresso, deixavam o carro com os bolsos e as meias forrados de notas. Às vezes, completou o motorista, o dinheiro era tanto que os Vedoin tinham de voltar ao carro para reabastecer-se de cédulas. E assim – bolsos, meias e cuecas recheados – retomavam seu périplo pelos gabinetes. Os quadrilheiros do PT estão mesmo fazendo escola.

Esta não é a primeira vez que o Congresso se vê às voltas com acusações de roubalheiras envolvendo emendas parlamentares. O escândalo dos anões do Orçamento, revelado em 1993, envolvia um esquema similar ao dos sanguessugas: deputados cobravam propina de empreiteiros e prefeituras para incluir previsão de recursos destinados a obras públicas. Criou-se a CPI do Orçamento, seis deputados perderam o mandato, outros quatro renunciaram e algumas das regras que regulam a apresentação de emendas foram modificadas – não o suficiente, como se vê, para evitar que o modelo continue sendo uma porta aberta para as fraudes.

O empresário Darci Vedoin, dono da Planam: mais um homem-cueca. À direita, o presidente da Câmara, Aldo Rebelo: contra a punição coletiva

A participação do Congresso nas decisões sobre o Orçamento da União está na essência das democracias. Em países como Estados Unidos e França, por exemplo, os parlamentares também interferem no processo de distribuição dos recursos federais por meio de emendas individuais. Mas com duas diferenças fundamentais. A primeira é que, nesses países, o orçamento aprovado no Congresso é obrigatoriamente executado pelo governo. No Brasil, os recursos empenhados pelo Legislativo não são obrigatoriamente liberados pelo Executivo. Assim, depois de terem suas emendas aprovadas, os parlamentares passam a depender da decisão dos ministérios para que suas bases eleitorais recebam os recursos. "Dessa forma, as emendas se transformam em moeda de troca e instrumento de barganha entre o Executivo e o Legislativo", afirma o economista e especialista em gastos públicos Gil Castelo Branco. Não é por acaso que, às vésperas de votações importantes, o governo fica mais generoso: nessas ocasiões, a liberação de emendas de parlamentares é sempre volumosa. A segunda diferença é que, nos modelos americano e francês, a legislação é precisa e condiciona a aprovação de emendas a indicadores objetivos de prioridades e resultados, como afirma o professor Paulo Calmon, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. Isso ajuda a fazer com que os municípios sejam contemplados com aquilo de que de fato necessitam – e não com aquilo que facilite o desvio de dinheiro por parlamentares e seus sócios empresários.

No caso dos sanguessugas, a principal brecha explorada pela quadrilha foi a centralização de recursos pelo governo federal. Como a maior parte dos hospitais municipais e estaduais do país absorve seus recursos com gastos de pessoal e manutenção, eles dependem do governo federal para os investimentos necessários. O governo repassa esse dinheiro por meio das emendas de parlamentares. "Para corrigir o problema, seriam necessárias mudanças estruturais que possibilitassem às prefeituras e aos governos recuperar sua capacidade de investimento", diz o professor Calmon.

Na semana passada, o Congresso e a Polícia Federal ficaram em pé de guerra por causa da divulgação de uma lista com o nome de 64 deputados citados nas conversas interceptadas na Operação Sanguessuga. Investigadores e investigados passaram a semana acusando-se mutuamente do vazamento da relação, que trazia nomes de suspeitos e de inocentes. Três deputados choraram em plenário, o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, acusou os investigadores de não saber "separar o joio do trigo", e o líder governista na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), chegou a sugerir a convocação dos investigadores para "dar explicações" sobre o vazamento. Por trás dessa cortina de fumaça, uma coisa ficou clara: não haverá CPI para investigar a participação dos nobres deputados na máfia dos sanguessugas. Até sexta-feira, o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) não tinha conseguido recolher nem um terço das assinaturas necessárias para a instalação da comissão. Em contrapartida, como sempre ocorre depois de um escândalo, o Congresso e o governo apressaram-se em anunciar a criação de uma comissão parlamentar para estudar (de novo) mudanças nas regras do Orçamento. Espera-se que não se contentem apenas em mudar as normas – mas que se preocupem também em banir os vícios e os que incorrem neles.







Revista Veja, maio de 2006

Roubou e quer dar lição de moral

Depois de se apossar do patrimônio
brasileiro, Morales passa a tratar

o Brasil como inimigo


Diogo Schelp

Virginia Mayo/AP

BANDOLEIRO DOS ANDES
O presidente boliviano em Viena, na Áustria: palco para bravatas


