quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Chavez sempre sobreviveu, mas desta vez está muito mal


É cedo para dizer que o presidente Hugo Chavez está com risco de perder o poder. Ele sempre sobreviveu até hoje aos momentos difíceis. Não porque ele seja um presidente popular, apoiado pelas massas, e vencedor de eleições democráticas como sustenta o governo brasileiro, mas porque ele fez um excelente trabalho em tirar a força das instituições venezuelanas. Ele manipulou e mudou tanto as leis e as normas democráticas que agora fica dificil institucionalmente reagir a ele. Entendi isso quando estive lá em 2003 e ele enfrentava a gravíssima crise provocada pela greve geral decretada pelas empresas. Ele era um presidente literalmente encurralado quando fui falar com ele no Palácio Miraflores todo cercado de arame farpado como de um país em guerra.

Mas desta vez a situação de Chavez é mesmo ruim. O país está em recessão, quando o mundo já começou a retomar o crescimento. A inflação está alta, elevando a perda de poder aquisitivo da população. Tem estado alta há anos, entre 25% e 30%, mas dará certamente novo salto agora por causa da desvalorização cambial. O país já estava desabastecido e ficará mais com a pressão dele sobre as empresas de varejo. O Exército nas lojas é só um esforço patético para regularizar a economia. O país sofre ainda os efeitos de um apagão, com racionamento de energia. Aumenta a violência, deteriora a infra-estrutura, as empresas pararam de investir por uma justificada crise de confiança no governo.

Tudo isso é culpa dele mesmo, Chavez. Ele é péssimo administrador. Seu tempo é dedicado a montar artimanhas para o controle dos poderes institucionais para assim se perpetuar no poder. A estratégia funcionou até agora, ele está desde 1998 no governo da Venezuela. As eleições que ele perdeu, foram revogadas na prática. Assim: perdeu a eleição para a prefeitura de Caracas, mas resolveu o problema tirando todos os poderes da administração municipal. Perdeu um plebiscito para mudar a constituição, ficou seis meses quieto e depois pôs em prática por um decreto presidencial tudo aquilo que havia sido rejeitado no plebiscito. Chavez não é o democrata que o governo Lula sustenta, ele só aceita o resultado das eleições que ganha.

Seu novo atentado às empresas de comunicação é parte de um longo processo em que foi encurralando, fechando, ameaçando os órgãos de imprensa no país. Eu estive tanto nas televisões estatais, quanto na Globovision. Na estatal não havia sombra do que se pudesse chamar de jornalismo, era pura propaganda. A Globovision estava sendo ameaçada fisicamente pelos partidários de Chavez, inclusive com um atentado ou perseguição dos jornalistas da rede por milícias. As TVs abertas privadas tiveram enormes perdas econômicas com a obrigatoriedade das transmissões de seus pronunciamentos, porque eles duram horas, acontecem em horários nobres, tomam toda a manhã de domingo. Ele é um falador compulsivo. Por isso se entende que as TVs a cabo tenham se recusado a cumprir a ordem de transmitir seus pronunciamentos. Não é como aqui, em que o pronunciamento oficial do presidente em cadeia nacional dura dez minutos, e só acontece quando há de fato necessidade. Chavez não governa, faz pronunciamentos de TV o dia inteiro.

Uma das graves crises que enfrentou e superou foi quando fechou a RCTV sinal aberto. A empresa se recriou como sinal fechado e manteve a mesma programação e um alto nível de audiência. Agora, de novo, ele fecha a RCTV a cabo. Segundo ataque à mesma empresa.

Os conflitos entre os seus partidários e a oposição vão continuar. Quando estive lá era uma manifestação por dia. E eles se enfrentam com fúria nas ruas. O governo de Chavez formou, treinou e armou muitos grupos de milicianos exatamente para neste momento defender seu governo. A Venezuela há muito tempo deixou de ser uma democracia e é há muito tempo uma sociedade polarizada. Não vai ser um caminho fácil o de reconstruir a democracia venezuelana.

Vários me perguntam no twitter como é possível encerrar o governo de Chavez. A resposta: isso cabe unicamente aos venezuelanos. As elites políticas tradicionais erraram muito no passado, em governos corruptos e desligados dos interesses da população, criando as bases para que um golpista - que é o que Chavez sempre foi, desde o dia que tentou entrar em Miraflores com um tanque em 1992 - populista surgisse e tomasse o poder por tanto tempo. Não há nada que se possa fazer do exterior. A Venezuela tem que encontrar, sozinha, o seu caminho. Não será fácil. Só nos cabe torcer por eles.


Mirian Leitão

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