sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

2010 COMEÇA COM CHUVAS TORRENCIAIS NO SUDESTE

Parte das vítimas em Ilha Grande estavam hospedadas na Pousada Sankay Foto: Nicholas Serrano/AE

RIO - As fortes chuvas dos últimos dias de 2009 transformaram num cenário trágico um dos principais paraísos turísticos do Estado do Rio. O deslizamento de uma encosta atingiu uma pousada e sete casas na Ilha Grande, na baía de Angra dos Reis, matando pelo menos 19 pessoas. No continente, outras sete pessoas morreram em outro desmoronamento de terra, no Morro da Carioca, no centro histórico da cidade, totalizando em pelo menos 26 o número de vítimas fatais da tragédia. Até o início da noite desta sexta-feira, 1º, bombeiros ainda trabalhavam nos dois locais em busca de outras vítimas ou sobreviventes.

Na Ilha Grande, os bombeiros haviam resgatado pelo menos 13 corpos de turistas e seis de moradores locais, informou o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão.

Em todo o Estado do Rio, 48 pessoas já morreram em consequência da chuva dos últimos dias. De acordo com a Defesa Civil, Angra dos Reis vinha sofrendo com as chuvas desde a quarta-feira, 30, e já tem 800 pessoas desabrigadas.


Deslizamento no Morro da Carioca Foto: Danielle Viana/FotoRepóter/AE

Segundo os bombeiros, cerca de 65 pessoas que estavam hospedadas na Pousada Sankay, na praia de Bananal, na face continental da ilha, escaparam do incidente com vida. Casas vizinhas à pousada, que ficou totalmente destruída, também foram atingidas pelo deslizamento.

Entre os mortos está a filha dos proprietários da pousada. Yumi Faraci, de 18 anos, e um casal de amigos dela ficaram sob os escombros e não resistiram. Os donos, Geraldo e Sonia Faraci, escaparam com vida, mas ficaram muito abalados. A família deles, de Belo Horizonte, não quis comentar a tragédia.

O vice-prefeito de Angra dos Reis, Essiomar Gomes, montou um posto de arrecadação de alimentos e itens de primeira necessidade no colégio Ceab. Segundo ele, o número de desabrigados na cidade tende a piorar.

O comandante geral do Corpo de Bombeiros do Rio e subsecretário estadual de Defesa Civil, Pedro Machado, e o secretário de Saúde e Defesa Civil do Rio, Sérgio Côrtes, estão no local e ajudam no trabalho de resgate.

Mais de 100 pessoas, entre bombeiros, médicos e voluntários, foram mobilizados para a operação de resgate em Angra. Militares da Marinha também ajudaram. Helicópteros e navios forem empregados no transporte de equipamentos e de pelo menos 10 feridos.

"Existe muita dificuldade para fazer esse material todo chegar aqui. As pedras e árvores que caíram sobre a pousada e as casas são muito grandes", explicou o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, que chegou à ilha ainda pela manhã. "Infelizmente, acreditamos que vamos ter um número ainda mais elevado de vítimas por conta desses desmoronamentos".

Autoridades envolvidas na operação estimam que pode haver pelo menos mais 25 corpos na Ilha Grande e outros seis no Carioca.

Bombeiros transportam corpo de vítima de deslizamento de terra em Ilha Grande, em Angra dos Reis

Pezão comanda desde as 8h da manhã desta sexta-feira as operações de resgate de feridos e recuperação dos corpos das vítimas do desmoronamento. As dificuldades de acesso e a falta de infra-estrutura foram os principais obstáculos apontados por ele para a realização dos trabalhados.

Apoio federal

Segundo o vice-governador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, ligaram para oferecer todo o apoio logístico necessário, principalmente da parte da Marinha. Embarcações oficiais foram usadas para tentar isolar o local dos muito curiosos que foram até a região mais atingida. Ainda de acordo com Pezão, estaleiros da região foram procurados para auxiliar no transporte de máquinas pesadas para remoção do entulho. Holofotes serão levados para o local, a fim de permitir a realização dos trabalhos de resgate durante a noite.