Como primeiro ato de hostilidade, Evo Morales roubou o patrimônio dos brasileiros investido na Bolívia e colocou em risco o abastecimento nacional de gás natural. Depois, encorajado pela docilidade com que o governo Lula engoliu o desaforo, ele se pôs a dar lição de moral ao Brasil. Na semana passada, aproveitando as atenções internacionais na Cúpula União Européia-América Latina, na Áustria, o presidente boliviano dedicou-se a bater no país de seu "mui amigo" Luiz Inácio Lula da Silva. A concepção de Morales das relações bilaterais, expressa de viva voz, é um fascinante exemplo da irresponsabilidade populista, do poder da fantasia ideológica e da cara-de-pau. O que diz Evo Morales é o seguinte: o Brasil saqueou os recursos de seu país. A Petrobras, que investiu 1,5 bilhão de dólares e viabilizou a extração do gás natural boliviano, opera ilegalmente, sonega impostos e faz contrabando. Vários países ajudaram a Bolívia (Cuba e Venezuela, por exemplo), mas o Brasil não está entre eles. O presidente boliviano, que já expulsou uma siderúrgica brasileira, agora anuncia que vai tomar as terras dos agricultores brasileiros instalados na Bolívia, alguns deles há trinta anos. Sua reforma agrária vai começar precisamente pelas terras dos fazendeiros brasileiros, responsáveis pela produção de um terço da produção de soja boliviana.

Morales também resgatou do fundo de seu baú de ressentimentos a venda pelos bolivianos do território do atual estado do Acre. O negócio ocorreu há mais de um século, e o Brasil pagou 2 milhões de libras esterlinas e ainda deu à Bolívia terras tiradas ao Mato Grosso. Na versão propagandista de Morales, tudo o que os bolivianos levaram no negócio foi "um cavalo". "Nunca, desde que definiu suas fronteiras com os países vizinhos, o Brasil foi tão desmoralizado no exterior", diz o diplomata José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, no Rio de Janeiro. Morales vai invadir o Acre como fez com as refinarias da Petrobras? É improvável, visto que as forças armadas bolivianas não dariam conta da empreitada. O Acre provavelmente se converterá em outra bandeira populista de seu governo, ao lado da rivalidade com o Chile devida à derrota boliviana numa guerra do século XIX. O roubo de propriedade brasileira e o discurso populista são passos decisivos que Morales dá para empobrecer o povo boliviano. Como a experiência ensina, a riqueza confiscada pelo Estado não será distribuída entre os bolivianos, mas alimentará o empreguismo e premiará apenas os amigos do regime. Interessa ao Brasil que a Bolívia reduza a pavorosa cifra de 67% de miseráveis. Há para isso razões humanitárias e a preocupação para com a estabilidade sul-americana. Mas existe também a vontade honesta de ampliar o mercado para as exportações brasileiras. Ao desapropriar empresas que colaboravam no desenvolvimento e isolar seu país da economia global, Morales só aprofunda a miséria de seu povo. Se a China é hoje um parceiro comercial de nível internacional, isso se deve às reformas econômicas, à abertura de mercado e à atração de investimentos estrangeiros que conseguiram resgatar da miséria mais de 300 milhões de chineses. Morales planeja fazer o oposto do que fez a China.

Amanecer Tedesqui/AP
Michel Filho/Ag. O Globo

NA BOLÍVIA, BELEZA NÃO É FUNDAMENTAL
Soldados patrulham instalações da Petrobras Bolivia, acima, e o ministro Soliz, ao lado, em momento introspectivo

É difícil para um país soberano aceitar pacificamente tal intensidade de desaforos – nem o chanceler Celso Amorim agüentou. Primeiro declarou-se "desconfortável" com as indelicadezas dos vizinhos e reclamou da ingerência venezuelana na Bolívia (Chávez respondeu, por escrito, que o comentário se devia "à ignorância dos nossos amigos brasileiros"). O chanceler então subiu o tom e passou a "indignado". Por fim, Amorim ameaça retirar o apoio do Brasil ao projeto de um gasoduto ligando a Venezuela à Argentina, uma idéia de Chávez. Uma reação tardia, pois o ministro de Hidrocarbonetos da Bolívia, Andrés Soliz Rada, o "Boca de Poço", já tinha avisado que a Petrobras não poderia participar do gasoduto. Na visão dele, porque não serão aceitas empresas de propriedade de multinacionais. Veja com quem se está lidando: o governo de Morales é tão despreparado que o ministro de Hidrocarbonetos não sabe que a Petrobras, empresa que acabou de roubar, é uma estatal, com participação minoritária de capital privado.

Se faltava um fecho para configurar o efeito desastroso da política externa do governo Lula, aí está a Bolívia: Morales e seus ministros demonstram estar convencidos de que não há riscos em tripudiar sobre o Brasil. "A Petrobras tem mais medo de sair da Bolívia do que nós de perdê-la", disse o ministro Boca de Poço. Morales está elevando a temperatura da crise como parte de uma estratégia de se tornar um novo Chávez. "A maneira como o presidente da Bolívia está seguindo o modelo de seu colega venezuelano é uma prova contundente da influência de Chávez sobre Morales", disse a VEJA o venezuelano Alfredo Ramos Jiménez, da Universidade de Los Andes, em Caracas. Fiel à cartilha de Chávez, o primeiro passo de Morales foi se apresentar como vingador das injustiças históricas da Bolívia. Em seguida, ele escolheu um inimigo externo – o Brasil – e, em um gesto espalhafatoso, com mobilização de tropas, tomou as propriedades da Petrobras. O terceiro passo do governante boliviano será usar a popularidade conquistada com a nacionalização para, na eleição de 2 de julho, formar uma Assembléia Constituinte monocromática e sem oposição. O objetivo é "refundar" a Bolívia com uma nova Constituição que lhe permita concentrar poder, da forma como Chávez fez na Venezuela.

Evariso Sa/AFP

UM CHANCELER "INCOMODADO"
Celso Amorim: reação tardia, fraca e inútil


O governo boliviano parece confiar na promessa feita por Chávez de que a Venezuela poderá compensar os investimentos brasileiros que deixarem o país. O problema dessa estratégia é que, ao se aliar com Chávez, Morales chutou os principais parceiros comerciais de seu país. Metade das exportações bolivianas vai para o Mercosul, principalmente para o Brasil e para a Argentina. Outros 30% vão para os Estados Unidos e países do Pacto Andino, como a Colômbia e o Peru – exatamente os dois países com os quais Chávez está rompido. As exportações bolivianas para os Estados Unidos, que alcançam 380 milhões de dólares anuais, devem cair a partir de 2006, depois que terminar um acordo comercial que nenhum dos dois países está interessado em renovar. "Como seu projeto de liderança continental fracassou, Chávez está usando a influência sobre países como a Bolívia para espezinhar e fazer pressão sobre os grandes da região, como o Brasil, o Chile e a Argentina", disse a VEJA Jorge Quiroga, presidente da Bolívia entre 2001 e 2002. Morales está demonstrando empenho em seguir seu mestre.

Um vexame histórico

Roberto Setton

O BRASIL FOI HUMILHADO
O jurista Olavo Baptista: Morales fez o jogo de Davi contra Golias


O jurista paulista Luiz Olavo Baptista tem uma função estratégica nas disputas econômicas internacionais. Há quatro anos, ele ocupa uma das sete cadeiras do órgão de apelação da Organização Mundial do Comércio, uma espécie de suprema corte global dos negócios. Baptista ficou indignado com a reação do governo Lula à invasão das refinarias da Petrobras promovida pelo governo boliviano. Nesta entrevista ao repórter Fábio Portela, ele diz que Lula submeteu o Brasil a um vexame histórico.

A BOLÍVIA DESRESPEITOU REGRAS DO DIREITO INTERNACIONAL AO TOMAR AS REFINARIAS DA PETROBRAS?
A principal regra do direito internacional é que os Estados devem se tratar com respeito. A Bolívia, ao contrário, humilhou o Brasil. O que o presidente Evo Morales fez é inaceitável sob qualquer ponto de vista. Estou inconformado com o episódio e tenho a impressão de que o Brasil inteiro também está. O pior é receber o desaforo, a humilhação, e ver que quem deveria falar por você não só deixa de reagir como diz que o outro está certo. É um vexame histórico.

COMO O GOVERNO DEVERIA TER DEFENDIDO OS INTERESSES BRASILEIROS?
Em primeiro lugar, era preciso deixar claro que o Brasil não aceita a forma como foi feita a tomada das refinarias, com tropas, invasões e aquela encenação toda. Morales poderia ter alcançado o mesmo resultado sem humilhar o Brasil. Por que agiu assim? Por uma razão política. Ele usou o Brasil para dizer ao povo boliviano: olha, eu sou o Davi e derrubo o Golias com uma pedrada só. Fez uma humilhação calculada. Portanto, a primeira coisa que deveria ter sido feita era exigir um pedido formal de desculpas, o que, aliás, também faz parte das negociações internacionais.

O QUE O BRASIL GANHARIA COM UM PEDIDO DESSES?
A posição brasileira nas negociações sairia fortalecida. Do jeito que a coisa vai, os bolivianos continuam falando grosso e fazendo ameaças mesmo depois de terem tomado os ativos da Petrobras. O Brasil ficou do jeito que está – de joelhos – porque não reclamou. Quem vai respeitar o Brasil depois disso?

E O QUE PODERIA SER FEITO PARA COMPENSAR O PREJUÍZO DAS EMPRESAS QUE PERDERAM SEUS ATIVOS?
Esse seria o segundo passo. Depois do pedido de desculpas, o governo deveria exigir que a Bolívia ressarcisse imediatamente os brasileiros. Também seria preciso montar equipes de advogados e levar o caso para a Corte Internacional de Haia. Isso não ocorreu. Outra opção seria oferecer proteção diplomática às empresas, dando uma garantia oficial aos investimentos brasileiros.

COMO FUNCIONA A PROTEÇÃO DIPLOMÁTICA?
O mecanismo é assim: o governo entra com ações junto às cortes internacionais para obrigar a Bolívia a indenizar o Brasil pelos bens expropriados. No caso específico, os ativos da Petrobras. A Bolívia, então, teria de explicar por que se acha no direito de tomar os bens alheios. Só se poderia discutir o assunto da forma camarada como o Itamaraty está fazendo depois que essas providências fossem tomadas.