Pezão passava a virada do ano na mansão de veraneio do governador Sérgio Cabral (PMDB), em Mangaratiba, município vizinho a Angra dos Reis, quando foi alertado sobre a situação ainda de madrugada pelo prefeito da cidade, Tuca Jordão (PMDB). Ele deve passar todo o fim de semana na região. Também de manhã, o secretário de estado de Saúde, Sérgio Côrtes, foi para a ilha para auxiliar no resgate às vítimas. No fim da tarde, Cabral divulgou uma nota lamentando a tragédia na cidade e prestando "a sua integral solidariedade aos familiares das vítimas, diante de momento tão triste e doloroso para todos".

Bombeiros trabalham nas buscas em Ilha Grande; holofotes darão suporte ao resgate durante a noite

Ex-prefeito de Angra dos Reis, o deputado federal Luiz Sérgio (PT) percorreu alguns dos locais mais afetados pela chuva na cidade. Segundo ele, a situação no Morro da Carioca é crítica, com diversos pontos ainda em risco de desmoronamento e muita gente desabrigada. "Nunca vi chover tanto e em tantas áreas da cidade. Já tivemos anteriormente problemas em locais específicos, enchentes em determinadas regiões. Mas dessa vez, a tempestade castigou o munípio todo", disse ele.


Grande parte de Angra dos Reis está sem telefone fixo e algumas regiões ainda permanecem sem energia elétrica, devido à queda de árvores. O centro da cidade ficou sem luz por volta das 2h e o restabelecimento voltou às 9h30. Em Ilha Grande ainda falta energia.

Possibilidades de chuva

Segundo a empresa de meteorologia Climatempo há possibilidades de novas chuvas em Angra dos Reis até o final desta sexta-feira, pois o ar está muito úmido e quente, o que facilita o crescimento das nuvens de chuva. Desde as 9 horas desta manhã não há registro de chuva no município.

De acordo com a Climatempo, apesar de ainda haver muita nebulosidade sobre o município, houve elevação da temperatura ao longo do dia, que chegou aos 31ºC. O radar meteorológico do Pico do Couto, no Rio de Janeiro, operado pela Aeronáutica, não detectava chuva sobre a região. Porém, novas áreas de chuva já tinham surgido na região de Mangaratiba.

Além do Morro da Carioca, os bairros de Angra Getulândia e Morro da Glória 2 também estão em situação crítica, elevando o risco de novos desmoronamentos, em caso de chuva.

"Tivemos casas que caíram, carros soterrados, ônibus perdidos. Essa parte ainda está interditada", explicou o vice-prefeito de Angra. "Estamos praticamente ilhados".

Rio-Santos

A região de Angra e Paraty foi muito atingida pela chuva desta quinta-feira, 31, último dia do ano. Uma queda de barreira interditou os dois sentidos da BR-101 (Rio-Santos) próximo a Paraty. Também houve deslizamentos em pelo menos outros quatro pontos da rodovia, um deles ocorreu bem próximo à entrada de Angra. A Polícia Rodoviária Federal recomenda que os motoristas evitem a rodovia.

O prefeito da cidade, Tuca Jordão, declarou estado de calamidade e luto oficial por três dias. Ele também cancelou a programação do final de ano, entre elas a tradicional procissão marítima que aconteceria hoje. A festa em comemoração aos 508 anos de Angra, que seria comemorada no próximo dia 6, também foi cancelada.

Capital do Estado

Na capital carioca, o prefeito Eduardo Paes decretou estado de alerta, com a queda de mais de 100 barreiras. Também há 17 imóveis com risco de desabamento. O prefeito pediu que as pessoas que moram em áreas de risco saiam de suas casas pelo menos até sexta-feira por causa da manutenção do risco de deslizamentos. Segundo ele, a zona norte da cidade foi a mais atingida. Em todo o Estado do Rio, pelo menos 18 pessoas morreram em consequência da chuva nos últimos dias entre os dias 30 e 31 de dezembro de 2009.



Estadão

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