ENTÃO NÃO FOI UMA BOA ESTRATÉGIA ABRIR NEGOCIAÇÕES IMEDIATAMENTE?
Foi péssimo. E pior: as conversas nunca deveriam ter sido abertas pelos presidentes. Nenhuma negociação internacional deve começar pelos chefes de Estado, porque, em última instância, são eles que vão decidir. Quando os presidentes entram em campo, acaba a margem de manobra que os diplomatas têm para negociar. Por isso, qualquer amador sabe que assuntos dessa natureza e complexidade devem primeiro ser tratados em nível ministerial. Lula aceitou aquela reunião na Argentina, e o que aconteceu? Morales apareceu lá com Hugo Chávez a tiracolo, posando de organizador da reunião. Nessa hora, Chávez enterrou Lula definitivamente e acabou com qualquer pretensão do Brasil de ser uma liderança latino-americana.

O CHANCELER CELSO AMORIM GARANTE QUE A LIDERANÇA DE LULA NA AMÉRICA LATINA SEGUE FIRME.
O ministro Amorim sabe o tamanho do estrago e tenta remediá-lo. Ele declarou que Lula deu um pito em Chávez e em Morales nos bastidores. Se isso tivesse de fato ocorrido, não deveria se tornar público. Um diplomata experiente como Amorim não divulgaria essa informação. O que ele quer é preservar a imagem do presidente. Com essa intenção, acaba atuando como uma espécie de marqueteiro internacional de Lula. Dessa forma, ele está destruindo sua reputação e sua carreira.

ALÉM DA HUMILHAÇÃO, QUE OUTROS REFLEXOS A CRISE COM A BOLÍVIA PODE TRAZER?
Para os empresários nacionais, é uma tragédia. O governo sinalizou o seguinte: não invistam no exterior, porque eu não vou protegê-los. Para o resto do mundo, o recado é ainda pior: se o investimento é de brasileiro, pode passar a mão grande, porque o país não reage. Se o governo não faz nada pela Petrobras, da qual ele é dono, imagine por outras empresas brasileiras.

A FRANÇA E A ESPANHA TAMBÉM FORAM ATINGIDAS PELAS MEDIDAS DE MORALES. REAGIRAM COMO O BRASIL?
Não. Tomaram as providências cabíveis. Notificaram à Bolívia que querem ser indenizadas imediatamente, e seus advogados já trabalham para contestar judicialmente as expropriações.

O BRASIL PODERIA, ENTÃO, TER-SE RECUSADO A NEGOCIAR O REAJUSTE DO PREÇO DO GÁS BOLIVIANO?
Claro. O Brasil deveria exigir o cumprimento dos contratos já firmados. Eles prevêem o reajuste de preço a cada três meses, seguindo oscilações do petróleo. Também prevêem a possibilidade de alteração de suas cláusulas a cada cinco anos. Por causa disso, não se pode dizer que os contratos não sejam equilibrados. Não há por que rasgá-los de uma hora para a outra. Querem discutir o preço do gás? Tudo bem, mas é preciso levar em conta outros elementos. Inclusive o fato de que o Brasil pagou, durante anos, por um gás que não consumiu. A Petrobras poderia ser compensada por isso. Seria legal, legítimo e civilizado. Mais: se Morales quer mudar as regras, por que não vai a Brasília negociar? O governo Lula, ao contrário, despacha autoridades para discutir as regras em campo adversário.

O BRASIL E A BOLÍVIA INTEGRAM A COMUNIDADE SUL-AMERICANA DE NAÇÕES. OS ATOS DE MORALES NÃO PODERIAM SER QUESTIONADOS NO ÂMBITO DESSA ASSOCIAÇÃO?
Nunca vi, na história recente, uma época em que o Brasil estivesse tão isolado na América Latina como agora. Veja: o país tentou emplacar o presidente da OMC e ficou sozinho. Tentou o presidente do Banco Mundial e também ficou sozinho. No Conselho de Segurança da ONU, além de estar sozinho, ainda enfrenta a oposição de países como a Argentina. Nessa crise com a Bolívia, nenhum outro país fez um gesto sequer de solidariedade.

A POLÍTICA EXTERNA DE LULA NAUFRAGOU?
Desde o barão do Rio Branco, a política externa brasileira sempre teve a mesma linha mestra. Neste governo, houve uma guinada política muito grande. Trocamos o pragmatismo pela ideologia, e a coisa saiu dos trilhos. Desde que o presidente Lula assumiu, o país perdeu respeito na América Latina.



Revista Veja, maio de 2006

O crime compensou

A primeira punição do caso mensalão
é convertida em multa – e dividida
em cinco suaves prestações.
Tarso Genro, as cestas básicas e o valerioduto: as dívidas da campanha do ministro foram pagas com dinheiro ilega.

Às vésperas do primeiro aniversário do mensalão, surgiu enfim a primeira punição judicial do caso. Três dirigentes do PT no Rio Grande do Sul, com o objetivo de se livrar do processo e deixar de correr o risco de parar no xilindró, fizeram um acordo com a Justiça: aceitaram doar cestas básicas a uma instituição de caridade em Porto Alegre. A quantidade de cestas básicas é que chama atenção: uma por mês, durante cinco meses. E nada mais. No total, cada réu terá de desembolsar 1.750 reais, divididos em cinco suaves parcelas de 350 reais. Os três dirigentes são réus confessos. Eles admitiram que pegaram 1 milhão de reais no valerioduto e disseram ter usado o dinheiro para pagar despesas de campanha do PT gaúcho. O petista Marcos Fernando Trindade atuava como "mula" do esquema, carregando dinheiro em malas entre Belo Horizonte e Porto Alegre. Quando desembarcava na capital gaúcha, o dinheiro era distribuído pelo ex-presidente do partido, David Stival, e pelo ex-tesoureiro, Marcelino Pedrinho Pies. Agora, cada um vai pagar um salário mínimo a uma instituição de caridade durante cinco meses.

A desproporção entre o crime e a punição só não é maior que o constrangimento que o caso produz para o ministro Tarso Genro, o principal articulador político do governo, em Brasília. O dinheiro que o valerioduto canalizou ao PT gaúcho serviu para pagar despesas da campanha de Tarso Genro ao governo do estado, na qual perdeu a disputa para o atual governador, Germano Rigotto, do PMDB. Do total de 1 milhão do valerioduto embolsado pelo PT gaúcho, a maior parte chegou ao estado em malas. Mas 150.000 reais desembarcaram na arca petista por meio de dois cheques de 75.000 reais, ambos nominais a duas gráficas, a Impressul e a Comunicação Impressa. Em sua defesa, os acusados tentaram isentar Tarso Genro. Disseram que a quantia foi utilizada para saldar papagaios eleitorais, mas que nenhum centavo foi usado na campanha de Genro. As investigações, no entanto, mostraram que essa versão não tinha respaldo nos fatos. Descobriu-se que as duas gráficas brindadas com os cheques de Valério foram fornecedoras da campanha eleitoral de Genro ao governo.

O caso ficou mais incômodo quando se revelou que o Ministério da Educação, durante a gestão de Tarso Genro, entre 2004 e 2005, contratou as duas gráficas por 186.000 reais. O contrato, para produzir folders e material didáticos para o governo, foi feito sem licitação pública. O envolvimento de Genro com o valerioduto no Rio Grande do Sul veio a público há nove meses, mas é um embaraço permanente. Afinal, quando o escândalo do mensalão estourou, em junho do ano passado, Genro deixou o Ministério da Educação para presidir o PT. Chegou com ímpetos saneadores. Anunciou, na época, que o partido precisava passar por uma "refundação" e até propôs que o PT não permitisse que os mensaleiros petistas se lançassem candidatos na eleição seguinte. Como se sabe, não aconteceu nem uma coisa nem outra.

A confortável situação judicial dos mensaleiros gaúchos deve-se a duas razões. A primeira é que, como o mensalão estava sendo investigado pela Procuradoria-Geral da República, a Justiça gaúcha não podia aprofundar a apuração sobre a origem do dinheiro que abasteceu as arcas petistas no Rio Grande do Sul. Por isso, o promotor que cuida do caso, Ivan Melgaré, só pôde denunciar os dirigentes petistas pelo crime de formação de caixa dois. A segunda razão é que, quando um crime tem pena mínima inferior a um ano de prisão, como é o caso, a Justiça é obrigada a oferecer ao réu a substituição da prisão por uma pena alternativa, como a doação de cestas básicas. Os petistas dos pampas toparam na hora. Sugeriram apenas uma alteração, aceita pela Justiça. Em vez de pagar tudo de uma vez, como propôs o Ministério Público gaúcho, pediram para parcelar a dívida. Assim, todo dia 5 de cada mês, a antiga cúpula do PT gaúcho vai ao Lar de Santo Antônio dos Excepcionais, em Porto Alegre, e recolhe 350 reais aos cofres da instituição.

Revista veja, ed 1956, maio de 2006

A República dos Alucinados


"Nossa derrocada será inimaginável,
se não abrirmos urgentemente os olhos
para ver, os ouvidos para escutar e as
mãos para trabalhar em nosso favor"

Quando esta coluna sair, estarei ainda por alguns dias na Itália, de onde a escrevo, ligada a meu país pela internet e pelos telefonemas de amigos e filhos. De outra maneira eu de nada saberia, pois a Europa nos desconhece quase totalmente. Aceitei o chamado de minha editora italiana, a Bompiani, para falar no lançamento de meu livro Perdas & Ganhos na Feira de Turim. Minha colaboração mínima para que se tenha aos poucos uma visão mais real do Brasil, não apenas os simpáticos Carnaval, violão, caipirinha e futebol.

Cansei de estar no exterior e me indagarem se realmente há editoras no Brasil, e universidades, e o resto. Há coisas das quais não falo porque me angustiam e envergonham, entre tantas que me orgulham. Para mim meu país é como filho: nele só quero que vejam qualidades.

Não quero ter de dizer, por exemplo, que viramos uma terra de alucinados, porque nos dizem algumas autoridades que tudo é mania de perseguição, é coisa inventada.

Assim, enquanto a saúde pública apodrece e pessoas ainda morrem nas filas do INSS ou em corredores de hospitais cujo corpo de médicos e enfermeiras está esgotado de trabalhar, alguém com autoridade vem nos dizer que estamos chegando quase à perfeição em matéria de saúde pública. Diante disso, só posso crer que sofremos das faculdades mentais, nós que vemos e vivemos o contrário.

Alguém disse também, no mesmo terreno, que o problema são os velhinhos, os aposentados, que pegaram a péssima mania de correr para as filas de madrugada. Se chegassem em horário normal e mais saudável, 7 ou 8 horas, teriam pronto atendimento. Mais um atestado de que nós, os comuns brasileiros, andamos nos alucinando. Na nossa doença mental inventamos também que as escolas estão em condições péssimas, o ensino elementar caindo pelas tabelas, o médio nem se fala, e a universidade desmoronando.

Nem comento mais o supérfluo papel higiênico nos banheiros de professores (de alunos, nem falar), mas penso nas bibliotecas precárias, nos laboratórios antiquados, quando não destruídos por fanáticos amantes do atraso e da devastação. Professores pouco estimulados e pessimamente pagos, currículos absurdos, prédios em condições físicas inaceitáveis... e, de modo geral, a queda do nível de ensino.

Alucinou-se minha amiga há duas semanas, quando, levando uma criança pela mão, foi abordada por um jovem drogado que a ameaçou e lhe arranhou a cara em plena manhã de movimento. Teve sorte minha amiga: não foi esfaqueada nem estuprada. Voltou para casa, pensando em como explicar tudo a uma criança pequena.

E comentamos juntas que estímulo, que modelo teria aquele jovem entre nossos homens públicos – nem todos, os dignos eu respeito cada dia mais – diante dos fatos que vêm acontecendo conosco. Para que ser saudável e honesto, trabalhar, sustentar-se, quem sabe ajudar a família? Os bilhões roubados e desaparecidos nas homéricas falcatruas que tentam esconder ainda poderiam ter salvo da desgraça muitos milhares de jovens como aquele. Poderiam ter fundado e melhorado centenas de escolas, bibliotecas, hospitais, creches.

Agora, para culminar, um país vizinho abocanha um pedaço da Petrobras, que é nossa, é de seus acionistas, é do povo brasileiro, que certamente vai arcar com esse prejuízo material. Quem vai pagar pela honra do Brasil, tão abertamente atacada? Estamos alucinando, nos dirão as autoridades, alucinamos ser espoliados e roubados, já não pelo MST, cujo bonezinho tem sido usado por governantes nossos, mas pela Bolívia, que roubou, literalmente, algo nosso. Houve reação além de um protesto pífio ou da afirmação de nosso governante principal de que a Bolívia tinha direito de fazer o que fez e que não teríamos maior prejuízo? Primeiro, aliás, a Bolívia fez um pequeno treino, roubando uma siderúrgica. Como não houve grande reação, partiu para algo maior. De novo, ninguém nos defendeu, ninguém reagiu com firmeza, ninguém nos protege – é a sensação geral. Estamos perdendo, além de bens materiais, avanços possíveis e progresso, a nossa honra como país.

Mas quem sabe é tudo fantasia nossa? Somos distraídos demais, alegremente ignoramos as graves estripulias que ocorrem no Brasil ou contra o Brasil: somos, afinal, habitantes da República dos Alucinados, em que tudo se perderá e a derrocada será inimaginável, se não abrirmos urgentemente os olhos para ver, os ouvidos para escutar e as mãos para trabalhar em nosso favor.

Lya Luft

Começo uma espécie de "remake" de algumas das grandes matérias da Revista Veja. Essa edição em especia(1956), já postei várias matérias. Esta é mais uma.

Missão da FAB salva vidas na Amazônia

No oitavo mês de gravidez, a dona de casa Maria das Graças de Freitas, de 24 anos, não tinha passado por um simples exame de ultrassom até a chegada de uma missão médica da Força Aérea Brasileira (FAB) a Tapauá, no sudoeste do Amazonas, a 1.127 km de Manaus.


Bastou o uso do equipamento inexistente na cidade para que a ginecologista tenente Fabíola Marques percebesse que o feto apresentava um derrame de coração e poderia morrer a qualquer momento, estendendo o risco à mãe. Um aparato de urgência foi acionado para que a mulher, levada de avião a Manaus, fosse submetida a uma cirurgia com possibilidade de sobrevivência para mãe e filho.

Vítima do descaso do poder público, a população pobre dos confins da Amazônia depende da própria sorte - e de eventuais missões de ajuda como a da FAB - para sobreviver. Há falta de médicos, hospitais e transporte, e ausência total de saneamento básico, como água tratada, coleta de lixo e rede de esgotos. Em Apuí, no sul do Estado, a equipe improvisou uma unidade de terapia intensiva para evitar a morte de um menino de 5 anos que entrava em convulsão numa crise de diabete. A cidade tem um hospital, mas a médica não conseguiu diagnosticar a doença. Na ambulância não havia maca nem suporte para o recipiente com soro. Os médicos pediram ao prefeito para usar no transporte seu veículo oficial: uma picape Mitsubishi, com bancos de couro.

A missão do Correio Aéreo Nacional (CAN) do VII Comando Aéreo Regional (Comar), sediado em Manaus, percorreu quatro municípios do interior amazonense de 25 a 29 de maio. Os quatro oficiais médicos e um dentista atenderam 1.200 pessoas e salvaram ao menos quatro vidas. Desde 2004 as equipes atendem municípios com carências em saúde pública. Esta foi a primeira das nove rotas a serem cumpridas neste ano.

Além de levar especialistas às populações, o programa tem objetivos estratégicos, como o levantamento de possíveis riscos à segurança nacional. São escolhidas cidades com baixo índice de desenvolvimento social e sem saneamento básico.

URUBUS

Em Tapauá, a construção de um hospital pelo Estado está parada há dez anos. A população tem de recorrer a um hospital de lata montado pelos ingleses em 1953, que deveria ser provisório. A obra passou por três gestões estaduais e municipais sem ser concluída. O lixo é amontoado nas ruas. Quando há coleta, um trator-carreta espalha os monturos a céu aberto na beira da estrada. Os urubus disputam os restos, depois invadem a cidade e infestam as ruas. "É nosso aliado, pois acaba com a carniça", diz o secretário de Saúde, Jani Kenti Iwata.

O município, com 89 mil km quadrados, fica num paraíso ecológico, onde se encontram as águas dos rios Purus e Ipixuna. Abriga 23 aldeias indígenas, quatro parques nacionais e a maior reserva biológica de quelônios de água doce do mundo, mas seus 20 mil habitantes - 3 mil índios - vivem na miséria.

De acordo com Iwata, 60% do pescado nobre que abastece Manaus sai do município, mas o pescador recebe uma mixaria pelo produto, que chega a custar dez vezes mais na capital. Além do pescado, toda semana o comerciante Erizon de Mello compra 23 toneladas de castanha, pagando R$ 0,30 por quilo aos ribeirinhos, lota um barco e entrega a R$ 1 em Manaus, mas nada recolhe de imposto.

Tapauá vive de repasses do Estado e da União. Na gestão passada, a prefeitura instalou redes de esgoto que nunca funcionaram, pois os tubos quebraram com a pressão da terra. Os dejetos são lançados no Purus e nos igarapés, ou escoam para a rua. O asfalto afundou e as vias se encheram de crateras.

DOENÇAS

Cercada por rios, Tapauá é abastecida por 23 poços artesianos, mas pelo menos seis estão contaminados. Em 2008, o município teve 4.300 casos de malária. Neste ano, a agente de saúde Eunice de Lima já se infectou seis vezes. Segundo o secretário, há 500 casos anuais de hepatite e, em 2009, foram notificados mais de 20 de febre tifoide.

A cidade tem cinco médicos, com salário de R$ 13 mil e ainda assim pessoas doentes fizeram fila nos postos montados pela FAB. Entre elas, um homem com o pulmão consumido pela tuberculose. "Ele tinha a radiografia com a imagem da doença há mais de um mês, mas não fora encaminhado para tratamento", contou o médico Bruno Hideo Otani. Uma criança atendida pelo pediatra tenente Alciberto de Almeida Silva tinha uma inflamação de ouvido tão severa que usava papel higiênico para conter o corrimento.

O secretário de Saúde de Tapauá disse que o atual prefeito pegou a cidade em crise, com o penúltimo IDH do Estado. "A prefeitura é obrigada a empregar 10% da população para dar renda aos moradores." No hospital de lata, onde cirurgias são interrompidas pela queda de energia, os médicos são auxiliados por parteiras.

Iwata diz que os repasses do governo para o atendimento básico, de R$ 17 por pessoa ao ano, são insuficientes. "Temos 30 casos de alta complexidade por mês para encaminhar a Manaus, a um custo de até R$ 10 mil por paciente, se for urgência, e o Estado não banca."

SANEAMENTO

Em Canutama, a 619 km de Manaus pelo ar, a equipe da FAB tomou um susto: a pista de pouso administrada pela prefeitura estava cheia de urubus. A razão era um lixão à beira do asfalto. O tenente aviador Renato Guimarães teve de fazer uma manobra difícil com o Caravan da Força Aérea para pousar.

Em terra, não havia ninguém à espera dos médicos. Embora informada oficialmente da missão, a prefeitura não convocou os principais interessados - 80% da população está infectada pelo parasita da filária, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. O prefeito Rocivaldo Amorim (PP) estava havia semanas em Manaus e coube ao vice José de Souza (PTB) desculpar-se com a equipe.

Os médicos não desistiram, instalaram-se no hospital e a população foi chamada por carro de som. Camutana tem alto índice de gravidez, sobretudo entre adolescentes. "São 12 mil habitantes, mas fazemos até 90 partos por mês", disse a secretária Lenice Amorim. "Metade é de meninas na faixa dos 12 aos 16." O hospital tem ultrassom, mas não há operador. Raimunda Lopes Silva, de 22 anos, soube que seria mãe de gêmeos no exame da ginecologista Fabíola.

O esquecimento da prefeitura privou os moradores da zona rural de se deslocarem para receber atendimento. De acordo com o médico peruano Marlio Daza La Serna, nas áreas ribeirinhas se concentram os casos de desnutrição, verminoses e hanseníase. Entre os pacientes, muitos são índios das etnias palmari, apuriná e jamamadi.

Na área urbana, o quadro de saneamento precário se repete, assim como o balé dos urubus nas cumeeiras de zinco. "É a ave símbolo do Amazonas", brincou a estudante Alcelina Monteiro. Na parte baixa, o esgoto das palafitas cai sobre galinhas e porcos nos quintais alagados e escoa para o Rio Purus. O cheiro de fezes incomoda. É o mesmo odor que exala no entorno das ocas da aldeia São João, dos índios apurinás, em Tapauá. Ali não há banheiro.

O posto de saúde foi transformado em moradia e os índios ajudam a congestionar o sistema municipal. O agente de saúde indígena Fladinelson da Silva prepara rapé com folhas torradas que, segundo ele, curam gripe e espantam o sono. Desde 2004 a aldeia tem um sistema de água encanada que nunca funcionou. Parte dos canos rachou. O cacique Adílio Francisco da Silva diz que índios usam água poluída do igarapé São João, que recebe esgoto da cidade. A escolinha indígena está sem aula, por falta de professor. O cacique reclama que caçadores e madeireiros invadem a reserva. "Dão tiros em queixada, veado e macaco-barrigudo."

FALTA DE MÉDICOS

O Estado do Amazonas tem 6 mil médicos, mas só mil estão no interior. Todo final de ano, as cidades enfrentam o que o prefeito de Nova Olinda do Norte, Adenilson Lima Reis (PMDB), chama de leilão da medicina. "Uma prefeitura oferece mais e tira o médico da outra." A carência de profissionais da saúde gera a invasão de médicos estrangeiros, sobretudo bolivianos e peruanos. São cerca de 200 no Estado, muitos sem o registro no Conselho Regional de Medicina. "São os únicos que aceitam trabalhar pelo valor que o governo repassa para o Programa Saúde da Família", diz Reis. O repasse é de R$ 9 mil mensais para pagar um médico, um enfermeiro e um auxiliar.

A Prefeitura de Nova Olinda paga R$ 12,5 mil para o médico, R$ 4 mil para o enfermeiro e R$ 1 mil para o auxiliar, num total de R$ 17,5 mil. O município banca a diferença. "Quem paga menos fica sem médico", diz Reis. A cidade tem 10 médicos, mas foi a ginecologista da FAB quem descobriu que o bebê de uma mulher grávida de 8 meses tinha hidropsia fetal e morreria em uma semana, podendo causar a morte da mãe se ela não fosse submetida a cirurgia.

O prefeito lidera um movimento pela regularização de diplomas de estrangeiros e de brasileiros que fizeram medicina no exterior. "Ou a gente contrata o estrangeiro ou as pessoas vão morrer." Membro da Federação Nacional de Secretários de Saúde, Iwata diz que é preciso cuidado. Há dois anos, a Prefeitura de Tapauá contratou dois médicos bolivianos e só depois de meses - e de várias cirurgias realizadas - descobriu que eles não tinham diploma. Ele disse que a situação dos municípios já foi bem pior. "Tapauá tem 56 anos e, até o ano passado, só tinha um médico."

A tenente Fabíola, que já participou de várias missões, diz que a precariedade na saúde reflete, em parte, a cultura do ribeirinho amazonense, pouco dado a hábitos higiênicos e acostumado a uma alimentação pobre - uma herança indígena. Mas a situação é agravada pela inoperância dos agentes públicos. "A gente percebe que até existem recursos, instalações e equipamentos, mas não são postos a serviço da população."

A Secretaria de Estado da Saúde informou que as verbas previstas nos convênios com os municípios são repassadas regularmente. O hospital de Tapauá será concluído até 2010.

O repórter viajou a convite da FAB


ESTADÃO

Fiz questão de colocar aqui esta notícia, pelo trabalho destes militares.

Fui Tenente Médico da FAB em 1997, e fazia exatamente isso. Fui também do VII COMAR(o mesmo acima), que cuida da Amazônia Ocidental). Percorri, fazendo estas missões de salvamento médico, por ar, água e terra, em 4 estados: Amazonas, Rondônia, Roraima, Acre.

Parabéns aos irmãos da FAB!!!!!
Já fiz este trabalho, que além de gartificante, é fundamental para Amazônia. Lá , os únicos representantes do Brasil a levar um pouco de "Estado" a estes locais ermos , são as Força Armadas.
Parabéns Força Aérea Brasileira!!!!!